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JORNAL DE BRASÍLIA
01/10/1993


GULLAR DEFENDE A ARTE EM CONFERÊNCIA POLÊMICA

O poeta e crítico reafirmou as idéias de seu último livro e disse que não aceita que a história da arte acabe em instalações de tijolos amarrados com arame


Como se esperava, a polêmica foi a marca da conferência A Arte Brasileira no Contexto da Arte Contemporânea I, do poeta e crítico Ferreira Gullar, para um público que (quase) lotou o Auditório do Conjunto Cultural da Caixa, dando seqüência ao Seminário de Arte Contemporânea do II Fórum Brasília de Artes Visuais. Em sua exposição, Gullar reiterou as idéias sustentadas em Argumentação a Favor da Arte (Ed. Revan), no sentido de que a radicalização das vanguardas do século 20 levaram a uma destruição das linguagens artísticas e a uma situação de mistificação, envolvendo artistas, museus, bienais, galerias e a mídia.

Segundo ele, o circuito das artes está dominado por experimentações de inspiração duchampiana já exauridas que, na verdade, não experimentam mais com nada: "Isto vale para a Bienal de São Paulo, a Bienal de Veneza e a Documenta de Kassel. A Bienal de São Paulo de 1950 retoma o intercâmbio internacional. Mas ela participa deste processo com um júri internacional, premiando artistas japoneses, americanos, alemães. Os artistas brasileiros estão excluídos: os velhos por não falarem mais a nova linguagem e os novos por ainda não falarem. Mas falarão. As grandes mostras internacionais se tornaram bolsas de valores. Esta exigência que põe a novidade como critério coloca a arte no mesmo nível do sabão em pó".

Na arte contemporânea, Gullar detecta uma tendência à busca de formas isentas de ilusão, adequadas ao pensamento racional, material, objetivo: "O filósofo Merieau-Ponty mostrou que a ciência não entra na arte. Não se explica o cheiro da tangerina. Você vive sensorialmente o cheiro da tangerina. Eu fiz um poema sobre isto. A arte não existe para explicar coisa alguma. A arte é só para aprender a viver melhor. Eu lia Aristóteles e concordava com ele. Lia Platão e concordava. Hoje não concordo com nenhuma explicação do mundo".

Gullar afirma que também já foi um terrorista de vanguarda. Ele que nos tempos de movimento neoconcreto sugeriu a Helio Oiticica a montagem de uma exposição que só duraria uma hora: "Depois a exposição seria explodida através de um detonador. Eu era o papa do concretismo. Hélio Oiticica suou frio. Mas infelizmente ele tomou coragem e falou: não vou destruir o meu trabalho, não. O movimento neoconcreto era mais brando, aberto e generoso do que a vertente concreta. Não por acaso, o neoconcreto antecipou-se ao que seria feito na Europa e nos EUA, muitos anos depois. Mas, a partir de certo momento, Lygia Clark e Helio Oiticica exorbitaram do campo da expressão estética, destruíram a linguagem e reduziram suas obras a mera expressão sensorial".

De acordo com Gullar, é falaciosa a visão do artista alemão Joseph Beuys, segundo a qual todo homem é um artista. "A Lygia Clark também dizia isto. Agora eu quero ver qualquer um pintar uma tela de Morandi ou Leonardo da Vinci. O João Cabral queria ser jogador de futebol mas teve que se limitar a ser torcedor. O Zico jamais fará poesia. Isto é mentira. Agora, amarrar o tijolo com arame qualquer um pode fazer. Outro dia um sujeito mandou umas toras de madeira para uma exposição e a mídia foi lá. Se fosse um pintor ou gravador não teria espaço na mídia".

Por que um pedaço de tubarão ou uma tora de madeira enviados a uma Bienal passaram a ser arte? Segundo Gullar, porque a arte e a psicologia moderna descobriram que todas as formas são dotadas de expressão: "Antigamente só os gestos humanos tinham expressão. Depois com dificuldade admitiu-se que a paisagem também tinha expressão. Depois com dificuldade admitiu-se que a paisagem também tinha expressão. Mas estava tudo ligado à figura. Quando a arte moderna descobre que tudo tem expressão não é mais preciso representar nada. E é verdade. Uma sombra na parede tem força de expressão. Se traço uma linha preta no papel tenho uma expressão. Se passo duas, tenho outra expressão. Então a arte acabou, Leonardo da Vinci poderia achar que a tela em branco tinha expressão. Mas ele criou imagens que durou séculos. Eu não aceito que toda a história da arte acabe em dois tijolos amarrados em arame".

O artista plástico Carlito Carvalhosa acusou Gullar de ter detido sua interpretação somente até os anos 60 e de se recusar a um embate com as obras produzidas depois deste período. E citou como exemplo precisamente os dois tijolos com arame, nomeando a autoria de Waltércio Caldas. Por que não fazer arte com dois tijolos e um arame? Gullar mencionou como prova de seu enfrentamento com a produção pós-anos 60 a crítica à performance com 400 guarda-chuvas, realizada pelo artista plástico Christo. "Quando se trabalha com diferentes materiais não é possível acumular e nem aprofundar a experiência estética", afirma Gullar. "Defendo que o artista deve construir uma linguagem, ao invés de embrulhar tijolos em arame". Carlito observou que Gullar não podia cercear ao artista o direito de se expressar com tijolos, arame, ou quaisquer outros materiais: "Vá para o inferno, Carlitto", irritou-se Gullar. "Cada um faça o que quiser, mas tenho o direito de dar minha opinião".

E mais uma questão: Qual a diferença entre os objetos da arte de Arthur Bispo do Rosário, artista considerado louco, e dos já citados tijolos com arame? Primeira diferença para Gullar; Bispo não se considerava artista. Estava desligado de nossa realidade. "Ele tomou como missão recriar o mundo. Desfiou a roupa como se desfiasse o próprio corpo. Ele ficava meses e meses realizando objetos. Ele queria salvar os objetos. A arte moderna está ligada ao mundo do consumo e da obsolescência planejada.

A visão de Gullar foi questionada por um dos assistentes da platéia como extremamente negativa. Quem seriam os artistas brasileiros vivos que Gullar reconhece? "Os artistas do Engenho de Dentro são de alta criatividade. Siron Franco é um pintor de extraordinário talento. Um pintor com João Câmara tem uma contribuição importante para a arte brasileira. Iberê Camargo é um dos grandes pintores contemporâneos. Rubem Grillo é um grande gravador. Ao acho que a arte brasileira acabou. A crítica não está mais nem nos jornais e se não puder estar nem nos auditórios é o fim de qualquer perspectiva na cultura".