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O velho
Éramos dois velhos sem ter o quê fazer.
Nos encontrávamos na praça.
Sempre me atrasei.
Se bem que nas vezes que pensei chegar cedo ele já estivesse me esperando, as pernas aquecidas pelo cobertor, agüentando a brisa da tarde e o frio da noite.
Corria para casa e me punha a reviver as vidas da memória.
Ele sempre ficava na praça, emburrado sem querer sair.
Terminei não insistindo mais.
Conversávamos horas sem fim, como se não houvesse história ou aventura que não pudéssemos inventar.
Ele conversava mas nunca se movia.
Talvez sentisse dor se se movesse demais, mas conversava e éramos alegres.
Estava sempre no banco da praça.
Passei a chegar em outras horas que não aquelas que marcávamos e ele estava sentado no lugar de sempre.
Me recebia sem mover a cabeça, aberto em sorriso e amizade.
Jamais apertamos as mãos e não conhecia movimento que não fosse dos olhos e da boca.
Devia ser doente. Cheio de achaques e bem piores que a minha velhice.
Fiquei envergonhado de perguntar o porquê daquela imobilidade.
Ele me fez companhia quando a solidão era terrível.
A morte fica mais companheira e alguns velhos como eu encontram um certo conforto em narrar infortúnios.
Mas decidido a não ter dúvida sentei ao seu lado e fiz a pergunta.
Ele ainda sorriu mas não brilhavam mais seus olhos e as palavras ciciavam sem sentido como se fossem uma cobra morrendo.
Levantei e o olhei.
Não estava diferente de todos os outros dias mas os poucos movimentos que conseguia fazer não mais os fazia.
O sorriso permaneceu fixo como se talhado em pedra.
Lembrei que ao começar nossa amizade ainda mexia os braços e a cabeça era viva e alegre.
Com o tempo é que foi se imobilizando ficando somente por muitos meses a cabeça a se mexer.
Aquele sorriso estampado para sempre havia sido o último movimento do meu amigo que com certeza ainda tentou explicar mas até as palavras e todo ele era agora um bloco de mármore velho e amigo.
Por isso ainda venho aqui e fico conversando.
Talvez ele ainda possa me ouvir.