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O GLOBO
07/11/1993
O POETA CONTRA A VANGUARDA
"Piracema" - do tupi pira'sem - é a época da desova, quando os grandes cardumes superam as adversidades para atingir a nascente dos rios. Foi com este nome - uma metáfora para a luta dos artistas e intelectuais brasileiros para realizar suas obras - que o poeta Ferreira Gullar batizou a revista cultural da Funarte/Ibac, lançada no final de outubro. "Piracema" pretende ser uma revista quadrimestral. Tem 160 páginas e a colaboração de nomes como Celso Furtado, Darcy Ribeiro, Hélio Jaguaribe, Bolivar Lamonier, Luiz Pinguelli Rosa, Ennio Candotti, Oscar Niemeyer e Fayga Ostrower. Há dois anos e meio na presidência do Instituto Brasileiro de Arte e Cultura, Ferreira Gullar, 63 anos, chegou a ser cogitado para assumir o ministério da Cultura em abril, quando Antônio Houaiss anunciou que deixaria o cargo. Como antes, o poeta continua descartando esta hipótese:
- Não é uma função que me sirva. Quero continuar saindo na rua de chinelos e bermuda e ir no Luna tomar um chope com os amigos. Já imaginou o pessoal dizendo "olha aí, chegou o ministro?".
Perseguido e preso depois da decretação do AI-5, em 1968, Ferreira Gullar esteve exilado por cinco anos no exterior, a partir de 1971. Foi para Paris, Moscou ("onde me bacharelei em subversão"), Chile e Argentina.
- Quando cheguei no Chile, o governo de Allende foi derrubado; na Argentina, aconteceu o mesmo. O pessoal já estava achando que o culpado era eu - brinca.
Bem-humorado, ele só se irritou nesta entrevista ao GLOBO ao falar dos artistas que acham que ainda fazem vanguarda. E, conforme afirma em "Argumentação contra a morte da arte", seu último livro, decreta:
- A vanguarda acabou!
O GLOBO - Fale sobre a revista "Piracema".
FERREIRA GULLAR - Ela surgiu do desejo de fazer uma revista de difusão cultural que abarcasse as áreas do Ibac: música popular, teatro, circo, ópera, dança, artes plásticas, artes gráficas, cinema e folclore. A idéia é mostrar que os artistas e intelectuais brasileiros continuam produzindo e acreditando nas coisas. Piracema é o fenômeno dos peixes que nadam contra a corrente na época da desova, para manter a continuidade da vida. Conseguimos o patrocínio da Fundação Banco do Brasil, e esta primeira edição custou U$ 40 mil (cerca de CR$ 6 milhões). Vamos publicar um número a cada quatro meses.
O GLOBO - Os colaboradores são pessoas que estão aí há décadas. Você não buscou nomes novos?
FERREIRA GULLAR - Não tive essa preocupação. Para fazer uma enquete de que país teremos, para avaliar a realidade brasileira e que país vai nascer nesse momento em que o mundo sofre tantas transformações, eu quero chamar pessoas que tenham experiência da vida política, econômica e social brasileira. Claro que há pessoas novas. Mas estou chamando nomes de reconhecida autoridade sobre o assunto. Não é uma revista para revelar jovens talentos; é para falar da cultura e da arte brasileiras, em alto nível.
O GLOBO - Qual é a sua visão sobre as artes plásticas no Brasil, tema de seu último livro? Você é contra o experimentalismo?
FERREIRA GULLAR - Não sou contra o experimentalismo. Poucos artistas experimentaram tanto quanto eu, de modo que não tenho preconceito nem medo de experimentar nada. Uma das coisas mais difíceis hoje em dia é alguém ter coragem de se manifestar contra tendências ditas jovens ou novas. Todo mundo é jovem, progressista, moderno. O Mário Pedrosa dizia: "O Brasil é difícil porque não existem reacionários nem conservadores". A idéia de novidade, do suposto novo, virou acadêmica. Quem prestigia este tipo de experiência, quem vai a Documenta de Kassel ou à Bienal de Veneza? É o cara que faz pintou ou gravura? Não, é o que rouba cinzeiro em avião. Ele é institucional, o renovador e o consagrado. Estranhamente, o que se diz rebelde é aquele que é amparado institucionalmente. O novo, que é uma noção cretina, é velho em seguida. Nunca a arte de verdade se manteve apoiada nesse valor. Isso é uma bobagem da época moderna. Nenhum grande artista construiu uma obra partindo da preocupação de fazer novidade da preocupação de fazer novidade. Quem está preocupado com o novo é costureiro que lança moda. Quando vejo as pessoas destruindo os valores estéticos, pergunto: em nome de quê? O que você ganha ao destruir a música de Beethoven, cara? O que você ganhar ao dizer que Leonardo da Vinci está superado? Vai botar três botões pendurados no lugar da Mona Lisa. Não ganha nada. Não precisa fazer a Mona Lisa, mas tem que ter coragem de reconhecer que muito antes de nós os caras já faziam coisas maravilhosas e que nós não precisamos destruí-las para nos afirmarmos. Pelo contrário, é uma fonte de estímulo saber que houve poetas como Baudelaire, Dante e Homero. O cara senta em cima de um edifíçio destruído e diz com glória: "Eu destruí". Destruiu o quê? Nada. "Vou pegar os tijolos, as roscas e os parafusos e mostrar como eu destruí". Eu quero ver é contruir!
