[retornar]

REVISTA ÉPOCA
9/11/98

CRÍTICA


Niemeyer emociona ao narrar fatos de sua vida


A INTIMIDADE COMOVENTE
Anabela Paiva

Textos curtos e ágeis, como os traços rápidos com que rabisca um corpo feminino no papel enquanto fala ao telefone. Com eles, o arquiteto Oscar Niemeyer construiu sua autobiografia, As Curvas do Tempo. Ninguém espere encontrar no livro o exame exaustivo de seus projetos. Isso ele deixou para outros autores, que já escreveram 36 obras sobre o arquiteto. A mais completa, de Jean Petit, será lançada em português em dezembro. Niemeyer preferiu fazer um livro que traz o leitor para sua intimidade. Quem não teve a oportunidade de subir ao escritório de Copacabana, onde o único luxo é a vista para o mar, pode preparar um drinque e se imaginar ouvindo os episódios na voz baixa do arquiteto, numa das rodas de conversa entre amigos que costumam encerrar o dia.

Em estilo sóbrio e muitas vezes comovente, Niemeyer fala da infância na casa em Laranjeiras, cujos azulejos ainda enfeitam sua escrivaninha. Lembra o avô importante na política, que morreu pobre. Apresenta o irmão bancário, de quem sempre invejou a vida sem sobressaltos; confessa seu folclórico medo de avião, que o fez levar nove dias para ir a Porto Alegre em um táxi. Lembra a militância comunista e personalidades que passaram por sua vida, como Prestes e Sartre. Admirador de Le Corbusier, não resiste a criticar a vaidade do mestre. Pena que, capítulo sim, capítulo não, lamente a tristeza dos miseráveis e lembre a necessidade da revolução. A repetição do escritor não faz jus à criatividade do arquiteto.




ENTREVISTA


O POETA DO CONCRETO


Aos 91 anos, Oscar Niemeyer se equilibra entre ceticismo e esperança ao passar em revista amizades e amores num belo livro de memórias

Brasil bem que poderia ter seu prêmio Oscar. Seria concedido aos brasileiros conhecidos em todo o mundo como mestres que recriaram seus ofícios - os Oscar Niemeyer de cada atividade. Tom Jobim é o Oscar Niemeyer da música; Pelé, o do futebol. Nascido em 1907, o Oscar Niemeyer da arquitetura está lançando As Curvas do Tempo, livro de memórias em que fala pouco de suas glórias e muito dos amigos. Com mais de 400 obras em quatro continentes, Niemeyer se prepara para receber mais homenagens, como a medalha de ouro do Instituto Real de Arquitetos Britânicos e uma retrospectiva de sua obra em São Paulo, em dezembro. "Não me impressiono. Credito à minha idade", diz, com o ceticismo de quem dobrou muitas curvas do tempo.

Época: Por que escrever memórias?

Oscar Niemeyer: Sempre gostei de escrever. Há dois anos, resolvi reunir os meus escritos para contar como eu atuo na vida. É um livro que não quer ofender ninguém. Sempre digo que o homem é feito uma casa. Você pode consertar, mas se o projeto é ruim sempre fica deficiente. Eu desculpo as pessoas. Acredito na genética. A pessoa é burra porque é burra mesmo. É uma loteria. Por isso, me dou bem com todo mundo. Nunca deixei de ter amigos conservadores, até integralistas. Eu achava que eles estavam equivocados, eles achavam que eu é que estava. Quando assino manifestos, se é coisa que ofende uma pessoa, assino constrangido. Todo mundo tem um lado bom.

Época: Até o general Pinochet?

Niemeyer: Não, esse é um filho da p..., aí não dá.

Época: No livro, o senhor fala de um ser oculto que governa parte dos seus atos. Como descreveria este gêmeo?

Niemeyer: Sinto como se eu fosse duas pessoas: uma, voltada para o prazer, se divertindo; a outra, mais dentro da realidade, sabendo que a vida é difícil, que, quando acaba, acabou. Guardo dentro de mim, desde menino, a idéia de que o mundo é perverso. Vi uma vez minha avó dizer para a empregada: "Tira esse pano da cabeça, negro não usa isso". Eu tinha sete anos, mas aquilo me chocou. Nasci para protestar contra essas coisas. Sempre fui revoltado. Sou pessimista. A vida é um sopro, é um minuto, e a natureza é injusta porque você cria amizades, compromissos e não quer ir embora.

