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caminhos tenho vários: pego a agulha e fio fio, motivo a motivo, armo a trama: ou pego o tapete e desteço: ou planto a hera e espero, seguindo a sua posse: ou vou à parede, seguir geografia de hera e
Ponto em cadeia:
Cadeia: pode ser corrente de anéis ou de elos de metal. Pode ser: grilhão. Ainda: casa de detenção, calabouço, cárcere, cubículo; gaiola, prisão; xadrez. Pode mesmo ser um conjunto de fatos ou fenômenos que ocorrem sucessivamente: uma cadeia de explosões. Será, afinal, uma série ininterrupta de objetos semelhantes?
É importante começar com parágrafo: porque assim as pessoas devidamente escolarizadas e que possuem conceitos completos e ordenados no percurso de cada coisa localizam-se logo no escaninho de idéias: parágrafo: marca o início da exposição de uma idéia.
Que início dar, Jomar, por exemplo, a isso tudo? Os fios estão e não estão na minha mão, vêm e vão, fogem, refulgem, retornam e refogem. E eu não sei bem manejar agulhas. As tapeçarias, os bordados disso necessitam, não? Mas só sei mesmo é de coisas vividas, observadas, pressentidas, possíveis e sensíveis. Se constato tanto, adivinho mais. Terrível, portanto, o início: já encerra em si o fim e caminhar de um ponto a outro é destecer o tapete ou o casaco e, da massa de fios tecidos, da história contada nos pontos em cuidados contados, encontrar o motivo primeiro - o nó.
(Isso, porém, se virmos a história pelo avesso. Compensa mais o quê? Ah, os panos indecifráveis, direito e avesso numa só face.)
Eram comuns os panos que me vestiam, a roupa incolor e uniforme de humano ser recém-lançado à vida. Incontáveis trajetos da escola à casa. Os espaços crescem impensados.
(O início: foi esse, Jomar? Haverá início determinado? Fim? Não sabemos ou sequer importa. Vale o nó. Preste atenção, Jomar, é o que procuramos.)
Anos de estudo, a qualificação. Apta a:
encontrar quarenta, cinqüenta alunos assustados quem como será a nova professora? boa bonita de coração que se abre e chega? a sala exígua, raro, raro limpa, equipamento: zero menos dois = giz e quadro-negro, giz duro, riscante de vias que não se querem traçar, quadro com depressões, mossas, furos, buracos, mesas/cadeiras quebradas, marcadas a gilete/canivete: merda puta eu amo o júlio, o júlio ama a piranha da vera, júlio ama a piranha da vera, vera ama júlio, porra, 3x7=21, 3x8=24, 3x9=27, 3x10=30, mas a tabuada não começa no 3x1=3 e o 3x0=0, inimaginável ensinar, fácil de compreender: zero é constante na vida deles, multiplicar por zero não é impossível de entender, impossível é entender multiplicar, então a professora, sempre novo ser bicando o ovo, vai e descobre: multiplicar não, dividir é muito mais fácil, fazem sempre, é o mais que da vida recebem. Na soma das aptidões que lhe conferiram: encontrar e decifrar a figura da diretora, arqui-mater priora de convento, abadessa, legisladora, dona da casa, onde você, intrusa passageira, recebeu asilo e pouso. Então, às vezes, se há sorte e o fado lhe é leve, essa figura pode ser tratável: amiga humana, humana amiga: o mais provável no irreconciliável do desconcerto é você beijar o chão, rezar a Ave-Maria e a Salve-Rainha em todas as variações possíveis, brincar de farei tudo o que seu mestre mandar, baixar a cabeça, porque o berro e o castigo foram injustos, foram injustos foram injustos, mas o garoto é uma peste, retardado mental, oito anos na primeira série e não sai daí, não aprende nada essa droga desse marmanjo e ainda respondeu à outra professora e cuspiu no chão e disse da diretora: bruxa, velha coroca, e aí então: gabinete de costas para a parede duas horas aí em pé sem falar nada não merenda e vou chamar tua mãe: que mãe? cala a boca, sem-vergonha, semente do diabo, sou a diretora DIRETORA entendeu? Viu, menina, se quiser ter moral é assim que se faz e aprende logo que eu não estou aqui para ensinar a vida inteira e vocês assim novinhas têm mania de entender e compreender e não castigar aprenda logo que não dá certo depois esses diabos capetas vêm pra cá aporrinhar, quer dizer, aborrecer a gente.
- Aprendeu, menina?
Aprendi a ensinar a ler, escrever, contar, fazer as quatro operações, distinguir mamíferos de aves e répteis de batráquios e a saber os rios e serras e estados e capitais e regiões do Brasil. Aprendi noções de psicologia e biologia que, se bem refletidas, poderiam constituir-se algum legado. Aprendi que consciência é problema meu e o Brasil depende de mim, porque eu ensino as novas gerações a saber que 7 de setembro é o Dia da Independência do Brasil, que há grande parada militar, que foi D. Pedro que proclamou a Independência, às margens do riacho Ipiranga, em São Paulo, proferindo o imortal grito:
- "Independência ou morte!"
E que arrancou do chapéu as fitas que tinham as cores de Portugal e pronto: estávamos livres do Grande Pai.