O GLOBO - Que artistas brasileiros você aprecia?
FERREIRA GULLAR - O Siron Franco, por exemplo, é um artista jovem e de enorme talento e criatividade. O Iberê Camargo, que é um grande pintor, indiscutivelmente, o João Câmara, o Cildo Meireles... Não sou contra instalações ou experimentalismos. Afirmo que isto não é novidade alguma. O que discuto é a facilidade de uma arte que não tem norma alguma, que não tem princípio e linguagem. Faço duas críticas: a arte que não tem linguagem não acumula experiências; e ela é por definição ocasional, não tem o caráter das coisas construídas. Você não pode comparar um artista dessa estatura com uma pessoa que hoje faz uma coisa, amanhã faz outra, que não tem coerência ou aprofundamento. Pode estar cheia de talento, mas se hoje usa terra e vidro, amanhã, ferro e corda, e depois de amanhã, cimento e estanho... São linguagens totalmente diferentes, que não permitem acumular nada.
O GLOBO - Que artistas considera um engodo? O que acha, por exemplo, de Jorge Barrão e Jac Leiner?
FERREIRA GULLAR - Não vou fazer isso. A Jac é talentosa. Estou discutindo uma questão teórica, de princípios. O que significa expor cinzeiros roubados? Não sei se ela entende, mas significa o seguinte: o ato de pintar é um gesto como outro qualquer, só que ele produz uma coisa chamada fantasia. Ele produz valor. No momento em que o Siron passa o pincel da tela que estava em branco e cria imagens e formas, ele cria também significações. O ato material de pintar se transforma num ato espiritual, poético, numa criação. Agora, quando não tenho linguagem e uso cinzeiro ou vassoura, meu ato é vazio, não tem sentido prático ou criativo. Eu roubo o cinzeiro para dar ao meu ato uma significação, nem que seja o do delito, se não fica bobo. O delito tem um significado moral: não está no terreno da estética, mas no da ética. Meu livro não tem objetivo de desancar ninguém, mas de fazer as pessoas compreenderem o que está acontecendo para poder encontrar um caminho. Eu falo porque conheço os mecanismos da vanguarda: fui dos mais audaciosos, numa época que isso ainda era uma coisa maldita, a época do neo-croncretismo.
O GLOBO - O que seria uma autêntica vanguarda hoje?
FERREIRA GULLAR - Isso é outra coisa que já acabou. A vanguarda nasceu no final do século passado é produto de um reflexo no campo das artes do que ocorria no campo político, da formação dos partidos e dos manifestos. O manifesto comunista de Marx é um dos documentos iniciais desse processo. Depois veio o manifesto artístico. Ou seja, é uma atitude diante da sociedade diferente do período anterior, quando não havia partidos. A vanguarda era também uma expressão militar e teve um sentido que está ligado à sociedade capitalista, que elege o progresso como o seu principal valor - e, ligado a isso, vem a noção do novo. Mas por volta de 1917 Picasso já advertia que ele tinha sido um dos responsáveis pela destruição dos parâmetros e referências no campo das artes. Ele começava a ver que, quando você quebra todas as referências, fica sem limite e fica difícil distinguir a vigarice, a empulhação, do que é criativo. É indiscutível que este processo que começa com o impressionismo e vem até os nossos dias é enriquecedor da experiência estética. Mas no que nós chamamos de movimento de vanguarda há muitos artistas que foram mera embromação, eles se contam as centenas. O movimento construtivista, por volta de 1919, produz obras importantes, mas se esgota. A linguagem nova que mais perdurou foi a de signos e formas abstratas, na linha de Kandinsky. Imaginava-se que ia surgir uma coisa que estava só no sonho das pessoas, que era uma linguagem da arte fundada nos instrumentos da tecnologia que nascia. E esta linguagem não surgiu.
O GLOBO - Qual é a relação entre a poesia e a prosa?
FERREIRA GULLAR - O que eu costumo dizer a respeito dessa relação é muito mais falando da poesia do que da prosa. A poesia nascia da prosa, porque o poema é uma ocorrência na linguagem que nós usamos todos os dias, a linguagem prosaica. Isso é permanente. A poesia é portanto um produto da prosa. Quero dizer com isso que não existe o poema puro. O poema é lugar onde a prova vira poesia. Não existe um laboratório em que eu pegue as palavras, lixe, lime e pinte e faça um poema com elas. Não, o poema é a fala que, ao ser falada, ganha o nível de fala poética. Ali, no dizer o poema, uma palavra banal vira poesia.