Época: Como o senhor, sendo pessimista, continua acreditando numa utopia revolucionária?

Niemeyer: Não quero um mundo niilista, sem sonhos. Sartre dizia que a existência é um fracasso e viveu intensamente.

Época: O senhor está com 91 anos, mas continua a toda. Participou da manifestação dos estudantes da UFRJ pela posse do reitor eleito. O senhor não se cansa?

Niemeyer: Achei uma brutalidade não aceitarem um reitor escolhido por professores e alunos. Fui lá. Eles gostaram, me abraçaram, vi que fui útil. Apoiei os sem-terra desde o começo, desenhei o estandarte deles. Acho que todo mundo deve participar. Quando faço palestras para estudantes, digo que a arquitetura não é importante, o importante é a vida. Não basta ser ótimo profissional, é preciso gostar do seu país, ler, participar. Às vezes, você encontra num livro a palavra adequada para expressar a arquitetura. Baudelaire disse que a surpresa, o espanto são as características básicas de uma obra de arte. É o que penso. Camus diz em O Estrangeiro que a razão é inimiga da imaginação. Às vezes, você tem de botar a razão de lado e fazer uma coisa bonita.

Época: Do que o senhor gosta mais: arquitetura ou literatura?

Niemeyer: Gosto de tudo. Gosto mais de mulher. Depois, gosto de fazer minha arquitetura, que é diferente, é leve, variada, lembra um pouco as coisas antigas de Minas Gerais. Gosto de ler, gosto de música, tocava um pouquinho violão, cavaquinho. Tenho os amigos mais diversos. Eles costumam vir aqui ao escritório para bater papo. Na minha idade, se o sujeito fica sozinho, cai na realidade achando que o tempo corre depressa demais.

Época: Há algo de bom em envelhecer?

Niemeyer: Não, acho uma m... Tudo é pior. Para mim, a vida acaba aqui. Não acredito em Deus, coisa que tenho em comum com o José Saramago, que também acha que é preciso ser pessimista. Tem uns sujeitos de que eu gosto, têm talento, sabem se comportar. Chico Buarque é um. Ele está sempre do lado certo.

Época: Chico vota no PT. E o senhor?

Niemeyer: Voto na esquerda. Saí do Partido Comunista quando tiraram a foice e o martelo e virou PPS. Criamos outro partido comunista. Mas também sou ligado ao PC do B. Não acredito no que dizem sobre Stalin. É lógico que, na briga, a pessoa tem de tomar uma posição, guardar a unidade que a luta exige.

Época: E os campos de concentração que existiam na URSS?

Niemeyer: A imprensa burguesa inventou ou pelo menos multiplicou a história. A luta política obriga a certas decisões.

Época: Mas o mesmo argumento poderia justificar a ditadura ou o nazismo.

Niemeyer: É, é complicado. Cada um tem a sua maneira de pensar. Mas eu não mudo, não.

Época: Essa crise econômica é sintoma de que a vitória do capitalismo sobre o socialismo não está assegurada?

Niemeyer: Acho que o capitalismo acabou. O desemprego está por toda parte.

Época: O que o senhor acha de Fernando Henrique?

Niemeyer: Lógico que não estou de acordo com as coisas que ele faz. Acredito no regime estatal. Corri muito na rua protestando no tempo da campanha O Petróleo é Nosso. A privatização foi um absurdo, venderam o país.

Época: Mas e a eficiência? O Estado não é eficiente na prestação de serviços.

Niemeyer: Mas pode ser. A prova é a Petrobrás. É formidável, atua no exterior.

Época: Mas a Telerj não era.

Niemeyer: É questão de orientar. Daqui a pouco querem vender a Amazônia.

Época: O senhor fez projeto de um lago na frente do Congresso Nacional atendendo ao desejo do senador Antonio Carlos Magalhães, que queria fazer um fosso para impedir manifestações populares. Isso não é pouco democrático?

