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JORNAL DE BRASÍLIA
30/07/1993
A VANGUARDA NA RETAGUARDA?
Para Ferreira Gullar, atitudes antes tidas como rebeldes e radicais hoje em dia seriam conformistas e acadêmicas
No começo do século, o francês Marcel Duchamp provocou escândalo ao enviar um urinol a um tradicional salão de belas artes para protestar contra as imposições acadêmicas. Mas agora a situação se inverte e o alvo da polêmica é a própria vanguarda. Segundo o poeta e crítico Ferreira Gullar, atual diretor do IBAC (Instituto Brasileiro de Apoio à Cultura), do Ministério da Cultura, a repetição do gesto de Duchamp é que se tornou uma atitude acadêmica. A controvérsia está aberta com o livro "Argumentação contra a morte da arte" (Ed. Revan), reunião de ensaios e artigos. Gullar afirma que as tendências mais radicais das vanguardas destruíram as linguagens artísticas. No lugar de artistas, as Bienais passaram a ser ocupadas por marceneiros, eletricistas e açougueiros.
O rastilho de polêmica aceso por Gullar passa por Lygia Clark, Hélio Oiticica além de Marcel Duchamp. E Gullar fala de dentro. Ele foi o principal teórico do movimento neo-concreto, que teve a participação de Lygia e Hélio. A crítica de Gullar não deixa de ser, portanto, também uma auto-crítica sobre a participação nas vanguardas dos anos 60.
Jornal de Brasília - Em síntese, no que consiste e o que induziu a esta situação de mistificação no território das artes?
Ferreira Gullar - A questão é que as tendências mais radicais da arte contemporânea levaram a uma destruição das linguagens artísticas. Por falta de coragem, não se faz a crítica deste processo, no momento em que as propostas radicais da vanguarda chegaram a um ponto de exaustão, chegaram a um ponto onde não tem mais nada a ver com a arte.
J.B. - Como isto se torna possível?
Gullar - Por um lado existe uma crítica omissa, conivente e conveniente por outro lado existem instituição que, de alguma maneira, dependem desta situação para sobreviver. Você tem o exemplo de uma exposição de renome internacional como a Bienal de Kassael, que teve como curador um sujeito que declarou que não sabia mais o que era a arte. Ele selecionou os nomes dos artistas. Claro que não é possível definir cientificamente o que é arte. Mas se uma pessoa não sabe o que é arte não tem condições de organizar uma Bienal.
J.B. - Qual o alcance da crítica que dirige a Marcel Duchamp? Até que ponto nega Duchamp? Ele não ampliou o repertório, os materiais e os limites da arte?
Gullar - É preciso colocar as coisas em seu devido lugar. Eu não nego a importância de Marcel Duchamp. Mas ele é apenas um dos ampliaram o campo da arte para as novas formas como objeto. O caminho que ruptura com as formas tradicionais já havia sido aberto pelos dadaístas. E o próprio caminho que Duchamp segue é uma conseqüência de papier collé cubista. A utilização da estopa, areia e prego nos quadros cubistas já prenuncia o abandono da tela e a incorporação do objeto como matéria da arte. Duchamp não nasceu do nada. A diferença está entre o que Duchamp fez no tempo dele e no que quer fazer hoje.
J.B. - Em que sentido?
Gullar - Quando Duchamp enviou um urinol a um salão estava realizando um gesto de alto inconformismo e denunciando uma série de imposições que envolviam a arte naquele momento. O urinol não é obra de arte. Quando ele fez isto o seu gesto era rebeldia, mas hoje seria puro conformismo. As instituições já assimilaram este gesto. Esta atitude de denúncia e de arte sem linguagem já se exauriu. Em Duchamp esta atitude era significativa de uma postura ética. Mas por outro lado contribui para a destruição da obra de arte. Duchamp sacrificou a sua obra em razão desta atitude ética. A obra de Duchamp é datada.
J.B. - Em entrevista, você afirmou que Lygia Clark e Hélio Oiticica eram excessivamente cerebrais. Mas a busca dos dois não era precisamente do sensorial?
Gullar - O Hélio era um cara de um indiscutível talento e que levou ao ponto extremo as experiências do neo-concretismo do qual eu era o teórico. E digo mesmo que houve uma influência recíproca dos artistas plásticos sobre a minha poesia e da minha poesia sobre os artistas plásticos. O meu Poema Enterrado influenciou os trabalhos de Hélio. Então eu não estou falando de fora. Nós pegamos a linguagem concreta e altamente intelectualizada e colocamos uma nova substância nela. A Lygia tem uma trajetória de uma enorme coerência, desde o momento em que os quadros delas incorporaram a moldura como espaço de expressão até a série Bichos, inovadora e verdadeira. Mas, ao invés de aprofundar o desenvolvimento desta linguagem, ela resolveu seguir adiante, destruindo a própria linguagem. Quando coloca sacos de papel na parede ou fios de nylon na boca, reduz a experiência estética a algo meramente sensorial. Acaba com a dimensão reflexiva e espiritual da obra de arte. E consequentemente o homem se torna um bicho. E agora respondo a sua pergunta: o excesso de intelectualismo levou ao puro sensorial.
J.B. - Mas você faria esta mesma avaliação do trabalho de Hélio Oiticica?
