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FOLHA DE S.PAULO
INÉDITOS (CADERNO ESPECIAL)
PÁGINA: 1 A 4
07 / 04 / 2000 - SEXTA-FEIRA


Religião e luta no coração das trevas
ÁLVARO MACHADO
especial para a Folha


"A Bíblia Envenenada", de Barbara Kingsolver, conta a história de missionário americano que chega ao Congo em 1959 e se vê no centro do tumulto da luta de independência da então colônia belga; livro sai no Brasil este mês pela editora Revan; leia a seguir trechos inéditos, que a Folha publica com exclusividade


Romance é jogral de cinco vozes

No trecho inédito de "A Bíblia Envenenada" publicado neste caderno, resume-se a experiência da mulher de um missionário batista norte-americano e suas quatro filhas, numa vila nos confins da selva na República Democrática do Congo.
Corriam os anos 1959-61, pouco antes de o país entrar na "fase Zaire" do ditador Mobutu Sese Seko.

Nesse solilóquio retrospectivo, a personagem Orleanna Price recorda o seu contato direto com o "coração das trevas" que, com seu apoio passivo, o marido fanático tentou desastrosamente evangelizar.

Trinta anos passados, Price rende tributo, finalmente, às forças renovadoras da natureza, que ela assistiu agindo concentrada, por toda a parte e sem freios, seja numa trilha de formigas assassinas ou na formação do caráter de suas quatro filhas pequenas.

Ela recapitula sua penosa transformação pessoal em meio a mosquitos da malária, tarântulas e, principalmente, à convulsão social na antiga possessão belga centro-africana, ao tempo em que os EUA interferiam para derrubar o líder comunista Patrice Lumumba, assassinado em janeiro de 61. Price percebe que, de alguma maneira, dobrou-se à ventania como o junco, em vez de rachar como um tronco orgulhoso.

O relato intitulado "Exodus" dá conta, ainda, de conseqüências recentes do choque cultural sofrido por sua família durante a permanência na África Central.
Duas de suas quatro filhas foram conduzidas a caminhos insuspeitados no território da experiência coletiva.

A expressão "o coração das trevas", forjada por Joseph Conrad para uma obra-prima da literatura inglesa no século passado, aparece uma única vez no longo romance (448 páginas na edição brasileira) da norte-americana Barbara Kingsolver, 44, publicada pela primeira vez no país.

Mas a referência a Conrad, que na "Bíblia Envenenada" surge na verdade a propósito do relacionamento cego entre Orleanna e o pastor, é recorrente nas resenhas publicadas nos EUA desde 98.

De outro lado, alguém levantou, maliciosamente, a hipótese de que, na construção de seus personagens, Kingsolver deve bem mais ao escritor norte-americano Nathaniel Hawthorne, autor do clássico puritano "A Letra Escarlate" (1850).

Mesmo com esquematizações à la Hawthorne, que acabam fisgando o leitor mais preguiçoso, essa "Bíblia" emprenhada de sugestões conradianas não deixa de representar um antídoto à mediocridade paralisante das listas norte-americanas de best sellers, no topo das quais o romance permaneceu por longos meses.

Entre as qualidades literárias mais evidentes da ex-jornalista nascida no estado sulino do Kentucky está um poderoso sentido de observação de detalhes, ferramenta indispensável em seu ofício, e uma poesia para descrevê-los que soa inata.

A autora atribui tais características à sua infância no sul dos EUA. Em entrevistas, lembra ter crescido entre uma gente que em vez de dizer simplesmente "ela é feia", diz "ela é feia como uma cerca de pau-a-pique".

Kingsolver declara outras influências, e a de John Steinbeck ("As Vinhas da Ira", 1939) é a mais óbvia, já que seu romance de tintas sociais explícitas purga culpa pela irresponsável interferência dos EUA no processo democrático do ex-Congo Belga, durante a Guerra Fria.