O GLOBO - Você já admitiu que sua produção poética, de uns 10 anos pra cá, caiu bastante, tanto em quantidade quanto em qualidade...
FERREIRA GULLAR - Em qualidade não. Se tivesse caído em qualidade, eu não teria publicado. Eu não sou cretino para publicar má poesia. Meus livros são muito pequenos, e os últimos são menores ainda, porque eu nem deixo o poema nascer se sinto que ele não tem qualidade. O próprio hábito de fazer o poema em mim já é seletivo. Quando nasce, é porque eu estou considerando que aquilo ali é poesia. Eu, que sempre escrevi pouco, a cada dia escrevo menos. Não sei o motivo. A fonte deve estar secando. A gente só deve fazer o poema que é necessário. Fazer poesia por fazer não tem sentido. Não sou produtor de artefatos. Produzir poemas é produzir poesias e não objetos. Agora, quem me dera que a poesia me visitasse todos os dias. Os últimos poemas que escrevi foram num quarto de hotel em Nova York, em outubro do ano passado. Depois disso não senti necessidade ou vontade. Mas acho que já escrevi um número suficiente de poemas. As pessoas têm pouco tempo para ler, também.
O GLOBO - Que poemas seus ficaram: os de conteúdo político como "Poema sujo", os mais líricos ou os da fase formalista?
FERREIRA GULLAR - Veja bem, não considero que "Poema sujo" seja um poema político. Ele tem tudo, a coisa lírica, momentos dramáticos e políticos. Mas o que ele menos tem é a coisa política. As pessoas atribuem isso a ele talvez por ter sido feito no exílio, mas ele não é nem foi escrito com propósito político. Só que eu sou um homem político, comprometido com as coisas, e não separo a poesia da minha vida. É como eu digo: a poesia nasce da prosa, da vida. A poesia não é algo que acontece num recanto celeste. Ela acontece aqui, no chão, no meio da gente. Eu costumo escreve inclusive andando na rua. Acho que os poemas estritamente políticos não têm qualidade literária. Os meus poemas estritamente políticos têm uma qualidade discutível, mas é do propósito. Não fiz os poemas de cordel, como "João boa morte" e "Quem matou Aparecida?" para fazer literatura. Fiz aquilo para fazer política. Eu estava fazendo denúncia. Depois de eu ter escrito "A luta corporal" e de ter participado dos movimentos concreto e neo-concreto - tendo feito a experiências mais sofisticadas - seria um disparate achar que eu não sabia o que era literatura. Fiz aquilo por opção, talvez até para me castigar por ter sido tão alienado no radicalismo daquela época. Talvez eu estivesse me punindo e fiz uma coisa pobre literalmente, de propósito.
O GLOBO - O que ficou de importante do seu envolvimento ruptura com o concretismo?
FERREIRA GULLAR - O encontro é que foi decisivo. No começo de 1954, publiquei "A luta corporal", em que levo a minha indagação poética e existencial às últimas conseqüências, a ponto de desintegrar a linguagem. Não tinha nada a ver com vanguarda. Não fiz aquilo para inovar coisa alguma. Eu queria buscar o que supunha ser a essência da linguagem, atravessar e romper a sintaxe. Na busca disso, destruí a linguagem. Publiquei o livro e disse para meus amigos que, para mim, a poesia tinha acabado. Depois de lerem o livro, os irmãos Campos me procuraram dizendo que meu livro era extraordinário, que rompia com o conformismo da poesia brasileira. Eles queriam trocar figurinhas, mas ficou evidente que nós tínhamos divergências, porque eles tinham uma deliberada intenção de inovar, de fazer uma nova poesia. Eu não queria, mas o Oliveira Bastos me convenceu a participar do movimento. Quando o pessoal de São Paulo propôs que a poesia deveria ser feita de acordo com fórmulas matemáticas, o que era oposto a tudo que eu pensava, eu rompi com eles, em 1957. Mas continuamos a nossa experiência com o grupo do Rio, que era muito mais intuitivo e inovador.
O GLOBO - Que avaliação você faz da poesia brasileira dos últimos dez anos?
FERREIRA GULLAR - Agora você esta me deixando numa situação complicada, porque eu não tenho memória. Há vários poetas, mas tenho medo de cometer injustiças. Tem aquele menino, o Armando Freitas-Filho (N. da R.: Armando tem 53 anos), que é muito bom.
O GLOBO - O que acha de Arnaldo Antunes?
FERREIRA GULLAR - Aquilo é uma bobagem, não tem nada a ver com poesia. Claro que cada um tem sua noção de poesia, mas se o poema não é local onde a palavra se transforma, ele só tem aparência de ser uma coisa nova, mas é uma coisa morta. Você pegar palavras isoladas e fazer efeitos visuais, isso pertence ao terreno das artes gráficas. O pessoal ainda está na onda do modernoso, tem medo de se comover, medo do sentimento, pensa que mostrar afetividade é ser velho. É um problema para Freud.