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Como nasce a arquitetura
De um traço nasce a arquitetura. E quando ele é bonito e cria surpresa, ela pode atingir, sendo bem conduzida, o nível superior de uma obra de arte.
Mas essa fase inicial exige por antecipação que o arquiteto se integre nos problemas tão variados do trabalho a executar.
A natureza do terreno, o ambiente em que será inserida a construção, o sentido econômico que ela representa, a orientação etc.
E somente depois de se inteirar de tudo isso é que ele começa a dese- nhar, fazendo croquis, na procura da idéia desejada.
É nesse momento de imaginação e fantasia que a solução aparece e nela o arquiteto se detém entusiasmado como alguém que encontrou um diamante e o examina com a esperança de ser verdadeiro e, lapidado, transformar-se numa bela pedra preciosa.
E os desenhos prosseguem. O arquiteto verifica então se a solução atende internamente ao programa fornecido, se os técnicos do concreto armado aceitam o sistema estrutural imaginado, se o dimensionamento correponde às seções fixadas, se tudo pode funcionar bem.
E se o meu método é adotado, ele começa então redigir um texto ex- plicativo, procurando sentir se lhe faltam argumentos, que alguma coisa deve no projeto ser acrescentada.
Às vezes a idéia surge de repente. Foi o que me aconteceu com a mesquita de Alger, que resolvi durante a noite, levantando-me de madrugada para desenhá-la.
Outras vezes, uma simples perspectiva do conjunto é suficiente; como ocorreu no Memorial da América Latina, perspectiva que Ruy Ohtake guarda como lembrança.
Certa ocasião, em Paris, comecei a estudar o projeto de um centro musical para o Rio. E, como experiência, em vez de desenhá-lo em folhas separadas, fui trabalhando num rolo de papel vegetal, que desenrolava pouco a pouco, à medida que o desenho prosseguia. E com surpresa, antes de terminá-lo a solução surgiu.
É curioso ver esse rolo, sentir como a imaginação varia, como as idéias vão surgindo diferentes, ora com dois ou três volumes, ora simples, caminhando para o monumental. Em todas prevalece a curva, essa liberdade plástica que preferimos, decorrente de "tudo que vimos e amamos na vida", como me disse um dia André Malraux do seu museu imaginário.
Nessas soluções predomina a preocupação da unidade plástica, isto é: que os elementos escolhidos se correspondam plasticamente, disciplinados por um eixo qualquer. Mas o partido preferido foi o mais simples, e o edifício suspenso no ar como a técnica permite.
E a idéia do rolo despertou tal interesse que a revista L'Architecture d'Aujourd'Hui num dos seus números incluiu folhas dobradas para ter espaço necessário à sua publicação.
Nesse tempo estava eu em Paris, longe dos meus calculistas preferidos - Joaquim Cardozo, Bruno Contarini e José Carlos Sussekind - e para comprovar os grandes balanços previstos no projeto não hesitei e, mesmo sem gostar de avião, voei para Roma à procura de P.L. Nervi, o papa do concreto armado italiano. E ele, já idoso, surpreso com a audácia estrutural que propunha, disse-me: "Você devia ter aparecido dez anos antes." Mas entusiasmou-se pelo projeto, sugerindo estrutura metálica nos tirantes.
Anos após - como a engenharia brasileira é competente! - , Sussekind reassumiu o projeto e sem problemas, em pouco dias, concluiu o desenho na base do concreto armado.
Não raro o próprio terreno nos dá o caminho a seguir. No Museu de Niterói, por exemplo, ele me guiou - como no projeto do Museu de Caracas que elaborei muitos anos antes - ao apoio central.
E evitei a solução usual de dois volumes superpostos, que cheguei a croquizar, voltando ao Museu de Caracas, criando a superfície lisa que sem interrupção sobe em curvas e em retas até a cobertura.
Um dia o arquiteto resolve utilizar uma forma antiga, antiqüíssima, já incorporada ao vocabulário plástico da arquitetura. E isso foi o que aconteceu agora com o arquiteto norte-americano Pei, projetando a bela Pirâmide do Louvre, em Paris.
E o mesmo fiz ao adotar a cúpula - a abóboda circular que os egípcios usavam e os romanos multiplicavam - no edifício do Congresso Nacional. E nela intervim plasticamente, modificando-a, invertendo-a, procurando fazê-la mais leve, como é fácil explicar.
