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PERSPECTIVA UNIVERSITÁRIA
SETEMBRO/1993


ARTE: NA FOGUEIRA DAS VAIDADES, NEM TUDO QUE É NOVO É BOM


Poeta ensaísta e crítico de arte, Ferreira Gullar é uma das figuras mais polêmicas da intelectualidade brasileira. Em seu último livro - "Argumentação contra a morte da Arte" - , Gullar aborda as questões mais agudas da arte contemporânea e tem a coragem de dizer o que a maioria dos críticos prefere calar: que o rei está nu. E faz isto sem nenhum sentimento de piedade e com uma clareza rara nas discussões deste gênero.

Arte é uma boa idéia, mas não é "caninha 51"...

Francis Fukuyama, no seu livro "O Fim da História e o Último Homem", traça um futuro pessimista para humanidade, com o fim das tensões, válvulas propulsoras da construção da história. É o apocalipse que se aproxima?

Já se anunciou o fim da palavra, o fim do livro, o fim da música e, mais recentemente, a morte da arte. Será?

Para contrapor todos estes fins, o crítico e poeta Ferreira Gullar está lançando o livro "Argumentação Contra a Morte da Arte", onde questiona uma série de princípios e valores que, nascidos do inconformismo renovador do início do século, se transformaram em verdades indiscutíveis. Partindo da constatação de que as experiências radicais das vanguardas conduziram não à arte, mas à destruição das linguagens artísticas, Gullar propõe, diante disso, uma reavaliação do caminho percorrido.

Polêmico e sobretudo radical, Gullar, presidente do IBAC, é um verdadeiro fuzil AR 15, que não poupa disparo aos críticos, artistas, diretores de museus, marchands; enfim, ninguém está a salvo da sua carnificina intelectual. Nem os jornalistas. Os críticos, por exemplo, são execrados em praça pública: "A incapacidade da crítica em reconhecer o valor da pintura impressionista de Renoir, Cézzanne..., quando ela surgiu, gerou nos críticos futuros um complexo de culpa e uma intimidação de tal ordem que, hoje, tudo que se intitula como novidade ela se sente obrigada a aprovar". Gullar lembra que esta foi uma observação feita por John Canaday, nos anos setenta, quando assinava a crítica de arte do New York Times.

Segundo Gullar, a instituição da novidade como valor fundamental de arte é uma espécie de terrorismo que inibe o juízo crítico, garantindo a vigência de qualquer idéia idiota. "Arte não é uma boa idéia. Isso é caninha 51!", alfineta, afirmando que a manifestação estética que não se constitui em linguagem, isto é, vive da "invenção", da sacação arbitrária desta ou daquela idéia, é que chegou num impasse e não tem mais como prosseguir.

A criação da obra, na sua opinião, é o modo através do qual o artista se constrói fora de si, dá permanência e objetividade à sua "fantasia", transformando o material em espiritual, o vulgar em poético, resultando num universo imaginário próprio que não se cria por milagre. Cria-se com o trabalho, o domínio dos meios de expressão vivida. "Por isso as obras de Picasso, Braque, Morandi, Matisse etc., frutos da profunda elaboração da linguagem pictórica, mantêm sua significação até hoje."

Como rabo-de-cavalo - Para Gullar, o surgimento do mercado de arte e a própria dinâmica da sociedade capitalista, onde o consumismo impõe o falecimento acelerado das mercadorias, são um dos responsáveis por essa obsessiva busca do novo, que se tornou, nas últimas décadas, o valor fundamental e único das vanguardas artísticas. "A fome do novo pelo novo, em se tratando de arte, é, além de fútil, suicida. Os artistas que insistem na ilusão vanguardista não se dão conta de que o que, no passado, era audácia hoje é puro oportunismo; o que antes era ruptura hoje é conformismo. Restou, então, ao artista de vanguarda ocupar o próprio lugar da obra", diz. E assim nasceu o que ele chama de arte para a mídia, ou seja, uma arte que, de acordo com o próprio espírito dos meios de comunicação, não precisa ter valor, nem duração: basta propiciar notícia.

Uma das figuras mais célebres da arte para a mídia, segundo Gullar, é o búlgaro Christo Javacheff, que se tornou famoso "embrulhando o Museu de Arte Moderna de Nova York:". A sua última proeza - noticiada no mundo inteiro - foi abrir ao mesmo tempo, na Califórnia e no Japão, centenas de guarda-chuvas, metade de cor amarela e metade azul. "Sinceramente, o que é isso?", pergunta indignado. "Assim é a arte da mídia: ela se basta em ser notícia. Não necessita ser vista e nem ter qualquer significação, inclusive, artística. Mas rende dinheiro, muito dinheiro, como rendeu para Christo", revela.

Estreitamente ligada à questão do novo, exaustivamente falada no seu livro, está a teoria evolucionista da arte, que Gullar abomina. Essa teoria conduz inevitavelmente à aceitação de todo os desdobramentos do experimentalismo das vanguardas como esteticamente válidos, já que seriam conseqüências inevitáveis da "evolução" histórica. "É uma piada evoluir da Gioconda de Leonardo da Vinci para a ponta do cigarro colada na tela. Evoluir assim é crescer como rabo-de-cavalho", ironiza, concluindo: "Há, sim, mudança".

Filhos da burguesia - O grande patrimônio acumulado durante todos estes séculos é para Gullar uma fonte de renovação constante da experiência humana. Neste sentido ele lembra que muitos movimentos artísticos e pintores foram buscar no passado ferramentas de trabalho. Como por exemplo os cubistas, que se inspiraram nas culturas gregas e africanas para formularem sua linguagem; e Picasso, que recriou as pinturas românticas. Como não poderia deixar de ser, Gullar volta a torpedear "os filhinhos mimados da burguesia"(leia-se artistas) que insistem em fazer uma invenção diária. "O que falta é modéstia. Todos querem ser gênios. Todos querem fazer uma Mademoiselle D'Avignon, por dia. Isso é um lamentável engano", vocifera.

Se Gullar está equivocado, ultrapassado, "careta" no seu discurso, não importa. O mais importante é que ele teve a coragem de desmitificar essa auréola divina que envolve o fenômeno artístico, defendendo-o como uma práxis essencialmente humano e necessária. Além do mais, ousou questionar a crítica, que diante do seu pedantismo nada diz e faz questão de que ninguém a entenda. E fala isso com pleno conhecimento de causa e uma clareza rara nas discussões desses problemas. Enfim, Ferreira Gullar nos força a refletir, e talvez isso já seja o mais importante, principalmente numa sociedade que insiste em padronizar o discurso e nossas vidas.