A "leitura repetida" de "Middlemarch" (1872), da inglesa George Eliot, pode ser outro fator concorrente para a forte consciência de responsabilidade moral que alimenta "A Bíblia Envenenada".

 

Pesquisa de campo

Kingsolver, porém, não cresceu na África, ao contrário da inglesa Doris Lessing ("a maior escritora inglesa de língua viva"), a quem a norte-americana também vota admiração. Seu romance, narrado por mãe e quatro filhas como um jogral a cinco vozes, foi construído com pesquisas e viagens pelo continente africano nesta década de 90.

Os leitores da complexa Lessing saberão identificar as cores chapadas de Kingsolver na pintura de conflitos raciais. Contudo, no que diz respeito ao divertido verniz sulista de suas perplexas mulheres desterradas, a autora não tinha como errar.

Na correta tradução brasileira, resolveu-se abandonar a tentativa de imitar com algum equivalente caipira o sotaque e as expressões sulistas que a escritora conferiu a seus diálogos. Ao menos assim o leitor está protegido da ameaça de uma transcriação sem fôlego.

"A Bíblia Envenenada" será lançada neste mês de abril, durante a 16ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo.

 

TRECHO


Religião e luta no coração das trevas
"Que os homens escrevam estas histórias. Só conheço o terreno em que vivemos nossa vida."
Qual o objetivo do evento político em Bulungu? Será que eles queriam matar
Lumumba?"
"E vós haveis de levar daqui convosco os meus ossos.
Assim partiram... e acamparam... na entrada do deserto...
Não desaparecia a coluna de nuvem de dia, nem a coluna de fogo durante a noite." Exodus, 13:19-22
Livro cinco - Exodus
Orleanna Price - Ilha de Sanderling

Em movimento, minha dor vinha atrás de mim como os longos cabelos da nadadora na água. Eu sabia do peso que me seguia, mas não me importava. Só quando eu parava aquela massa escura vinha flutuando se fechar sobre meu rosto, prendendo-me os braços e a garganta até eu me sentir afogar. Por isso eu não parava.

A substância da dor não é imaginária. É tão real quanto a corda ou a falta de ar e, da mesma forma que as duas, é também capaz de matar. Meu corpo entendeu que não havia lugar seguro para mim.

O corpo da mãe se lembra dos filhos _as dobras da pele, o cabelo macio que lhe acaricia o nariz. Cada filho tem suas exigências particulares sobre nosso corpo e alma. Mas é o último que predomina. Não posso dizer que amei menos as outras, mas minhas três primeiras foram bebês ao mesmo tempo, e a maternidade me exauriu. As gêmeas nasceram quando Rachel estava começando a andar. O que aconteceu depois eu quase já não consigo lembrar, anos inteiros de luta diária, de atender mãos e bocas ávidas até o ponto de cair na cama durante algumas horas e sonhar estar sendo devorada, viva, aos pedacinhos. Enquanto embalava, eu contava até cem, juntando paciência para deitar a primeira e pegar a seguinte. Uma boca fechada sobre a colher significava duas outras chorando, penas voando e, assim, eu corria de um lado para outro como a mãe pássaro que ri da mãe natureza com uma ninhada grande demais. Não tive esperança de sobreviver enquanto as três não começaram a andar e ficar em pé sozinhas. As três foram, juntas, a minha primeira ninhada. Eu suspirava aliviada a cada passo que davam sem a minha ajuda. É assim com os primogênitos, não importa o tipo de mãe que você seja _rica, pobre, quase morta de cansaço ou docemente feliz. O primeiro filho é seu próprio pé que avança, e como a gente exulta quando aqueles pezinhos começam a andar sós. A gente examina cada pedaço de pele buscando sinais de precocidade, que depois anuncia para o mundo.