Niemeyer: Bom, eu resolvi a arquitetura. Sempre pensamos em continuar o lago que tem do outro lado do edifício por baixo até a frente. Vai ser muito bonito. O Antonio Carlos é um camarada simpático, corajoso. Ele sabe lidar com as pessoas. Sei ver qualidades mesmo nos que pensam diferente. O Jânio Quadros era um sujeito surpreendente, para tudo tinha uma idéia própria. Era muito personalista, mas engraçado. O Orestes Quércia é um sujeito bom, me prestigiou com um projeto grande, o Memorial da América Latina. Nestas eleições, ele estava só com 7% e fiz um artigo que o elogiava. Eu geralmente estou com a esquerda. Mas, quando a amizade está presente, apóio quem eu gosto. É importante haver gente diferente. A repetição é uma m...

Época: E Getúlio Vargas?

Niemeyer: Participei do concurso para o Maracanã no tempo dele. Fomos desclassificados. O projeto que ganhou era melhor. Discordo da rampa de entrada, mas dentro é bonito. Getúlio me disse que se tivesse ficado no governo teria feito o meu estádio. Coisa de político. Mas ele criou as estatais, foi muito importante. Tanto que Luís Carlos Prestes, quando saiu de nove anos de prisão, entendeu que era preciso ficar ao lado de Getúlio.

Época: O senhor está em dificuldades financeiras?

Niemeyer: Eu tenho muitos compromissos. Ganhei dinheiro, mas gastei muito, dei muito para os amigos. Hoje tenho de trabalhar para o dia seguinte. E vou morrer assim. Minha despesa familiar é grande. Gostaria de ter um salário bom, que desse para pagar as contas.

Época: O que o senhor achou do tombamento das suas obras, votado pela Câmara Municipal do Rio de Janeiro?

Niemeyer: É gentil comigo, mas acho que tombar tudo é um pouco complicado. É preciso ter critérios.

Época: Sua arquitetura tem sido criticada como pouco confortável. O Palácio da Alvorada, por exemplo: volta e meia algum político fala que é difícil viver lá.

Niemeyer: É muito fácil criticar. No tempo do Juscelino, a gente tinha de deixar de lado certas coisas que eram caras demais. Nenhum prédio tinha ar-condicionado. Hoje, é natural que queiram mais conforto. Para não perder tempo, digo sempre que fiz a sede do Partido Comunista francês e, dez anos depois, quando foram fazer o jornal L'Humanité, me chamaram para fazer o projeto. Fiz um palácio em Milão para a editora Mondadori. Quando quiseram outro prédio, vieram me pedir. Isso responde?

Época: O senhor acha que a religião é um mal, como escreveu Marx?

Niemeyer: Não, eu acho ótimo, gostaria de acreditar em Deus. Você fica mais tranqüilo diante das coisas.

Época: No seu livro, o senhor volta e meia fala sobre bordéis...

Niemeyer: Naquele tempo era assim: as farras acabavam no bordel. Havia os bordéis mais caros e a zona. No tempo de colégio, eu ia para a zona de meretrício. Um dia meu tio disse: "Vou te levar no rendez-vous". Cheguei lá e uma mulher perguntou: "Menino, o que você veio fazer aqui?" Peguei uma gonorréia.

Época: O senhor é tão preocupado com a justiça social. Nunca pensou na prostituição como exploração da mulher?

Niemeyer: Às vezes dava pena. Mas era a vida. O lado ruim da vida. O destino e a miséria é que comandam.

Época: Como o senhor manteve um casamento de 70 anos com dona Annita?

Niemeyer: Nunca tivemos problemas. Minha mulher é católica, nem quer ouvir falar em comunismo. É uma pessoa muito boa, correta, só pensa na família. Sempre a respeitei muito. Por isso fico meio vago nas minhas memórias.


PERFIL - Oscar Niemeyer

Nasceu em 1907, no Rio de Janeiro;
Casou-se em 1928, com Annita Baldo, e teve uma filha, Anna Maria;
Aos 23 anos, foi estudar na Escola Nacional de Belas Artes;
Estagiou no escritório de Lucio Costa, onde participou do projeto do Ministério da Educação;
É autor dos projetos de Brasília, do conjunto da Pampulha, dos CIEPs e do Sambódromo, entre outros.