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Biografia e História

José Murilo de Carvalho



Engenheiro possuído pela paixão de transformar os valores, idéias e instituições brasileiras presas à tradição ibérica; reformista radical que via na abolição da escravidão apenas um primeiro passo a ser completado pela substituição do latifúndio, do landlordismo, pela democracia rural da pequena propriedade; homem público por excelência que entrelaçava a própria biografia e a história do país; figura humana admirável pelo culto da amizade, dirigido sobretudo a Nabuco e Taunay, e pela lealdade, que dizia canina, ao imperador, a quem acompanhou no exílio onde ambos morreram sem nunca regressar ao país; um estranho no ninho das elites brasileiras por defender, simultaneamente, o que Benjamin Constant considerava incompatível, isto é, a liberdade individual dos modernos e a liberdade pública dos antigos, consubstanciada esta última na virtude cívica e na preocupação com a igualdade e a justiça social; uma das mais extraordinárias figuras públicas do último quartel do século passado.

Este é o André Rebouças que encontra em Maria Alice Rezende de Carvalho, deste O quinto século, uma intérprete à altura, sensível, aguda e profunda. Sensível, para entender o drama humano desse visionário tolstoiano que pôs fim à vida atirando-se de um penhasco na ilha da Madeira. Aguda, ao fugir da biografia tradicional e buscar, no esforço do próprio Rebouças de construir sua autobiografia, material para uma rica discussão das relações entre biografia e história. Profunda, ao vincular as trajetórias de Rebouças, Nabuco e Taunay, a propostas distintas, embora não incompatíveis, de construção do Brasil. Mais paternalista em Taunay, mais nacional em Nabuco, mais democrática em Rebouças, as três propostas convergem na aceitação do papel central do Estado na liderança da construção e tiveram longa vida no quinto século brasileiro.

Particularmente rica é a análise que Maria Alice faz da conversão de Rebouças operada na década de 80. Frustrado em seu "iaquismo" radical dos anos 70, marcado pela crença na força renovadora da liberdade e da iniciativa individuais, Rebouças converteu-se, na década seguinte, à convicção de que no Brasil a liberdade e, sobretudo, a igualdade, não podiam ser atingidas pelos simples jogo dos interesses, na época predominante oligárquicos. Fazia-se necessária a intervenção de uma agência guiada pela lógica distinta, que ele localiza no poder central e na figura do imperador.

Homem em linha reta e geômetra social de desenhos também retilíneos, cujo ponto de chegada, a democracia, nossa sociedade, barroca e curvilínea, ainda luta por alcançar, eis, em resumo, o Rebouças que Maria Alice nos apresenta em texto que da geometria guarda a limpidez e busca nas curvas da sensibilidade a riqueza e a profundidade.