Na cúpula do Senado, desprezando a característica autoportante que oferece o empuxo que criaria, inclinei em retas sua linha circular de apoio, tornando-a mais leve, como preferia.
Na Câmara, depois de invertê-la, a estendi horizontalmente como a visibilidade interna exigia, procurando uma forma que a situasse como que simplesmente pousada na laje de cobertura. E tudo isso fazíamos com tal empenho que lembro Joaquim Cardozo me telefonando: "Oscar, encontrei a tangente que vai permitir a cúpula solta como você deseja".
São minúcias com as quais o arquiteto tenta aprimorar seus projetos e poucos podem compreender ou imaginar.
Não raro a arquitetura lembra coisas já conhecidas que programas e meios técnicos semelhantes devem explicar. Outras vezes, é uma arquitetura que surge criando surpresa, semeando influências, discípulos admiradores e, como é inevitável, os eternos contestadores.
E entre aplausos e críticas a arquitetura vai seguindo pelo tempo afora, como se com ela este mundo perverso e indecifrável pudesse melhorar um pouco.
Um dia, Carlos Drummond de Andrade escreveu num de seus versos: "Oscar desenha na areia seu edifício." E tinha razão o nosso amigo. De um risco inicial nasce a arquitetura e até na areia isso pode acontecer.
Este artigo foi redigido
originalmente para a revista Piracema
Espaço arquitetural
Não vamos aqui nos deter em pesquisas desnecessárias. O objetivo é levar aos mais jovens a contribuição profissional que longos anos de trabalho permitem. E isso sem a pretensão de criar regras, mas de ser útil apenas. O assunto do espaço arquitetural tem sido debatido por muita gente mas nunca da forma simples e didática que pretendemos. Em geral, perdem-se nos caminhos da especulação metafísica, levando um problema tão simples - pelo menos para nós, arquitetos - para as digressões da filosofia e da ginástica intelectual.
Começam dando ao espaço arquitetural as denominações mais contraditórias: espaço arquitetural, geométrico, verdadeiro, conquistado, de representação, sensível, pictórico etc. E nesse sentido prosseguem com ine- gável brilho e pouca objetividade.
Não vamos portanto definir, por exemplo, o espaço mental do arquiteto e o espaço arquitetural como alguns se propõem. Para nós, o "espaço arquitetural" é a própria arquitetura, e, para realizá-la, nele interferimos externa e internamente, integrando-a na paisagem e nos seus interiores, como duas coisas que nascem juntas e harmoniosamente se completam.
L'architecture, au contraire, est comme une grande sculpture évidée, à l'interieur de l'aquelle l'homme pénètre, marche et vit. (Zevi.)
O espaço arquitetural faz parte da arquitetura e da própria natureza,
que também a envolve e limita. Entre duas montanhas ele está presente e
nas suas formas se integra como um elemento de composição paisagística.(1)
"Como as árvores são magníficas, porém o mais magnífico ainda é o espaço sublime e patético entre elas." (Rilke)
As pirâmides do Egito não seriam tão belas e monumentais sem os espaços horizontais sem fim que as realçam e até as modificam, conforme a luz de cada dia.(2) Ainda Rilke: "A planície tudo engrandece."
Quando um arquiteto cria um intercolúnio, o espaço que se separa as colunas é por ele estudado. Faz parte da arquitetura. É tão importante como as próprias colunas.(3) Nele, o arquiteto se esmera, dando-lhe a forma e o ritmo que mais lhe agradam, multiplicando-o, fazendo-o diferente.(4) No fundo, ele corta os espaços livres e neles integra a sua arquitetura.
Entre dois edifícios, o espaço existente é também fixado pelo próprio arquiteto, que lhe dá a proporção adequada aos volumes que projeta.(5)
Muitas vezes esse espaço arquitetural se expande, envolvendo a arquitetura e os conjuntos urbanísticos que ele completa.(6)
L'oeuvre n'est pas part seulement d'elle même. Le dehors existe. (Le Corbusier.)
