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RBCS - Revista Brasileira de Ciências Sociais
JUNHO DE 2001


por Celina Souza*


Moniz Bandeira escreveu "O Governo João Goulart" em meados dos anos 70, quando o ex-presidente estava exilado no Uruguai e ameçado de morte pela Ditadura Militar que o havia deposto. Passados quase 30 anos, Bandeira lança uma nova edição de seu livro, enriquecida por documentos secretos que somente vieram a público recentemente, tratando em especial do apoio dos EUA ao golpe de 1964.

Bandeira é cientista político, professor aposentado da Universidade de Brasília e atualmente leciona na Alemanha. Durante o governo Goulart, era jornalista e ativista da Polop, movimento socialista. Acompanhou de perto muitos dos episódios que narra no livro, tornando-se inclusive amigo do ex-presidente e de outros líderes de esquerda, como Leonel Brizola.

"O Governo João Goulart" trata dos principais acontecimentos do período, com destaque para as lutas em torno das reformas de base (como a reforma agrária), o acirramento dos conflitos entre direita e esquerda (inclusive com a preparação de guerrilhas pelas Ligas Camponesas e por grupos ligados a Brizola) e o enfrentamento entre Brasil e EUA na política externa, com os governos brasileiro e mexicano impedindo que os americanos invadissem Cuba.

Bandeira apresenta um retrato favorável ao presidente Goulart, mostrando-o como um homem preocupado com o povo brasileiro e comprometido com as questões sociais. Também destaca o papel do partido do presidente, o PTB, que teve grande importância na defesa dos interesses populares. O autor critica, no entanto, a estrutura sindical que dava apoio a Goulart, afirmando que ela era baseada em cúpulas de dirigentes e que não tinha penetração popular.

Os capítulos referentes à participação dos EUA no golpe militar mostram que a ajuda americana foi decisiva. Bandeira apresenta documentos que comprovam o fornecimento de armas, suprimentos, apoio diplomático e logístico do presidente Lyndon Johnson aos golpistas brasileiros.

Analisando os militares, Bandeira afirma que a cúpula legalista das Forças Armadas perdeu o controle sobre os oficiais intermediários, que se deixaram convencer pela ideologia do anticomunismo e acreditavam que Goulart levava o Brasil no rumo de Cuba. Quebrando o mito de que o presidente não quis resistir ao golpe, o autor defende que Goulart tentou de vários modos - em Brasília, Rio de Janeiro e Porto Alegre - mas simplesmente não encontrou tropas leais para executar suas ordens.

A dicussão sobre o governo Goulart é de extrema importância para a jovem democracia brasileira, na medida em que as reformas de base pretendidas pelo ex-presidente continuam a ser necessárias e os graves problemas sociais do país permanecem sem solução.

* Celina Souza é professora da UFBA e pesquisadora visitante do Departamento de Ciência Política da USP