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O número



Quando nasci, me chamaram José. Não lembro mais esse nome porque com um ano de idade passaram a me chamar Joaquim. Cheguei a me acostumar com esse segundo nome mas ao trocarem por Antônio senti algo estranho. Fiquei triste mesmo quando apareceu Eduardo aos três anos e meio. Eu não era Eduardo mas Antônio. Não podiam fazer isso comigo. Fiquei doente, febre de raiva, raiva de menino. Fui esquecendo, me acostumando. Até aos sete anos fui Eduardo. Todos me chamavam assim. Minha mãe gritava Eduardo e não qualquer nome quando me queria junto a ela. Mas aos sete anos todos começaram a me chamar por Alfredo. Logo de manhã cedo meu pai foi à minha cama e me acordou com um rápido e decisivo - Alfredo!

Estava meio acordado àquela hora. Não quis acreditar. Mas fiquei calado, sem reclamar.

Um amigo de quem gostava, de repente não era mais ele. Exigia que o chamassem pelo nome verdadeiro: o novo. Ninguém tinha um nome fixo e contestar causava espanto. Ninguém explicou por que aquilo acontecia. De um dia para outro não existia mais o antigo nome em canto nenhum. Todos misteriosamente conheciam o novo nome, até as crianças não titubeavam.

Veio o sexto nome aos onze anos: Matilde. Enlouqueci! Era demais! Gritei, esperneei, quis matar. Arregalaram os olhos como se eu fosse o louco. Apanhei do meu pai, quase fui para o hospital tão quebrado fiquei. A família, envergonhada, me escondeu. Reunidos, quiseram me ouvir mas não havia o que dizer. Pediram que esquecesse essa loucura desnecessária e perigosa. Fiz o que me pediram.

Ainda era Matilde aos quinze anos quando fui falar com minha mãe e a chamei de mamãe. Além de mudar de nome várias vezes ela agora não era mais a minha mãe, mas meu pai. Apenas chorei, olhando seus olhos bondosos e claros. Era terrível, ninguém ligava, ninguém entendia minha situação. Não queriam saber. Fiquei com dois pais e todos os dois com o mesmo nome: Teobaldo. Mataram minha pobre mãe: depois disso para mim ela nunca mais foi a mesma.

Aos dezessete anos fui Pedro, Eliezer, César e Mário. Fiquei mais calmo: pelo menos esqueceram Matilde. Depois passei oito anos sendo Alexandre. Gostei! Nome bonito. Ficou o tempo necessário para aprender a amá-lo, a querê-lo bem como nome definitivo. Não permitiria mais ser chamado de outro jeito. Fincaria pé, os outros que se danassem.

No dia do meu aniversário, reunidos os amigos, todos felizes, eu rindo como se fosse pela primeira vez na vida. Veio o bolo: meu nome escrito em chocolate: Humberto. O riso desapareceu de repente, um gosto amargo inundou-me a boca, quis somente morrer. Os amigos e parentes continuavam rindo, senti o sangue ferver. Disseram depois que quebrei tudo, feri muitas pessoas e que duas delas morreram. Quando acordei de mim estava preso, julgado e condenado há trinta e cinco anos de prisão.

Aqui no presídio todos me chamam Cinqüenta-e-Sete. Há trinta anos sou Cinqüenta-e-Sete. Tenho apenas um medo: que ainda viva o bastante e seja solto. Não quero deixar nunca mais de ser Cinqüenta-e-Sete. Sou feliz: o homem mais feliz do mundo.