Em geral, o arquiteto esquece tudo isso. Vocês imaginaram o que ocorreria se esse problema o preocupasse como se impunha? Que conflitos teria com as imposições do lucro imobiliário e as concessões levianas dos ór-gãos responsáveis? O mais grave é que essas coisas ocorrem, inclusive no campo da habitação quando, dentro da filosofia urbanística atual, os espaços vazios deviam ser mais generosos. A habitação em altura só se justifica quan-do as grandes áreas livres que a cercam são transformadas em jardins, como pro-põe o urbanismo. No Centro de Negócios que projetamos para Miami, es-se princípio está bem claro. No setor da habitação os blocos são mais afastados, aproximando-se no setor comercial, com o objetivo de diminuir distân-cias, convocar o pedestre, criar um ambiente mais dinâmico, quase dramático, como, em Nova York, a velha Downtown.(7)
O espaço arquitetural apresenta as formas mais diversas: às vezes pesado - se assim o podemos definir - como que apoiado nos edifícios(8); outras, assumindo formas indefinidas, neles penetrando(9); outras, ainda, como que os mantendo suspensos, tão leves são suas estruturas.(10)
O problema do espaço exterior envolve a arquitetura nos seus mínimos detalhes. Ao projetar um balanço, por exemplo, o arquiteto procura a proporção correta para o espaço que vai fixar os apoios junto às fachadas, recuando-o e evitando-os para fazê-las mais leves e elegantes.(11)
Mas não é apenas no exterior dos edifícios que o arquiteto cria o espaço arquitetural, mas nos seus interiores e também nas formas mais diferentes. São cubos, cilindros e os volumes imprevisíveis que a arquitetura contemporânea oferece, ambientes nos quais ele intervém, criando mezaninos, balcões e aberturas, dando-lhes a escala que a arquitetura requer. O homem e seus objetos representam o elemento disciplinador do espaço arquitetural e da própria natureza.
Com as facilidades da arquitetura contemporânea, os volumes internos começam a tomar outros aspectos. A preocupação de criar níveis diferentes - iniciada talvez por Le Corbusier - contagiou a todos os arquitetos, e até nos pequenos apartamentos essa solução é adotada, dando aos interiores uma nova escala. Algumas normas começam, então, a se fixar: não dividir uma sala de pé direito duplo em alturas iguais (mezanino), e, quando isso não for possível, jogar com os peitoris no sentido de evitar aquele inconveniente.(12)
Numa arquitetura mais livre, todos esses problemas crescem em complexidade, pois tudo deve se relacionar dentro de um denominador comum de unidade plástica.
Se o arquiteto desejar dar ao volume interior que criou maior imponência, uma das soluções é o contraste espacial, isto é, projetar um acesso mais estreito, dando ao visitante - pelo contraste - a impressão da amplitude desejada.(13)
É a explosão da qual nos falava Le Corbusier, princípio que se repete por toda a arquitetura.
Quando projetamos a Catedral de Brasília desenhamos como acesso uma galeria estreita. O objetivo era dar aos que a visitam, ao entrarem na nave, uma impressão de grandeza multiplicada e, fazendo-a escura, acentuar a luminosidade e o colorido previstos.(14)
Muitas vezes o arquiteto se alheia desses assuntos, ou por nunca neles ter pensado, ou por não ter condições de senti-lo na sua verdadeira importância. Daí projetar acessos majestosos, reduzindo visualmente os ambientes que assim gostaria de apresentar.(15)
Mas o espaço arquitetural que envolve a arquitetura permite valorizá-la quando bem concebido. No Palácio do Planalto, por exemplo, afastamos as colunas do edifício, dando-lhes formas novas com o objetivo de oferecer aos visitantes os pontos de vista mais variados.(16)
Opções idênticas podem garantir aos espaços internos outras características, seja numa pequena residência ou num grande palácio. Tratá-los em função de sua finalidade e do volume que apresentam é tarefa do arquiteto. Vejam as pequenas casas do fim do século, com suas varandas de estrutura metálica, tão bonitas! Entrem numa delas e sentirão como são agradáveis, como o pé direito alto lhes fica bem.(17) No entanto, poucos anos atrás, reduzir os pés direitos era uma palavra de ordem da nova arquitetura. "Dois metros e trinta são suficientes", dizia Le Corbusier, sugerindo razões de economia e até de escala humana.(18)
Na verdade, os tetos desceram também em função da utilização generalizada dos grandes painéis de vidro, inadequados, por exemplo, para aquele tipo de residência. Primeiro, pela luminosidade excessiva que provocam, depois pelo próprio espaço arquitetural que neles se perde e com ele a intimidade que as velhas casas oferecem. Projetem uma casa com quatro metros de pé direito ou mais, adotando aberturas corretas - painel de vidro não é um tabu - e verão como tudo se corresponde.
