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JORNAL DO BRASIL
CADERNO IDÉIAS
20/06/1998



UM CONTINENTE RETALHADO
Silvio de Almeida Carvalho Filho


Historiador mostra como a África foi dividida pelas potências européias no século 19


Dividir para dominar, H.L. Wesseling entra num circuito de publicação ainda restrito no Brasil - a História da África - , animando os fabricantes brasileiros, que vivem de olhares compridos a vasculharem nossas livrarias em busca de livros em português sobre esse continente, ansioso por traduções de obras que abarrotam os catálogos das editoras universitárias americanas e francesas. Afinal, grande parcela dos graduandos em Ciências Sociais no Brasil aspiram a ultrapassar o que o senso comum dos leitores sabe sobre a fome, os etnocídios, as guerras, os golpes e revoluções na África que permeiam, de vez em quando, as páginas de nossos noticiários.

Henk L. Wesseling, professor da Universidade de Leiden, na Holanda, diretor do Instituto de História da Expansão Européia, mostra a África como uma apetitosa iguaria sendo repartida pelos estados europeus num festim, desconsiderando a vontade de seus povos, sem respeitar a soberania de seus governos, com toda a prepotência que ocorre, até hoje, nas relações Norte-Sul. Livro erudito e bem escrito, primordialmente de história política e diplomática, analisa não só os bastidores dos acordos internacionais, mas também as principais ações desse importante processo histórico. Discute o retalhar dos europeus desde as terras árabes do norte africano à guerra travada pelos britânicos contra os boêres sul-africanos, pretendendo ser, ao superar anos de silêncio historiográfico, a mais recente síntese sobre o tema.

A sua abordagem aspira, intencionalmente, a não se preocupar com "as estruturas e os processos" - apesar desses, às vezes, resvalarem pelo seu texto - mas "sobretudo com as pessoas e suas motivações". Objetiva dar expressão mais "aos fatores individuais que aos de grupos, aos concretos que aos abstratos". Entretanto, busca-se atualmente, teórica e metodologicamente, combinar ambas abordagens, interligando as particularidades às totalidades. Freqüentemente, mesmo afirmando que não, Wesseling o realiza.

Ao analisar a partilha, realiza-a ainda sob uma ótica eurocêntrica. Europeu, escrevendo primordialmente a partir de documentos também europeus, propõe-se a estudar a divisão da África a partir desse locus e não de outro. Não podemos acusá-lo de ocultar premissas, já que, explicitamente, afirma que "os europeus ocupam um lugar central neste livro". Portanto, não se propõe a oferecer espaço suficiente para a discussão do processo sob a ótica africana. Contudo, nós, que queremos enxergar o ponto de vista da alteridade, ansiamos por outras traduções que abordem, dialeticamente, uma história africana também vista a partir de baixo.

Deixando para a conclusão as discussões sobre as razões da partilha, teve mesmo assim que enfrentá-las, aqui e acolá, ao longo do texto. Inicialmente, em consonância com toda uma corrente historiográfica, opta pelas motivações políticas do colonialismo francês, desqualificando as razões de cunho econômico. Todavia, depõe que "Paul Leroy Beaulieu, o grande teórico do colonialismo francês, dirigiu sua mensagem", em especial, aos círculos comerciais, defendendo "que a diferença entre a nova e a antiga forma de colonização era a emigração de capital em vez de pessoas" e que "a função econômica mais importante de uma colônia era servir para os produtos de metrópole".

Wesseling chama a atenção que, "desde o início, rotulou-se a expedição" através da qual a França ocupou a Tunísia como "guerra de negócio". Mas, insiste em desdizer que essa "não era tanto une guerre pour les affaires (uma guerra pelos negócios) quando une guerre pour la grandeur (uma guerra pela grandeza)". Ao enunciar estes dados, o autor oferece-nos a oportunidade para, primeiro, contrapormo-nos à sua opinião neste assunto, abandonando tanto os economicismos quanto as idealizações da política "sem estômagos" e "bolsos". Segundo, para inferirmos que o colonialismo, mesmo o francês, originou-se de fatores múltiplos e de diferentes naturezas, não valendo a pena privilegiar um nível da realidade com o risco de distorcê-la - como de certa forma, o próprio Wesseling conclui o final de seu tomo.

