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TRIBUNA DA IMPRENSA
ESTANTE
17/10/2001


O ALVOROÇO DE UM LIVRO
Antônio Olinto

Está a narrativa em prosa, por força de seu compromisso com o acontecimento, ligada a uma corrente realista ou pelo menos semi-realista, mesmo quando o autor busca uma linguagem nova e uma abordagem literária mais pessoal. Como parte da narração de tempos muito velhos, que remontam aos dias em que vivíamos em cavernas, o narrador contava as novidades acontecidas naquele dia, o rio que descobrira além daquela montanha maior, os seres estranhos que vira dentro d'água, num realismo que também exagerava nos traços.

Tudo era contado com sons e gestos. Quando apareceu a escrita, foi esse realismo preservado, com os naturais vocativos dirigidos a forças superiores. A arte de narrar não mudou tanto depois disso. Manteve seu apego a uma realidade, imitou-a, devorou-a, absorveu-a. Tanto haja sido uma realidade inventada ou uma realidade acontecida, ela é sempre uma realidade posta em palavras.

Contudo, real ou fictícia, impõe a realidade escrita - portanto, reconhecida - uma posição ética, um julgamento. Para começar, um julgamento de nós mesmos. E a primeira pergunta é esta: somos culpados? Somos culpados pelos nossos erros? Ou atribuímo-los sempre a forças externas, ao tempo, à chuva, às circunstâncias do momento, ao "outro": Como diria Cioran, somos também "culpados de existir", cada um de nós sofre da "inconveniência de haver nascido".

Costuma o bom romance levantar caminhos e iluminar a sombra? Lembro-me das palavras que me disse Graham Greene em Londres: "Tudo é possível na ficção. É por isso mesmo que seu plano é fictício. Pode um homem acreditar no céu e no inferno para Scobie, meu personagem em `O coração da matéria', mas Scobie deve ter força suficiente para dar consciência ao seu céu e ao seu inferno. Além disto, pode o romancista deixar uma grande margem aberta à graça, ao perdão ou à simples possibilidade de que a misericórdia elimine, do ponto de vista do romance, o castigo eterno."

Retomo estas palavras antigas por causa de um livro excepcional (romance?, poema?, ensaio?), lançado em 1985, mas que só leio agora em sua segunda edição revista pela autora. Trata-se de "Manual de tapeçaria", de Nilma Gonçalves Lacerda. Que bela, instigante e bem-realizada obra feita de palavras!

Nilma Gonçalves Lacerda pega nelas, as palavras, amolda-as, limpa-as, mistura-as, tira-lhes pedaços, acrescenta-lhes farpas, torna-as pejadas de significados, transforma-as em números, em traços, em pontos de interrogação e de exclamação, em sinais de mais ou de menos, com orações que às vezes são orações mesmo, com incursões no plano da tapeçaria, do tecido que é ao mesmo tempo tecedura e tessitura, coisa tecida e coisa musicada, costura visível e costura invisível, boa cerzidura, talvez até fervedura, com as palavras criando retalhos e espelhos, sendo a face que reflete o próprio olhar do leitor.

Veja-se a prosa renovadora deste trecho que imita, devora e absorve a realidade narrada: "Há tramas. Elas carreiam compromisso: o momento, o símbolo? O fogo que arde, consome ou: a água que lava, escorre? As palavras na renda? A rede do documento? O jogo de bilboquê? Como tapeceira de mil anos, reconheço: tapetes requerem tempo. O tempo é de temer?

O tempo é para testar?/ O tempo confere à trama o vigor exato de que carece. Não odeie a pátina que enferruja, dilui. O tempo não se vence: quando muito se lhe retoca o verniz./ O tapete ganha vernizes: a trama dos fios, destinada a aquecer, não aceita desperdício; as linhas trançadas narram o homem em seu périplo./ Do chão ao claro das paredes, adorno, estampa, espelho. Nos fios, na trança, a solução do enigma. Sabendo que isto de tapete não é um ato inocente."

Nenhum ato é inocente, repito, apoiando a autora. Nenhuma palavra é inócua. O uso da palavra é um compromisso para sempre, há que se mergulhar na morada eterna do ser. É com expressões assim formatadas que um livro como o de Nilda Lacerda, "Manual de tapeçaria", nos obriga a falar dele. São muitos os perigos desta vida, já dizia o poeta, e é com eles que a escritora (romancista?, poeta?, ensaísta?) lida e, ao fazê-lo, rebusca, reúne e relembra toda uma tradição brasileira e ocidental, com santinhos, o jesuzinho de todos os altares, paralíticos, padiolas, rezas, milagreiros, tudo junto com o ponto de cruz que é de realidade nunca sonhada, "pois copia os movimentos da vida."

Versos e pinturas se espalham pelas páginas do livro, numa totalização de um tempo e de um espaço, numa libertação das amarras dos gêneros literários e dos hábitos que nos obrigam a fazer isto ou aquilo, a criar personagens deste ou daquele jeito.

O que a autora de "Manual de tapeçaria" faz é romper com as estruturas meramente literárias, que podem amordaçar o ímpeto de criação, com isso conquistando o alvoroço das coisas vivas, num desvairado acúmulo de palavras, em busca de certezas. Como toda obra feita em espírito de verdade, "Manual de tapeçaria" promove a junção destas duas características: insatisfação e denodo. Consegue, assim, implantar um caminho novo em nossa literatura.

"Manual de tapeçaria", de Nilma Gonçalves Lacerda, é uma apresentação da Editora Revan. A capa (arte final de Cristina Rebello) foi concebida sobre bordados de Antonia Zulma Diniz, Ângela, Marilu, Martha e Sávia Dumont e fotografada por Rui Faquini. "Orelha" de Antônio Houaiss e posfácio de Ênio Silveira.

Antonio Olinto é escritor e membro da Academia Brasileira de Letras.