Ainda muito importante foi saber que a libertação dos escravos se deu a 13 de maio de 1888, através da Lei Áurea, assinada pela Princesa Isabel, uma alma boníssima. E que ambos os feitos encontram-se devidamente documentados; há um magnífico quadro de Pedro Américo, insigne pintor do século passado, sobre o heróico ato de D. Pedro, que passa, então, a ser D. Pedro I. A pena que assinou a lei de ouro deve andar aí pelos museus da pátria.
Assim, se eu quiser provar a veracidade de tais fatos aos meus incrédulos alunos é só levá-los a museus, onde encontrarão a memória nacional (escrevo com maiúsculas?)
Ponto de cruz:
A mulher, hábil em negócios de mãos, enfiou a agulha numa casa, traspassou a armadura de entretela, varando o ar num outro espaço. Deu um nó para ter segurança do que ficava amarrado, subiu por outra casa, em diagonal, desceu. Marcara na tela um \. Buscou a ponta correspondente, enfiou metal e linha, saíram linha e metal do outro lado, que abraçaram a ponte que urgia completar. Rutilante, vinho derramado numa tela bege: X. O ponto de cruz.
A outra aprendizagem imprevista nos manuais didáticos, contínua e não-gradual, abre veios na sensibilidade e na memória. A carência. Captada em foto dos quarenta, quarenta e dois, quarenta e oito rostos. Copyright garantidos para a terra brasileira, nos subúrbios do Rio nos vários vários vários todos os recantos da terra tão fértil e valorosa a qual: "Em se plantando, nela tudo dá."
Na perplexidade, busco:
1. o que plantaram?
2. o que deu?
A carência, falta de. Tudo. O rosto estendido para o beijo, a pele disposta ao afago, a cabeça aberta a martelo para.
Descubro então que, prendendo a respiração, consigo agüentar o mau cheiro e que também é valiosa a ajuda fornecida por um leve fechar de olhos - a sujeira arde na vista. Finalmente, descubro que piolhos se matam rápida e eficientemente com Pluritrat. Revelou-se esta uma valiosa aquisição de conhecimento, pois que, tão logo houve reunião de pais, pude avisar às cinco mães presentes não ser necessário intoxicar os filhos com Neocid em pó ou, ainda, queimar-lhes o couro cabeludo com querosene, quando havia epidemia na escola e só entrava quem as serventes, após minuciosa inspeção, considerasse apto: nem piolhos, nem lêndeas.
Realmente isso foi de muita vantagem.
Já os ruídos foram mais demorado percurso. Eles me incomodavam realmente, concreta perturbação da ordem. Impediam a exatidão da lição, o silêncio da leitura silenciosa, a correta audição das palavras do ditado, a sacralidade de uma atmosfera adequada e conveniente à hora dos problemas. Se Pedro ganhou 12 bolinhas no jogo de gude e depois perdeu 5, com quantas bolas ficou Pedro? Claro, não é preciso dizer se Pedro possuía ou não outras bolas antes de ganhar as doze, pois eu e todos - só queremos saber se os alunos sabem pensar isso: doze menos cinco igual a sete. E saber responder um problema assim pode ser toda a diferença entre passar ou não de ano; ir para a segunda série, ou ficar oito anos na 1a série. Se é ensinado a ele - e ele aprende - 12 - 5=7 e que mala se escreve mala, avião avião, a vovó viu o vovô, a Eva viu a uva, Ivo vê o ovo, se ele souber isso e algumas outras coisas ser-lhe-á aposto o selo da aprovação. Selado e empacotado ele
Por isso, o incômodo dos barulhos. Era premente que todos aprendessem para que muitos deixassem de estar pela quinta, sexta, oitava vez na primeira série. Além disso, soberana a advertência: tantos por cento reprovados, incompetência da professora. O que podia dizer muito ou nada. Conforme.
Mas não eram barulhos identificáveis, como risos, ou sussurros, bater de lápis ou de pés, riscar de superfície. Soturnos, pareciam vir de entranhas, cavernas em mistério. Manifestavam-se, sobretudo, a menina quando de costas para o quadro. O medo de descobrir o responsável e ser levada a puni-lo deixou-a em jogos de enganos por um tempo: muito. O cediço do terreno servia ao recuo nas investigações. A solidão no noviciado - ou a cumplicidade dos iniciados - bordava ilhas de suspeitas suposições terrores sobrenaturais.
Na sensibilidade nova, recém-desenhada sobre a pele e o coração, agastava-se a mocinha, incapaz de resolução. Urge, contudo, a decisão drástica, na imposição da disciplina que não pode mais tardar:
SE NÃO PARAM OS BARULHOS HOJE, A TURMA TODA FICA SEM RECREIO.
À turma, durante muitos dias, faltou o recreio. O que não dissolveu os ruídos que, freqüentando o hábito de viver, instalavam-se na sala, ao lado da moça desprotegida, ao alcance mesmo de sua mão.
Ao ouvir qualquer coisa entre as colegas, a passagem rápida no corredor, descobriu, de relance, não precisar mais daqueles óculos. Abandonou-os no ônibus, vomitou a tarde inteira e retorceu-se toda, as dores advindas do ver.
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