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JORNAL DA TARDE
18 / 07 / 1998 - sábado
O Estado brasileiro, um ideal em estruturação
Ana LannaAndré Rebouças, monarquista que lutou pelo fim da escravidão é analisado em seu intuito odernizador no livro "O Quinto Século: André Rebouças e a Construção do Brasil", de Maria Alice Rezende de Carvalho
Os anos 70 do século 19 no Brasil já foram chamados de "a era das reformas". As novas características da economia internacional, os avanços do capitalismo, a constituição da nação e as questões internas daí decorrentes tais como a Guerra do Paraguai, a crise da escravidão, etc., exigiam mudanças. Rebouças, Nabuco e Taunay eram homens que pensavam sobre estes temas e propunham caminhos de reordenação do País e do Estado. Eram, por diferentes motivos, monarquistas e revelavam a montagem de uma estrutura intelectual "que circunda e alimenta o Estado como agente, ator, condutor deste processo". Mas dos três seria por meio de Rebouças que poderíamos, segundo a autora Maria Alice Rezende de Carvalho, além de rememorar a moderna tradição brasileira, "realizar, finalmente, a dimensão democrática que permaneceu latente na obra das gerações que nos precederam".
Os personagens em estudo compreendiam suas trajetórias integradas com as do País. Entendiam que a identidade do Brasil - conservadora e presa a tradições ibéricas - exigia atores individuais para modelar a modernização necessária, ou seja, a forma como se percebiam tinha relação direta com o país que desejavam construir. Assim, a autora recupera a trajetória de André Rebouças e de seus dois importantes parceiros e amigos - Nabuco e Taunay. Resgata as leituras e influências intelectuais que formaram cada um deles e reconstrói neste quadro a imagem que queriam construir de si.
O Quinto Século se apresenta então como texto que, ao entrelaçar biografia e história, aponta as mais instigantes possibilidades deste tipo de investigação: história das idéias, sociologia dos intelectuais e texto e contexto do biografado. Não só dele mas de Nabuco e Taunay, das possibilidades e caminhos que colocaram para as reformas do Estado brasileiro.
Rebouças, Taunay e Nabuco são, na visão do biografado e da autora do livro, apresentados como elementos de um triângulo que compunha as possibilidades da estruturação do Estado Brasileiro, da "construção do Brasil". Neste caminho, Maria Alice Carvalho recupera as diferentes histórias e influências intelectuais, os temas tratados e as proximidades e distanciamentos entre eles. Taunay, mais conservador, francófilo, Nabuco, com quem Rebouças "discute um retrato do Brasil". André Rebouças, ianque, marcado pela ascensão dos Estados Unidos como grande potência. Ambos aproximaram-se do imperador e da defesa da monarquia em nome de reformas desejáveis. Unia-os sobretudo a luta pela abolição da escravidão.
Percorrendo os vários caminhos e temas das reformas propostas, o leitor poderá também entrever aspectos formativos da nação tais como a Guerra do Paraguai, a Escola Militar do Rio de Janeiro, o Instituto Histórico e Geográfico do Brasil. Mas é, como destaca Werneck Viana no prefácio, o Estado Nacional, a busca da construção da nação e a presença neste processo, de um corpo de intelectuais no sentido emprestado ao termo por Gramsci, o grande tema do livro, originalmente tese de doutoramento apresentada ao Iuperj no Rio de Janeiro. Muitas vezes Rebouças desaparece para dar lugar às instituições e movimentos transnacionais; para em seguida ter seus temas apresentados em sincronia com os movimentos apontados.
O engenheiro Rebouças dos anos 1870 é pleno de urgências transformadoras, defensor da técnica, empreendedor, ianque ao defender a utilidade social do interesse individual. Nos anos 80, ao avaliar uma perda no ímpeto das reformas na sociedade brasileira, aproxima-se definitivamente da monarquia e transforma-se num "intelectual" dócil ao movimento lento das estruturas, defendendo a modernização operada politicamente pelo estado centralizado, inspirado nos modelos alemão e italiano (págs. 125/129).
A trajetória do biografado revela a permanência e centralidade, nas suas propostas, de alguns temas, dentre os quais são essenciais aqueles referidos à questão da terra e da necessidade de constituição de um povo reformado ética e moralmente. Almeja reformas na propriedade da terra, constituindo um país de pequenos proprietários. Advoga o fim necessário da escravidão, sendo esta a grande batalha dos anos 80, tema específico de um dos capítulos do livro. Defende a imigração e a imperiosa constituição de uma nação composta por indivíduos empreendedores mas "vocacionados para o bem comum". Revela a necessidade de se conhecer o território nacional, abandonando o litoral e "viajando" pelo interior numa descoberta que os modernistas de 22 procurarão refazer. Estas propostas para o País só poderiam, segundo Rebouças, ser realizadas nos quadros de uma "monarquia democrática e não de uma república escravagista". Daí sua enorme fidelidade ao imperador que o leva ao exílio, à descrença no movimento de 15 de novembro de 1889 e, por fim, ao suicídio em Funchal na Ilha da Madeira em 1898. Mas até o fim e por todos os (des)caminhos permaneceria um defensor da democracia e de tantos projetos ainda hoje não realizados.
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Ana Lanna é professora da FAU-USP e doutora em história pela USP.