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JORNAL DO BRASIL
IDÉIAS/LIVROS
09 / 05 / 1998 - sábado
OS PROJETOS DE ANDRÉ REBOUÇAS
Maria Alice Rezende de CarvalhoTrecho do livro de Maria Alice Rezende lançado pela Revan fala de idéias do engenheiro que desafiou as fronteiras raciais do século 19
Em meio à sua narrativa autobiográfica, Joaquim Nabuco transcreve um itinerário proposto por André Rebouças para a fuga dos escravos de São Paulo para o Ceará, uma das províncias mais fortemente engajadas na luta pela extinção do trabalho compulsório no país. Os "termos fantasistas", como disse Nabuco, de que se reveste o texto do engenheiro são ilustrativos de um pensamento já então vazado pelas referências contextuais de toda a sua vida, exprimindo a conciliação literária de engenharia, da liberdade, da natureza brasileiras - difícil não atribuí-los, portanto, à sua interação com Joaquim Nabuco e Alfredo Taunay.
De fato, se há um consenso comunicado pelos três é o da grande influência mútua no decorrer de suas vidas ou, pelo menos, no curso do movimento abolicionista que reputavam o de maior significação para cada um e para a história do país. Nabuco dedica ao "engenheiro, matemático e astrônomo, botânico e geólogo, industrial e moralista, higienista e filantropo", algumas páginas da Minha formação, conferindo-lhe o papel principal, "o papel primário, ainda que oculto, do motor, da inspiração que se repartia por todos..."; agregou, ademais, no Prefácio da sua autobiografia, uma referência conjunta a Rebouças e a Taunay, ambos já estão falecidos, reclamando-lhes, de certa forma, a cumplicidade na elaboração daquela obra, concebida como um epitáfio do auto-reformismo do Império brasileiro.
Taunay, por sua vez, na homenagem que dedicou a seu amigo Rebouças, lembrou-se centralmente do papel de Nabuco na agitação abolicionista dos anos 70, quando se vira na "obrigação de contrariá-lo de frente [...] no [meu] longo e aliás muito aplaudido discurso de 16 de abril de 1875: 'convém, por verto, insistia [eu] nos artigos de contestação ao ilustre e eloqüente abolicionista, cuidar-se, quanto antes, da eliminação da escravaria, que é uma vergonha para o Brasil; mas não sem se tratar da substituição e transformação dos viciosos e deprimentes elementos de trabalho que temos. E cumpre fazer-se isso tudo por modo científico e sistematizado, pondo, quanto possível, fora da questão, os arrastamentos do sentimentalismo, pois do contrário sobrevirá crise medonha, que há de repercutir longe, e cujo alcance não pode ser medido, nem previsto".
Lembrou-se também que, em virtude dessa manifestação de oposição a Nabuco e da má compreensão de que ela padecera por parte de "muitos fazendeiros apavorados com as medidas propostas", Rebouças, em plena Rua do Ouvidor, puxou-o para um corredor e lhe perguntou diretamente: "...'você, deveras, está escravocrata? Será possível, um Taunay, o meu Taunay?,... 'não!', retorqui-lhe com força, 'não me faça tal injustiça! Estou decidido a trabalhar pela abolição; não quero, porém, fazer as coisas a esmo, sem método, sem acautelar interesses vitais da nossa pátria, infelizmente ligados à negra escravidão e com ela travados. Tratemos, por isso, pari passu, e concomitantemente da imigração, chamemos a nós as grandes forças de reconstituição moral e material; eis o caminho a seguir para sitiar-se a esmagar-se o horrendo monstro...' 'Estou pronto, estou pronto, respondeu-me ele'". Por fim, e com igual referencialidade, Rebouças, quando no exílio, não deixaria de registrar em carta a Taunay, que formavam "eu, você e Nabuco, um triângulo de honra, de brio e de obrigação em torno de Pedro II. O resto pouco importa".
Tomada em sua dimensão menos evidente, a campanha abolicionista aparecia para os três amigos como uma viagem de conversão. Para Nabuco, que aceitara sem grande convicção o seu destino como membro da quarta geração de uma família de políticos, ela significara uma experiência transcendental do espírito em sua atualização local - o que lhe permitiu vivê-la como um fato religioso, mediante o qual sua vida adquirira sentido e completude. Para Taunay, a conversão era mais óbvia e" realista". Conservador e defensor da liberação gradual da mão-de-obra escrava inscrita na Lei Rio Branco, tivera na campanha abolicionista o êmulo necessário ao seu projeto imigrantista, agarrando-se a ela como via de aperfeiçoamento moral e material do Império brasileiro, mediante a incorporação da mão-de-obra européia. Finalmente, para Rebouças, o sentimento de derrota experimentado ao final do anos 70 inscrevera-o em um contexto de pouca animação pública, atenuado por sua adesão àquela causa grandiosa.
Assim, além do fato óbvio de que a abolição seria narrada por Nabuco e Rebouças em uma estrutura de enredo tipicamente épica, movendo o país de um estágio de limitações animais e de vigência da singularidade absoluta das casas senhoriais, a um momento civilizatória regulado pela razão e, afinal, a um desfecho republicano, em que novamente imperava a dispersão e a barbárie, pode-se dizer que, do ponto de vista da automodelagem de seus principais próceres, a narrativa da luta abolicionista foi vivida, em cada um dos três casos considerados, como uma viagem intelectual e moral.
