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Grande escritora identificada

Ênio Silveira



A pessoa cuja identidade legal, precisa, verdadeira, se ocultava atrás do pseudônimo da Silva, com o qual concorria ao primeiro prêmio Rio de Literatura, instituído pela Fundação Rio e a Editora Philobiblion, foi progressivamente ultrapassando todos os demais candidatos e por fim se revelou merecedora de aprovação e escolha definitiva por unanimidade de votos de oito jurados. A autora de Manual de Tapeçaria, que então se descobriu ser Nilma Gonçalves Lacerda, não era sequer conhecida por qualquer um deles, e seu nome não ecoava a menor recordação de presença ativa no mundo das letras.

Por isso mesmo, a comissão julgadora se sentiu orgulhosa e satisfeita por ter chegado a consenso espontâneo naquele que vinha de ser um dos mais limpos, dignos e isentos concursos literários já realizados no Brasil. Todos os seus integrantes se comoveram diante da descoberta de um talento invulgar, de uma indiscutível vocação para a criação ficcional. Tendo-se candidatado dentro de normas rígidas, rigidamente observadas, seu livro fora confrontado com mais de 1 centena de outros e merecera o primeiro lugar sem qualquer favor ou concessão de natureza subalterna.

Nilma Gonçalves Lacerda comprovou ser, efetivamente, uma escritora amplamente senhora das artes et partes da carreira que abraçava, a partir desse romance que lhe assegurava auspicioso futuro. Membro daquela comissão e exercendo há várias décadas a sua profissão de editor, este articulista bem se dá conta como é rara e gratificante, seja qual for a finalidade da leitura, a revelação de um verdadeiro escritor, como ocorreu no caso da autora de Manual de Tapeçaria.

Escreve-se muito, e freqüentemente mal, nos atribulados dias que estamos vivendo. Oscilando entre o regionalismo neo-realista, que nas décadas de 30 e 40 já deu quase tudo o que tinha para oferecer, e a literatura urbana, autodefinida como de fundo social, mas antes populista e às vezes demagógica, ou dominados por conceituações psicanalíticas reveladoras de muita tresleitura de Freud, nossos ficcionistas vêm produzindo grande número de obras onde a preocupação formal, estilística (ah, o eterno desejo de estar à la mode de Paris, Londres e New York), apenas marcara triste ausência de conteúdo humanista e desconfortável algidez.

Manual de Tapeçaria, que é um livro pessoal e muito bem escrito sem ser rebuscado, contemporâneo sem ser modernoso, revela antes de tudo a grande sensibilidade que Nilma Gonçalves Lacerda tem do mestiere di vivere, a que Cesare Pavese se referia como o leitmotiv de sua criação literária. Não sendo d'après, nem à la manière de qualquer outro autor, seu romance nos transmite pungente relato sociológico e antropológico de um determinado momento histórico brasileiro (e concomitantemente universal), em que as frustrações são mais fortes e autênticas do que as brilhantes utopias políticas com que nos acenam de todos os quadrantes, pois que originárias da injustiça e de prepotência inerentes à filosofias de vida norteadas antes pelo ter do que pelo ser.

Torna-se evidente, ao progredir a leitura de Manual de Tapeçaria, que a romancista não escreveu o livro como simples exercício de redação literária, nem para realizar recôndito anseio de afirmação pessoal. Séria, grave, dolorosamente, ela se dispôs a fazer - e por certo conseguiu - uma rigorosa catarse através da qual se libertasse de suas angústias diante de um mundo cada vez mais cruel e insensível, grossamente materialista e desapiedado das fraquezas humanas; um corajoso exposé de sua condição de mulher num mundo dominado pelos homens e no qual eles, os homens, são por sua vez predominantemente contidos por temores, ambições e preconceitos que apenas lhes realçam a natureza animal: uma declaração de inconformismo e tristeza.

Por tudo isso, tanto Nilma Gonçalves Lacerda quanto seu livro merecem (melhor seria dizer requerem) várias e simultâneas leituras. A autora, por ser uma voz calorosa a exortar-nos à busca de um mundo melhor, uma escritora conseqüente que se vale de seus dons literários para se dirigir ao que de melhor tenhamos dentro de nós mesmos como pessoas que se desejem livres para o melhor arbítrio nas encruzilhadas da existência; seu livro, por ser uma obra de grande conteúdo social, humano e literário: "Ato de amor e muito mais do que isso... é, ademais, uma grande obra de arte - a mais bela das artes, a que tem as duas águas, a água da fonte da vida e a água da fonte de beleza, que neste caso é o espantoso domínio de uma língua para exprimir o inefável..." - como muito apropriadamente o classifica mestre Antônio Houaiss, igualmente membro da Comissão Julgadora que outorgou o prêmio.

Cabe tecer agora, finalmente, alguns comentários suscitados por esta releitura tão gratificante e proveitosa para mim quanto o romance, sem saber ainda quem o havia escrito: causa-me grande pena constatar que o grande desenvolvimento quantitativo da atividade editorial brasileira se veja tolhido ainda por lastimáveis limitações no plano cultural, como, por exemplo, a inexistência de confiável e substanciosa crítica literária (como a que tivemos há algumas décadas, quando refulgiam nos rodapés dos grandes jornais os nomes de Tristão de Ataíde, Álvaro Lins, Sérgio Milliet - para citar apenas três gigantes) que chame a atenção dos leitores para os genuínos talentos que surjam no mundo das letras e das idéias; a posição genuflexa que editores e cronistas literários mantêm diante de autores estrangeiros, inclusive, em certos casos, dos que não ultrapassam a condição de fabricantes de best-sellers, sem maior relevância do que a digestibilidade do que escrevem; a falta de apoio que a imprensa e os livreiros de um modo geral costumam dar a autores brasileiros, sobretudo àqueles que ainda não tenham alcançado nomeada.

Tais obstáculos dificultam que autores da verdadeira relevância de uma Nilma Gonçalves Lacerda cheguem mais depressa à notoriedade mercadológica, por mais que a mereçam. Mas o que ela não conseguiu de imediato par droit de naissance literário, seguramente conseguirá par droit de conquête. A aprovação unânime de oito exigentes jurados, cada qual com seus critérios próprios de aferição de valores, não mereceu ainda o devido registro de distraídos noticiaristas, mas o velho ditado afirma com sabedoria que o que é bom sempre aparece...

Manual de Tapeçaria e sua extraordinária autora serão em breve descobertos e reconhecidos amplamente. Enquanto isso não ocorrer, Nilma Gonçalves Lacerda terá todo direito de se sentir injustiçada, mas será o Brasil que perderá substância.


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Jornal de Letras. Rio de Janeiro. Dir. de Elysio Condé. Nov. 1986, no 420.