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FÓRUM BAGUETE (INTERNET)
14/07/2000


A MISÉRIA DA RELIGIÃO E O VENENO DO PRECONCEITO
Horácio Rodrigues


A BÍBLIA ENVENENADA, de Barbara Kingsolver - Ed. Revan - Rio - 2000 é ficção apoiada na realidade do Congo Belga nos anos 50. Um religioso, batista, leva a família, esposa e quatro filhas, para a África com a missão de aumentar o rebanho de fiéis. Família americana do estado da Geórgia conseqüentemente plena de preconceitos raciais. A família usa de todos os meios para carregar toda sorte de alimentos e quinquilharias que julgam necessárias. Levam martelos mas faltam pregos na aldeia, as sementes não germinam, a própria religião exige algumas transformações. Na luta pela adaptação aprendem a caçar, a matar para comer.

"Se você acha que tem a mais pálida idéia daquele horror, está completamente enganado. Ovelhas a caminho do matadouro. Éramos nós ou eram os animais, nem sei de quem tenho mais pena. Foi o pior dia da minha vida. Fiquei no meio daquele campo esturricado com o gosto de cinza na boca, cinza nos olhos, no cabelo, toda suja e enodoada. Parei e rezei a Jesus, se ele estivesse ouvindo, pedindo para voltar para a Geórgia, onde a gente pode ir à lanchonete e pedir um hambúrguer, sem ter de ver os olhos girando nas órbitas nem sangue esguichando do corpo."

A narrativa alterna-se entre mãe e as quatro filhas, permitindo ao leitor uma intimidade com o sofrimento e as tentativas de superação de cada uma. Ao mesmo tempo tanta mudança de narrador torna o romance cansativo e por vezes entediante.

Enquanto as mulheres lutam pela adaptação (sobrevivência) o pastor do alto de seu fanatismo não permite que nada o desvie do seu objetivo de "capturar" novos cristão para o seu rebanho.

Enquanto as mulheres sofrem e se transformam o país prestes a se transformar sem sofrimento conduzido pelo eleito Patrice Lumumba, belgas e americanos conspiram. Lumumba é inteligente demais, exageradamente livre para permitir que os brancos controlassem sua nação. Sua decisão de preferir conselheiros negros desgosta americanos e belgas. Com a interferência da CIA Lumumba é preso, foge e é recapturado, espancado de forma tão brutal que não foi possível entregar o corpo à viúva.

"O que teria acontecido se americanos, e os belgas antes deles, não tivessem sentido o gosto do sangue e dinheiro na África? Se o mundo do homem branco jamais tivesse tocado o Congo?"

"... Se eu não me tivesse casado com um pregador chamado Nathan Price, minhas filhas teriam visto a luz do dia. Atravessei o vale do meu destino e aprendia a amar o que poderia vir a perder..."

A tentativa de tornar o sofrimento sublime, no fim tudo se justifica em prol de um crescimento espiritual, não tira os méritos de Barbara Kingsolver pois seus personagens enfrentam seus medos, desmistificam o pai e pastor. Sobreviver é fundamental. Fica a certeza indiscutível: existem dogmas demais e a elaboração do sentimento é arte.