Mas a última: a criança que solta seu perfume como uma bandeira de rendição ao longo da nossa vida, quando já não esperamos mais ninguém _ah, aquela é o outro nome do amor. Ela é a filha que a gente segura nos braços até uma hora depois dela estar dormindo. Deixada no berço, ela pode acordar diferente e fugir. Portanto a gente a embala junto à janela, bebendo a luz que emana de sua pele, e inspirando os sonhos que ela expira. Esta é a que a gente não quer deitar no berço.

Meu bem, meu sangue, minha verdade honesta: suplica para eu não ir embora, para que eu vá aonde tu fores. Onde eu morar, moraremos juntas. Onde eu morrer, mais tarde tu serás enterrada.

Por instinto, e não por vontade, eu continuei viva. Tentei fugir da dor. Não era o espírito, mas apenas um corpo que me levava de um lugar para outro. Via minhas mãos, ouvia as ordens que saíam da minha boca. Evitava os cantos e a imobilidade. Quando tinha de parar para respirar, ficava em lugar aberto, no centro da sala ou no terreiro. As árvores urravam e dançavam, como se em fogo no meio da chuva tempestuosa, mandando-me continuar, continuar. Depois que trouxemos a mesa para fora e nela deitamos a minha filha, não vi nenhum sentido em não trazer o resto também. Tamanho excesso de coisas para uma só família, e agora tudo parecia inútil. Eu carreguei braçadas de tecidos e madeira e metal reunidos nas formas mais estranhas, sem entender como tinha-me sentido confortada por ter aquelas coisas. Eu precisava da verdade e da luz, para me lembrar do riso da minha filha. E tudo aquilo me tolhia. Foi um alívio colocar tudo nas mãos de mulheres que podiam tomar de mim esta carga. Sua necessidade industriosa me deixou mais leve: meus vestidos iam ser cortinas, e minhas cortinas, vestidos. Minha toalha de mesa, fraldas de bebê. Latas vazias de comida se transformariam em lamparinas de óleo de palma, brinquedos, arados _ quem sabe? Meu lar seria passado pelo grande trato digestivo de Kilanga, e se transformaria em coisas nunca vistas. Era um milagre observar a amplificação de meus movimentos simples.

Quando eu dei tudo, as árvores soltaram as línguas de fogo e gritaram sua aprovação.
Meu único objetivo passou a ser o movimento. Quando não havia mais nada a mover, a não ser eu própria, caminhei até o limite da aldeia e continuei andando, seguida por uma multidão de crianças. Nada mais a fazer, apenas me despedir. Sala mbote! Saí a pé porque ainda tinha pés para me carregar.

Posto de forma clara e simples, aquilo foi a origem do nosso êxodo: eu tinha de continuar em movimento. Minha intenção, no início, não era abandonar meu marido. Qualquer um percebia que eu devia ter feito isso muito tempo antes, mas eu nunca soube como. Parece que a mulheres como eu não cabe a obrigação de iniciar e terminar as coisas: a proposta de casamento, a conquista de montanha, o primeiro tiro, nem mesmo o último _ o tratado de Appomattox, a faca no coração. Que os homens escrevam estas histórias. Eu não consigo. Só conheço o terreno próximo em que vivemos nossas vidas. Assoviamos enquanto Roma se incendeia, ou esfregamos o chão, conforme o caso. Mas não se pode ver vergonha na parte que cabe à mulher que toca sua vida. O que você imagina que Mama Mwanza estava fazendo no dia em que um comitê de homens decidiu assassinar o Congo, que mal começava a caminhar? E o dia seguinte, foi diferente? É claro que não. Então ela era uma boba, ou a base da história?

Quando desmorona, um governo desmorona sobre as pessoas que se abrigam sob seu teto. Gente como Mama Mwanza nunca soube da existência daquele teto. Independência é uma palavra difícil de uma língua estranha. Para resistir à ocupação, seja você uma nação, ou apenas uma mulher, é preciso entender a língua do inimigo. Conquista e libertação e democracia e divórcio são palavras que significam basicamente submissão, quando se tem filhos para alimentar e roupas para tirar do varal quando parece que vai chover.

