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O GLOBOL
PROSA & VERSO
21/03/1998



GANÂNCIA E CRUELDADE TRAÇADAS NO MAPA
Claudia Sarmento


Historiador holandês narra e analisa a dramática divisão do continente africano


Foram necessários apenas 20 anos para que a História de todo um continente fosse radicalmente alterada. Em 1880 a expansão européia já existia há séculos, mas praticamente ignorara um pedaço do mundo: a África. Foi só a partir daí que as potências européias - envolvidas numa luta de vida ou morte por terras e poder - decidiram se lançar à corrida africana. Com uma velocidade estonteante, elas conseguiram dividir 17 milhões de quilômetros quadrados, uma área equivalente e dez Índias. Os detalhes dessa partilha espetacular e cruel, que explicam em parte o drama da África contemporânea, são contados pelo historiador holandês Henk L. Wessesling em "Dividir para dominar - A partilha da África".

No livro, a África é apresentada como o objeto do desejo dos europeus, os autores da História do continente no período da partilha (1880-1914). Uma história que começa com a instalação de um protetorado francês na Tunísia e a ocupação britânica do Egito e termina com a sujeição do Marrocos. As peças desse tabuleiro de xadrez são movidas por personagens como Jules Ferry, grande apologista do imperialismo francês; o premier britânico William Gladstone, responsável pela ocupação do Egito; o rei belga Leopoldo II, com um apetite tão insaciável na cama quanto na mesa; e o alemão Otto von Bismarck, que resistiu décadas até abocanhar parte da África Oriental.

Autor da um papel central aos governantes europeus

Wessesling não menospreza o papel dos líderes africanos, mas dá um papel central às decisões e opiniões dos governantes europeus. Ele explica, por exemplo, as razões que levaram a França a se lançar à aventura transoceânica, em busca do status internacional perdido após a humilhante derrota para a Alemanha em 1870, e o passo a passo de um projeto que fez a Europa olhar a África com outros olhos: o Canal de Suez. A partilha do Congo, na África Central, merece um dos maiores e mais interessantes capítulos. As promessas dessa região distante - que mexia com a imaginação ocidental devido aos dramáticos relatos sobre o tráfico de escravos, canibalismo e paganismo - foram exaltadas pelo explorador Henry Morton Stanley que, em seu best-seller "Através do continente negro", descreveu o Congo como um lugar mais fértil que o Vale do Mississipi e falou "de uma nova Índia, muitíssimo apropriada ao comércio e à colonização".

Pois o Congo acabou nas mãos da minúscula Bélgica, graças à disposição de um rei ambicioso o suficiente para patrocinar sua exploração. Foi a política do rei Leopoldo que transformou o Congo no "coração das trevas da África". As artimanhas do rei, que só conseguiu preservar a imagem de humanitário ate a virada do século XIX, quando as atrocidades cometidas pelos colonizadores no Congo vieram à tona, e as aventuras dos exploradores europeus na África são descritas pelo autor com detalhes curiosos.

A análise da história da partilha da África do Sul torna mais fácil o entendimento de conflitos até hoje não resolvidos. Segundo Wessesling, a divisão da região teve uma característica própria, marcado por um confronto único na África: a luta entre dois grupos brancos, os britânicos e os descendentes dos primeiros colonizadores holandeses, unidos pela Bíblia e pelo ódio aos negros. Teve também uma diferença crucial em relação à colonização britânica na América do Norte, na Austrália e na Nova Zelândia, onde a população nativa foi quase inteiramente exterminada. "Na África do Sul, os brancos continuaram sendo uma pequena ilha num mar negro", explica o autor.


Livro termina com a partilha do Marrocos, em 1912

O período analisado no livro termina onde começou - na África do Norte, com a partilha franco-espanhola do Marrocos, entre 1911 e 1912. O ano de 1912, no entanto, não encerra a história da partilha. Mas a Primeira Guerra estava para explodir, e o mundo não seria mais o mesmo. O mapa desenhado pelos europeus moldou a África atual e expropriou os africanos de sua soberania.