É possível projetar uma casa moderna, reduzir os pés direitos e ter fachadas envidraçadas. Para isso basta adotar elementos protetores, uma planta inteligente e evitar que seus moradores fiquem sentados diante de um painel de vidro desprotegido, ou de cortinas, uma contradição lamentável.
Na residência das Canoas - lembramos sempre como exemplo - o local de estar fica em sombra, o que a permite transparente e sem cortinas.(19)
Até o mobiliário interfere - e muito - na arquitetura quando não respeita os espaços livres, que para o arquiteto contam como a própria deco- ração. Diante da incompreensão e do mau gosto existentes, o subterfúgio é - como fizemos nos salões do Congresso Nacional - limitar os locais destinados ao mobiliário com os próprios tapetes.
Muitas vezes o arquiteto sente a necessidade de ampliar, visualmente, um espaço interno, e para isso reveste uma das paredes com espelho ou a faz desaparecer com a cor adequada. O mesmo ocorre quando uma parede, interna ou externa, interfere visualmente, como um obstáculo, na sua arquitetura, o que pode ser resolvido fazendo a curva junto ao piso e usando o mesmo material de revestimento.(20)
Mas o espaço arquitetural interior tem de se harmonizar com o exterior dos edifícios. Citamos alguns exemplos: no Teatro Nacional de Brasília, o cálculo de acústica previa um teto baixo na sala de espetáculos.(21) Não aceitamos a sugestão. Queríamos dar à platéia um volume maior e fazê-lo correspondente à forma exterior do teatro. No Monumento à Revolução Argelina, em Argel, tinham previsto um teto baixo no museu. A idéia nos espantou e retiramos o forro projetado, deixando o espaço livre, imenso e misterioso como devia ser.
Nas cúpulas do Senado e da Câmara, o sistema acústico acompanha as suas formas exteriores, e no Centro dos Dominicanos da França a forma exterior decorre da nossa intenção de criar no seu interior um ambiente mais ligado à natureza, como as antigas cavernas onde dizem ter nascido a religião. O aeroporto de Saarine, em Nova York, segue esse princípio, que o auditório da Bolsa de Trabalho de Bobigny também acompanha.(23)
Numa composição arquitetural não existem apenas os espaços externos e internos, mas também o espaço próximo e distante, a terceira dimensão.
Jogar com esses elementos é uma prática antiga, um jogo de volumes, de distâncias, de claro e escuro, que o barroco usou numa escala menor e requintada. Na arquitetura contemporânea tudo isso assume outra importância, pelos volumes inesperados que os programas estabelecem e a técnica e a imaginação do arquiteto diversificam.
Mas o espaço arquitetural é complexo demais. Falta-lhe muitas vezes o calor humano, o movimento e o dinamismo, em função dos quais é concebido. No Cassino Pampulha os ambientes internos só se completavam em pleno funcionamento com a granfinagem a se exibir, elegante, pelas rampas projetadas. Num estádio, o mesmo acontece e somente repleto, cheio de gente, bandeiras e entusiasmo, é que ele apresenta o espetáculo arquitetural que o arquiteto programou. Até nas áreas mais abertas, isso às vezes ocorre. A Praça dos Três Poderes, em Brasília, caracteriza-se como tal quando o povo nela se instala para ouvir a mensagem de solidariedade e esperança que até hoje não recebeu. (24)
Mas o espaço arquitetural tem sugerido as páginas mais apaixonantes. Vale a pena, por exemplo, ler a Poética do Espaço, de Gaston Bachelard, para sentir como todos, poetas e escritores, nele se detiveram, emocionados.
É o espaço em que vivemos; a velha casa familiar que nos ficou na memória, com suas salas e quartos, com suas varandas e jardins, ou então, a velha rua, ainda com árvores, ainda tranqüila a lembrar um tempo perdido para sempre.