Talvez seja difícil entender por que eu continuei por tanto tempo. Minha história está quase terminada, e ainda sinto os seus olhinhos redondos me examinando lá do alto. Imagino o nome que você vai dar para o meu pecado: cumplicidade? Lealdade? Estupefação? Você sabe a diferença? Meu pecado foi falta de virtude ou de competência? Eu sabia que Roma estava em chamas, mas só tinha água para lavar o chão, e portanto fiz o que era possível. Meus talentos eram diferentes dos das mulheres que hoje rompem com seus homens e vão-se embora _e minhas virtudes provavelmente são irreconhecíveis. Mas, ao ver as mulheres velhas, não se esqueça de que somos de outro país. Nós nos casávamos com esperanças simples: ter o que comer, e filhos que sobrevivessem a nós. Minha vida se resumia a crescer onde fosse plantada, e pagar as dívidas que a vida me impusesse. Ninguém esperava companheirismo e alegria, que vinham geralmente em momentos isolados, quando eu estava longe de meu marido e filhas. O beijo do sol nascente quando estendia a roupa para secar, o suspiro de pássaros azuis que saía da grama. Um ocapi à beira da água. Nunca me ocorreu a idéia de abandonar Nathan por me sentir infeliz, da mesma forma que não ocorreu a Tata Mwanza abandonar a mulher desfigurada, apesar de uma mulher mais forte poder colher mais mandioca e manter vivos mais filhos. Nathan foi uma coisa que aconteceu a nós, tão devastadora quanto o teto em fogo que caiu sobre a família Mwanza: nosso destino estava marcado por fogo e enxofre, mas mesmo assim tínhamos de seguir nosso caminho. E finalmente aconteceu, pela graça do fogo e do enxofre, que eu tivesse de continuar andando, no momento em que ele parou.

Mas gente como ele sempre perde no final, e hoje eu sei por quê. Seja com a mulher ou com o país que dominam, o erro é sempre o mesmo: eles param, e seus domínios se movem sob eles. Diz o Êxodo: O faraó morreu e os filhos de Israel suspiraram por causa de suas correntes. Correntes retinem, os rios correm, os animais se assustam e fogem, as florestas se animam e crescem, bebês saem de boca aberta do útero, sementes novas lançam pescoços curvos que buscam a luz. Nem mesmo a língua pára. Só se domina um território por um momento. Eles apostam tudo naquele momento, posam para fotografias na hora de fincar a bandeira, fazem-se fundir no bronze. Washington cruza o Delaware. A tomada de Okinawa. Sonham desesperados com a permanência.
(...)

Bulungu, final da estação das chuvas 1961

O que trouxemos conosco - Leah Price


Só trouxemos o que conseguimos carregar nas costas.

Mamãe nunca olhou para trás. Não sei o que teria sido de nós se não fosse pelas filhas de Mama Mwanza, que correram atrás de nós e nos deram laranjas e um garrafão de água. Elas sabiam que iríamos ter sede; apesar de a chuva colar nossas blusas às costas e nos esfriar por dentro da pele, voltarmos a ter sede parecia totalmente fora de questão. Ou nunca tínhamos visto chuva como aquela, ou já tínhamos esquecido. Nas poucas horas desde o início da tempestade, a estrada que atravessa nossa aldeia se transformou numa correnteza de lama vermelho-sangue, pulsando como uma artéria. Não conseguíamos caminhar nela, e mal conseguíamos manter o equilíbrio nas margens cobertas de capim. Um dia antes, teríamos dado os dentes em troca de uma boa chuva, e agora eles rangiam de frustração diante daquele dilúvio. Se tivéssemos um barco, parecia possível navegar aquelas ondas até Leopoldville. Isto é o Congo: fome e inundação. Tem chovido sem parar desde aquele dia.