Demonstra com abundância de detalhes como o capitalismo financeiro criou as condições para justificar a ocupação, até porque o capital, quando egoisticamente lhe interessa, sempre desconhece as soberanias e os interesses nacionais. O Marrocos foi o último território a ser partilhado, pois se manteve, durante longos anos, longe desta "modernização", instigada, através de empréstimos, pelo capitalismo europeu. Paradoxais escolhas: "modernizar" ou "arcaizar-se"; "progresso", mas com submissão. Ou seja, inicia-se, então, o desenvolvimento do subdesenvolvimento africano. Jamal al Pin, líder do renascimento islâmico no Egito, em fins do século 19, segundo Wesseling, descobriu tardiamente que a construção de um saber científico, conseqüentemente, tecnológico, próprios, era um instrumento eficaz para fazer frente ao domínio exercido pelo capital estrangeiro através das modernas tecnologias. Apesar de situações totalmente diferentes, não há aí uma lição para extrairmos neste período de globalização?

Contudo, o próprio Wesseling assume inconscientemente preconceitos já presentes na época da partilha. Pondera que o estado de Witu, no atual Quênia, cujo chefe era Ahmed, o Leão, "era mais um valhacouto de ladrões". Porém, logo a seguir, o autor revela-nos Ahmed como "soberano de todos os suailes", uma das mais importantes e influentes etnias da costa oriental africana! Ao contrário, "ladrões" não poderia ser um epíteto atribuído aos invasores alemães que "roubavam" a terra e a soberania dos nativos?

Wesseling postula que "o número de guerras travadas na África foi relativamente pequeno e... que não houve nada parecido a uma resistência maciça, coletiva e sustentada à partilha", todaviam contradiz a sua afirmação ao concluir que "a conquista jamais se encerrou, porque a resistência transformou-se cada vez mais em rebelião, sublevações e outras formas de protesto". Ao afirmar a não resistência que ele próprio pontua constantemente em seu texto. A partilha foi sangrenta, não há que duvidar! E foi sangrenta porque muitos resistiram.

Não concordamos, como Wesseling, que "sob o colonialismo, os africanos continuaram sendo... os senhores do seu destino". Essa afirmativa esquece que o "consentimento" de um segmento das populações africanas foi vigiado por uma força militar e construído às custas de muitas cooptações dos nativos. Muitos foram "comprados" em troca de manutenção ou do aumento de prestígio social. Não vemos na situação colonial exercícios significativos de autonomia africana.

Wesseling denuncia o lugar periférico da África: "Vista da perspectiva européia, nem a partilha da África nem o fenômeno colonial foram de grande relevância" para a Europa. Após a descolonização, "a África reverteu ao que fora antes da partilha: um continente de pouca importância para a Europa". Logo, compreende-se que esta desconsideração, hoje cada vez mais crescente, com este torrão no outro lado do Atlântico constitui uma estrutura de longa duração.

O livro A partilha da África, agora editado pela UFRJ em parceria com a Revan, constitui, apesar das discussões levantadas acima, uma rara preciosidade por nos possibilitar conhecer como as potências ditas "civilizadas" arquitetaram o mais extenso projeto de conquista territorial desde fins do século passado, como trataram com desdém os povos que governaram. Enfim, permite ao leitor brasileiro compreender o que veio depois: o destino de povos africanos, ainda hoje, aspirantes por padrões de vida mais dignamente humanos. É um texto que, possivelmente instigará discussões entre africanistas brasileiros

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Silvio de Almeida Carvalho Pinto é Doutor em História pela USP e professor de História da África da UFRJ e UERJ