Gullar - O último trabalho que vi do Hélio era uma instalação no Hotel Meridien. Era um espaço com água e pedrinhas. Você tinha de retirar o sapato para sentir a água e as pedra. Olha só aonde leva este cerebralismo: a idéia de recriar a natureza dentro de um hotel. Francamente, se é para sentir a natureza acho melhor ir para Mauá. E, ao invés de colocar as implicações deste tipo de atitude, a crítica fica louvando. Quem criticar isto é careta ou reacionário. Outro dia eu tive uma discussão com uma amiga minha e ela citou Andy Warhol que dizia que uma atitude podia ser uma obra de arte. Mas quem é Andy Warhol? É o papa? É deus? Ele era um artista interessante que se rendeu ao comercialismo. Como teórico para mim era um babaca.
J.B. - Não haveria, por exemplo, sintonia entre os parangolés de Hélio Oiticica e os mantos de Arthur Bispo do Rosário?
Gullar - Não tem nada a ver. Os parangolés surgiram a partir do momento em que Hélio Oiticica passou a freqüentar a escola de samba da Mangueira. É algo muito pobre se você comparar com a roupa de uma porta-bandeira, colorida, barroca, popular. É uma arte que remonta ao século 17. Aí o Hélio botava a roupa em um passista e pedia ara o cara rodar e falava que isto ele estabelecia uma relação da forma com o espaço e a luz. É pura teoria. Qualquer objeto rodando mantém uma relação com o espaço e a luz.
J.B. - Mas a incorporação que o Bispo faz dos objetos não evoca a procedimentos da arte moderna?
Gullar - O Bispo é exatamente o contrário da arte moderna. Em seu delírio, ele quer salvar os objetos do mundo. Ele começou a desfiar o próprio uniforme de interno para bordar um manto sagrado. A sua busca é busca do sagrado. Não tem nada a ver com a sofisticação vazia da arte moderna. Só um louco se entrega totalmente a esta missão de salvar os objetos do mundo. É uma loucura que imprime esta força interior aos objetos do Bispo. A arte moderna é de decadência, de cerebralismo, de sofisticação exaurida. O que a arte precisa é de paixão e não de cerebralismo. No contexto pretensioso desta arte moderna todos se acham gênios. O Leonardo da Vinci, quando pediram a ele uma escultura, realizou um estudo reunindo todos os escultores que admirava no passado. Hoje o sujeito enrola três tijolos com arame, manda para a Bienal e diz que é arte. Na Bienal de Veneza, eles aceitaram um açougueiro que tinha cortado uns pedaços de tubarão. Agora não é mais necessário aprendizagem artística. Nas bienais nós temos açougueiros, marceneiros, eletricistas, cineastas. Li que Almodóvar expôs na Bienal de Veneza. Eu queria perguntar a ele se para ser cineasta não é preciso aprender a linguagem do cinema.
J.B. - E, agora, que perspectivas vê para a arte diante do mundo?
Gullar - Acho que o que a arte tem de fazer é parar de falar sobre ela mesma e começar a falar do mundo. Nós temos 40 mil anos de arte falando do mundo e dos problemas do homem no mundo. A arte de voltar a falar da vida.
J.B. - Você tem algum livro novo de poesia engatilhado?
Gullar - Não. Quero que o poema nasça devagar. Arte é um problema pessoal de cada artista com o mundo e a vida. Sem isto ninguém faz arte. Os artistas estão se colocando no lugar da obra. Existem artistas que trabalham duro 30 anos até serem reconhecidos. Hoje, com 17 anos, o cara já quer ser reconhecido em Bienal. Se eu conseguir expressar em um poema alguma dimensão desconhecida da vida para mim, já me sinto gratificado. Nem preciso publicar o poema. Já me sinto pago.
DEPOIMENTOS
Giênio Bianchetti, artista plástico: "Concordo com todas as críticas que o Gullar faz aos excessos da vanguarda e a mistificação provocada pelo mercado de artes. E o interessante é que ele critica tanto o radicalismo das vanguardas quanto o conservadorismo acadêmico. Não sou contra as vanguardas. Ela nasce de uma necessidade de pesquisa e expressão. Mas hoje é fácil constatar que a vanguarda se reduziu a atitudes de auto-afirmação narcisista. A arte está em crise, entre outras coisas, por causa da vaidade de cada artista. Não se conversa mais sobre arte. Todos se acham gênios.
Maurício Bentes, artista plástico: "Eu assimilo a expressão de Lygia Clark e Hélio Oiticica em meu trabalho. Eles são fundamentais para situar a questão da participação do espectador na obra de arte. Não acho que a questão da arte esteja encerrada. Estes autores abriram um campo de experimentação. E hoje nós estamos em busca deste campo de experimentação para tentar responder à crise da arte. O artista não tem a obrigação de ser original. Ele tem de ser honesto com a linguagem dele e contribuir com sua linguagem para a melhoria do mundo".
Athos Bulcão, artista plástico: Eu vejo este problema da mistificação das vanguardas ligado ao mechandising. isto realmente descaracteriza a arte. No tempo dos impressionistas havia o amador da arte. Hoje existe o investidor de arte. Mas eu acho que sempre é possível resistir. No final o que conta é o talento do artista. Existe a arte conceitual boa e arte conceitual ruim. Os trabalho do Tunga, do Waltércio Caldas e do Cildo Meirelles são sempre interessantes".
Rogério Duarte, designer e diretor do Museu de Arte de Brasília: Gullar colocou a linguagem de uma maneira reiticada. A linguagem é dinâmica. O que é ruído em determinado momento se torna linguagem em outro. Toda arte nova destruiu a linguagem. A história já absorveu e absolveu o trabalho de Lygia Clark e Hélio Oiticica. Ferreira Gullar era a grande esperança da linguagem revolucionária com "A Luta Corporal". Ele teve o gesto heróico de recordar um cavalo em um salão em protesto contra o academicismo. Ao negar estas pessoas, Gullar está negando a si mesmo. Qual Gullar é o verdadeiro?"