Mais tarde naquele dia, encontramos um buquê colorido mais adiante na mesma estrada, brilhando indistintamente através da chuva. Logo reconhecemos a enorme estrela que atravessa as nádegas de Mama Boanda. Ela, Mama Lo e várias outras se juntavam ao lado da estrada debaixo de folhas de capim elefante, esperando passar um pé d'água particularmente forte naquela tempestade. Elas nos chamaram para o seu abrigo e nós fomos, estupidificadas pela chuva. É difícil acreditar que houvesse na terra água de caráter tão determinado. Estendi a mão e a vi desaparecer na ponta do meu braço. O barulho em nossas cabeças era um urro branco que nos aproximava sob o abrigo de folhas. Deixei minha imaginação derivar para algum lugar agradável enquanto sentia o cheiro misto de amendoim e mandioca que as mamas exalavam. As tranças retas de Mama Boanda deixavam escorrer água, como pequenas mangueiras furadas.

Quando a chuva se reduziu a um simples aguaceiro, continuamos juntas a caminhada. As mulheres levavam na cabeça pacotes de mandioca e de outras coisas embrulhados em folhas, comida para os maridos em Bulungu, disseram. Estava acontecendo lá um grande evento político. Mama Lo também ia vender óleo de palma em Bulungu. Ela ia conversando comigo, equilibrando a enorme lata retangular sobre a cabeça, e aquilo parecia tão confortável que tentei equilibrar o garrafão de plástico na minha própria cabeça. Para grande surpresa minha, descobri que conseguia equilibrá-lo com ajuda de apenas uma das mãos. Durante todo aquele tempo no Congo, eu ficava maravilhada pelas coisas que as mulheres transportavam desta forma, mas nunca havia tentado. Foi uma revelação, descobri que eu sabia carregar minhas coisas como qualquer mulher daqui! Depois de algumas milhas eu já não sentia o peso na cabeça.

Sem homens por perto, todo mundo estava muito alegre. De alguma forma, era contagioso. Rimos da forma tão pouco elegante como afundávamos no barro. De repente as mulheres começaram a cantar diálogos em coro, com chamadas e respostas. Na sua própria língua, elas faziam milagres com "soldados da cruz". Até mesmo o mais triste de todos os lamentos, "ninguém sabe o sofrimento que já vi", soava alegre na garganta daquelas mulheres durante nossa caminhada: "nani oze mpasi zazo! Nani oze mpasi!" Tínhamos visto sofrimentos além do imaginável, mas naquele momento, andando com a água escorrendo da ponta dos cabelos, parecia que estávamos participando de uma grande aventura. Até mesmo a nossa tristeza de família Price parecia pertencer a outro tempo que não precisávamos mais lembrar. Somente uma vez eu percebi que estava olhando em torno, à procura de Ruth May, pensando se ela estava bem aquecida ou se ia precisar de outra camisa. Ruth May já não está conosco! Parecia tão simples. Nós seguíamos pela estrada e ela não estava mais conosco.

Minha mente derivou por muito tempo, até encontrar Anatole. Eu estava carregada de pensamentos que me oprimiam, e precisava desesperadamente contar a ele. Por exemplo, que o interior da boca da cobra mamba verde é azul celeste. E que nós espalhamos cinzas no chão, tal como Daniel, e descobrimos as pegadas de seis dedos, o que eu não tinha contado a ninguém. Talvez Anatole não estivesse seguro em Kilanga, assim como nós não estávamos. Talvez ninguém estivesse, agora que tudo ia virando de cabeça para baixo. Qual o objetivo do evento político em Bulungu? Quem era o homem disfarçado que Adah tinha visto na cabana de Axelroot, rindo com as ordens do Presidente Eisenhower? Será que eles queriam realmente matar Lumumba? Passando pela floresta ouvimos tiros à distância, mas nenhuma das mulheres falou deles, nem nós.

