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O GLOBO
12/01/1994


Edição festeja 40 anos de poesia de Gullar. Ela renega seu cordel, ironiza os Campos e contra-ataca a vanguarda

VIDRAÇA NO PAPEL DE ESTILINGUE
Cláudio Uchoa


O poeta e crítico de artes plásticas Ferreira Gullar não hesita ao responder se prefere ser estilingue ou vidraça:

- Sei que sou as duas coisas mas é muito melhor ser estilingue. Gostaria que as pessoas concordassem comigo, acharia ótimo. Só que isso não acontece e termino levando muita pedrada - conta ele, que também dirige o Instituto Brasileiro de Arte e Cultura (Ibac), o mais ativo órgão do Ministério da Cultura.

As pedradas partem de um campo que já teve Gullar como um de seus mais ilustres representantes: a vanguarda. Mas ele não se esquiva.

- A vanguarda hoje é institucional. Seus representantes é que são apoiados pela mídia internacional - provoca.

Há 40 anos a história era um pouco diferente. O então vanguardista Gullar rebelou-se contra estilo politicamente correto da época, o modernismo, e lançou um livro que se tornou um marco na poesia brasileira: "A luta corporal", no qual defendia a destruição da linguagem.

- Muitos me acharam genial e outros, um vigarista. Mas não era vigarice, era a busca de um sentido para a literatura e para minha própria vida - avalia.

Para comemorar os 40 anos do livro, a editora José Olimpio lança em abril uma edição especial de "A luta corporal" - com cadernos de fotos, um estudo crítico de Fábio de Lucas e um texto inédito do próprio Gullar. A editora vai relançar ainda toda a obra poética de Gullar e no final de abril promove no Centro Cultural Banco do Brasil um grande evento sobre o poeta, com debates, exposição de fotos, vídeos e palestras.

Toda essa comemoração parece oportuna para que a obra de Gullar seja reavaliada. Mas a vocação de estilingue parece afiada e é o próprio poeta que atira a primeira pedra ao defender a exclusão de seus poemas de cordel da coleção:

- Não quero republicá-los, eles não são literatura. Sei o que é qualidade literária e eles são inferiores. Escrevi os poemas dentro da luta política, para ajudar na conscientização popular. Cumpriram um papel na época.

Gullar também demonstra má vontade com seus versos concretos e não sabe se vai republicá-los.

- São poucos os poemas concretos que escrevi e os melhores já fazem parte da minha coletânea "Toda poesia".

A implicância de Gullar com o concretismo tem explicação:

- Era um movimento necessário, não foi uma invenção gratuita, mas não pode ser supervalorizado. A essência do concretismo é a eliminação do discurso. Daí as palavras isoladas. Mas dialeticamente isso não pode ser feito com a simples eliminação do próprio discurso e sim utilizando-o. Eliminar é terrorismo. É radical. É como se fosse luta armada. Isso é stalinismo - decreta, usando uma expressão da qual já foi vítima várias vezes.

Gullar conta que na década de 50 mergulhou de cabeça no concretismo, chegou a fazer o "Poema enterrado" - uma caixa d'água enterrada no quintal da casa do pai de Hélio Oiticica. Dentro encontrava-se vários cubos coloridos e embaixo de tudo a palavra "rejuvenesça".

- Foi o único poema com endereço da literatura brasileira - diverte-se

Mais divertido ainda, porém foi a forma como terminou a experiência vanguardista de Gullar: o "Poema enterrado" terminou inundado pela chuva no dia da inauguração. A partir daí Gullar enveredou por outros caminhos:

- Teria me mutilado se continuasse fazendo esse tipo de poesia. Foi o que aconteceu com os irmãos Campos. O Augusto, por exemplo, é um grande poeta, mas permaneceu dentro da camisa-de-força do concretismo, que impediu que ele realizasse uma grande poesia. O Haroldo é o cara mais prolixo que conheço. É até engraçado ler um livro dele, é um palavreado sem fim. Para cada poema escrito são 50 páginas de teoria.


Nenhum instrumento demite Gullar

O presidente do Instituto Brasileiro de Arte e Cultura tem um projeto que é sua menina dos olhos. Ferreira Gullar promete inaugurar ainda neste ano o Espaço Oscar Niemeyer, que estará sediado no prédio do Ministério da Educação no Rio, planejado pelo arquiteto.

- Ele é um poeta de formas e estamos construindo maquetes de todas as obras do Niemeyer que ficarão expostas - conta.

Gullar assumiu a presidência do Ibac durante a gestão do amigo Antônio Houaiss no ministério da Cultura. Sobreviveu à administração Jerônimo Moscardo e continua firme no cargo com o ministro Luiz Roberto Nascimento e Silva. O equilíbrio é visto com naturalidade.

- Cada vez que o ministro sai, coloco o cargo à disposição. Mas o que faço parece que dá certo porque eles querem que eu fique - explica ele, irritado com a cobrança:

- Nunca fiz profissão de revolucionário. Isso não é minha. Não posso ficar jogando pedra no telhado dos outros o tempo todo. Sempre fui crítico, mas vou tentar fazer.

O entusiasmo não é o mesmo com a política partidária. Gullar desligou-se do PPS, ex-Partido Comunista, apesar de ainda acreditar em alguma forma de socialismo:

- Entrei numa errada. Apostei que ia assistir à vitória do socialismo e saiu tudo ao contrário. Mas a sociedade justa é uma necessidade do ser humano.


Para crítico, o velho é a pretensão do novo

É dialético. O ex-vanguardista Ferreira Gullar ataca a vanguarda e garante que não mudou de lado.

- Acho que a minha opinião é avançada. Para trás é a repetição de uma vanguarda e superada. A coisa mais velha hoje é pretensão de ser novo - destaca.

A artilharia de Gullar é contra o experimentalismo nas artes plásticas contemporâneas e ano passado o poeta publicou um livro sobre o tema: "Argumentação contra a Morte da Arte".

- É um livro bem fundamentado, tanto é que não conseguiram responder. Ficam resmungando pelos cantos, porque o que está ali não tem resposta. A vanguarda já foi maldita, mas hoje é oficial. Renoir viveu em dificuldades, Van Gogh nunca vendeu um quadro em vida. Eles não faziam pintura oficial. Só que hoje quem mais ganha prêmios sempre está nos jornais e a vanguarda. Basta o cara ficar nu no museu e vira notícia - ataca ele, que acredita que esta tendência está mudando:

- A crítica européia esculhambou a Bienal de Veneza e a Documenta de Kassel. Cretino é o júri que aceita esta grande empulhação internacional.

A sede de polêmica de Gullar parece assustar, já que artistas como Daniel Senise e Iole Freitas e o poeta Arnaldo Antunes negaram-se a falar sobre ele.