Da perspectiva de Rebouças, o contexto da luta abolicionista foi aquele em que, pessoalmente desorganizado pela impossibilidade de converter a sua experiência singular como self-made man na atividade prometéica de fundação de uma cultura técnica nacional, aderira ao abolicionismo, isto é, a um movimento capaz de reciclar a sua derrota em uma nova aposta, desde então assumida como predestinação. Afinal a radicalidade de sua crítica seria vivida como Beruf, operando em um locus em que a razão e revelação não necessariamente constituíam esferas separadas. Nas palavras de Nabuco, "dos Evangelistas da nossa boa-nova ele [Rebouças] é que teria por atributo a águia... Há no seu estilo e nos seus moldes muita coisa que lembra São João..."
O processo da crítica abolicionista conviveu, por muito tempo, com a impossibilidade de se tornar política, concentrando-se então, em espaços como o de clubes, associações, cafés e jornais, onde viria a consagrar uma nova autoridade moral - o público. Essa teria sido, de acordo com a cronologia concebida por Nabuco, a primeira fase do movimento abolicionistas, estendendo-se de 1879 a 1884 - momento "em que os abolicionistas combateram sós, entregues aos seus próprios recursos".
Rebouças participou de todas as mais importantes iniciativas do movimento abolicionista em sua primeira hora: organizando o banquete para o ministro norte-americano Mr. Henry Washington Hillard, em 20 de novembro de 1880: tomando parte na fundação da Sociedade Brasileira Contra a Escravidão; escrevendo inúmeros artigos da Gazeta da Tarde; redigindo o projeto de lei que criava o Imposto Territorial, cuja apresentação aos membros do Parlamento, em setembro de 1882, seria feita pelo deputado José Mariano da bancada liberal de Pernambuco; estimulando a criação de uma Sociedade Abolicionista na Escola Politécnica, onde lecionava; redigindo em 1883, juntamente com José do Patrocínio, o Manifesto da confederação abolicionista - primeiro documento de uma sociedade fundada no dia 9 de maio daquele ano, nas dependências da Gazeta da Tarde e que o manteria como tesoureiro eleito até 12 de junho de 1888. Tal manifesto, exigindo a abolição imediata do trabalho escrevo e sem indenização, seria dirigido ao Parlamento e publicado por iniciativa do Deputado Severino Ribeiro no Diário Oficial. Rebouças também participaria da sessão preparatória para a fundação da Sociedade Central de Imigração, no Liceu de Artes e Ofícios, em 14 de outubro de 1883, onde protestou, juntamente com seu amigo Taunay e com o publicista Carlos von Koseritz, contra a introdução de chins [N.R:chineses] no Brasil. Dessa sociedade participaria até a sua partida para o exílio. (...)
Assim, no decorrer da campanha abolicionista, notadamente em seu momento menos emocional e panfletário, Rebouças associaria a miséria brasileira à vigência, por três séculos, do estatuto colonial da terra e esboçaria uma superação das condições de vida dos trabalhadores nacionais e estrangeiros, isto é, de emancipados e colonos, mediante a instituição de uma lei agrária. Nesse sentido, pode-se dizer que progressivamente as preocupações de Rebouças evoluíram de um diagnóstico referido aos malefícios sociais produzidos pela escravidão na direção da caracterização dos impasses à construção da autonomia do homem comum em um contexto de monopólio da terra. Sua perspectiva seria dominada, doravante, pelo tema da emancipação social.
Um intelectual negro
O texto acima foi extraído do livro O quinto século: André Rebouças e a construção do Brasil, de Maria Alice Rezende de Carvalho, que está sendo publicado pela editora Revan. O tema da obra é a trajetória de André Pinto Rebouças (1833-1898). Filho de um advogado mulato autodidata e da filha de um comerciante, ele nasceu em Cachoeira, na Bahia. Depois de formar-se como engenheiro no Rio, foi estudar na Europa em 1861. De volta ao Brasil, trabalhou na reforma de portos e edificações no litoral. De 1865 a 1866, serviu como engenheiro na Guerra do Paraguai. André Rebouças teve papel importante nas obras do plano de abastecimento de águas para o Rio e na construção das docas da Alfândega. Como empresário, envolveu-se, sem sucesso, em vários empreendimentos que visavam a modernização do país. Na década de 1880, Rebouças engajou-se no movimento abolicionista ao lado de amigos como Joaquim Nabuco e Taunay. Muito ligado a D. Pedro II, viu com hostilidade o movimento militar que levou à República. Embarcou para a Europa no Alagoas, acompanhado o imperador na viagem para o exílio. Até 1891 viveu em Lisboa, onde foi correspondente do jornal britânico The Times. Arruinado financeiramente, trabalhou como engenheiro em Luanda. Já abatido e com a saúde abalada, fixou-se na Ilha da Madeira em 1893. Nunca voltaria ao Brasil. Seu corpo foi achado ao pé de um penhasco de 60 metros de altura, perto do hotel em que vivia.__________________
Maria Alice Rezende de Carvalho é historiadora e professora do IUPERJ.