A estrada margeava o Kwilu rio acima. Passei um ano em Kilanga pensando que teríamos de descer o Rio Kwilu para chegar à civilização, pois os barcos que iam para Banningville tomavam aquela direção. Mas quando mamãe resolveu sair da aldeia a pé, ela perguntou aos vizinhos qual o melhor caminho para Leopoldville e todos concordaram que o melhor caminho era rio acima. Disseram que em dois dias chegaríamos a Bulungu. Lá o caminho terminava numa estrada mais larga que seguia para o oeste, por terra, até a capital. As mulheres disseram que sempre havia caminhões. Era até possível que conseguíssemos alguma condução. Mamãe perguntou às mulheres se elas próprias já tinham tomado aquela estrada para Leopoldville, e elas olharam umas para as outras, estranhando a pergunta. Não. A resposta era não, ninguém tinha razões para querer ir até Leopoldville. Mas elas tinham certeza de que nossa viagem seria muito boa.

Na verdade, os sapatos estavam cheios de barro e as roupas enlameadas, e a viagem era tudo, menos agradável. Os mosquitos que tinham ficado nos ovos durante toda a seca eclodiram com a chuva, e subiam do chão da floresta, em nuvens tão espessas que enchiam a boca e as narinas. Aprendi a encolher os lábios e a respirar lentamente através dos dentes para não me sufocar com os mosquitos. Depois de cobrirem nossas mãos e rosto com calombos vermelhos, eles entravam pelas mangas e nos agulhavam as axilas. Nós coçávamos até arrancar a pele. Havia muito mais mosquitos se levantando da estrada, sempre à nossa frente, e estávamos morrendo de medo. Mas, dando um passo depois do outro, percorremos naquele dia uma distância muito maior do que jamais achamos possível percorrer.

Algum tempo depois do anoitecer, chegamos à aldeia de Kiala. Mama Boanda nos convidou a ir à casa onde seu pai e sua mãe viviam com duas filhas solteiras, que pareciam ser 20 anos mais velhas do que Mama Boanda. Não entendemos bem se eram irmãs, tias ou outra coisa. Mas, ufa, como foi bom sair da chuva! Vacas poupadas do matadouro não ficariam mais felizes. Agachamos em volta do caldeirão da família e comemos fufu e verduras nsaki com os dedos. Os velhos pais de Mama Boanda eram idênticos, os dois muito pequenos, carecas e absolutamente desdentados. O tata olhava para fora com indiferença, mas a mama prestava atenção e balançava a cabeça com força, à história interminável que Mama Boanda contava. Descobrimos que era a nossa história, pois ouvimos muitas vezes a palavra nyoka _cobra_ e também a palavra Jesus.

Quando a história terminou, a velha estudou por um longo tempo a minha mãe, que enrolava e desenrolava o pagne azul desbotado sobre o peito chato. Depois de algum tempo ela deu um suspiro, saiu na chuva e voltou um pouco depois com um ovo cozido. Ela ofereceu o ovo para minha mãe e fez um sinal mandando que nós também comêssemos. Mamãe descascou o ovo e nós o dividimos entre nós, levando os pedaços cuidadosamente da mão para a boca, enquanto todos nos observavam como se esperassem resultados imediatos. Não sei se este ovo precioso estava sendo guardado como uma cura especial para a tristeza, ou se ela achou que nós precisávamos de proteínas para nos manter durante aquela triste viagem.

Estávamos todas exaustas. A chuva e o barro haviam transformado cada quilômetro em dez. O lado mais fraco de Adah estava tomado por tremores convulsivos e Rachel parecia em transe. A velha disse à filha que estava com medo de que as visitas morressem na casa dela, o que é considerado como prenúncio de azar. Mas ela não nos expulsou. Com movimentos decididos dos braços finos, ela recolheu gravetos e fez um fogo dentro da casa para nos aquecer. A fumaça tornou a respiração difícil, mas nos deu algum alívio dos mosquitos.
(...)