[retornar]

O ESTADÃO DO NORTE
09/12/2001 - domingo


TODAS AS VOZES
Carlos Moreira*

"E o princípio do seu reino veio a ser Babel."


O Senhor é capaz de infinitas maldades. Há uma versão, hoje apócrifa, do livro do Gênese, que diz que, ao confundir a língua dos construtores de Babel, para que eles desistissem do sonho, Deus não os teria espalhado pela face da terra, mas os amaldiçoado com a imortalidade e os emparedado vivos, cada um no seu devido lugar, como uma abelha rainha que vedasse cada losango da infinita colméia. E lá ficaram eles, dizendo cada um a sua língua, pela eternidade. Reza o texto que alguns homens, ao se depararem com a Torre de aparente silêncio, seriam capazes da finura possível, da infinita delicadeza e horror, de ouvir, através do tempo e da argamassa, fragmentos de discursos das infinitas vozes e que, mesmo não sendo capazes de traduzi-las, poderiam repetir partes de cada monstruosidade dita por aqueles demônios que um dia sonharam ascender a anjos, mesmo que contra a vontade do fazedor de anjos e demônios. E que, mesmo partindo da imensa treva, algo atingiria a luz.

O que esta alegoria não esclarece é o resultado dessa audição, o monstro de palavras gerado por essa escuta subterrânea, ela mesma uma monstruosidade. Que tipo de narrativa abarcaria um dizer tão múltiplo e incomum, uma carga tão grande de imagens que ultrapassaria, provavelmente, as encontradas em boa parte dos textos? O que Alberto Lins Caldas alcança com Babel (contos, Editora Revan, Rio de Janeiro, 2001), é exatamente isso: um salto para o interior de um código de imagens e vozes narrativas como nunca antes visto em livro algum. O turbilhão conseqüente é uma síntese do supra-sumo da literatura: só um leitor-ideal (e, portanto, virtual) seria capaz de detectar todo o contato com outros textos e vozes, a cada linha, a cada página, a cada conto. O resultado assusta não apenas pela erudição (normalmente sinônimo de chatice), mas pela força e exasperação de um livro feito de outros livros, um imenso palimpsesto em si mesmo autônomo, mas urdido de outros dizeres, de outros olhares. O próprio termo "babel" auxilia nessa compreensão, sendo definido como "confusão, mistura de línguas, algazarra, tumulto, reunião de elementos, cumplicidade". Se o conceito dá a idéia de caos, assusta a simetria clássica da parte (cada conto) e do todo (o Livro de livros), como se de fato o símbolo que melhor representasse o conjunto fosse a Torre apontando contra o céu, esquinas e escadas e varandas e portais e janelas em um milhão de ângulos perfeitamente ajustados. Há uma condensação da forma raramente vista nos últimos duzentos anos de escrita (talvez os últimos a conter demônios tão bem tenham sido os autores do Fausto).

Essa obsessão pela multiplicidade angustiante de imagens, apelidada de Surrealismo e/ou Expressionismo no século XX, pode dar a impressão de ser o texto mais um caleidoscópio do inconsciente, uma espécie de escrita automática antiteticamente corrigida à exaustão. Uma leitura média um pouco mais apressada pode querer ver marcas de influência onde há só confluência rara. Não adianta dizer que "lembra" um Kafka metamorfosiano, um Borges da biblioteca da mesma babel, um Lautréamont dos cantos ou mesmo o fantástico e pouco lido Murilo Rubião. Não adianta. Babel se faz de elementos também estes, mas está além, ou aquém, olhando por trás da nuca das narrativas desses autores, concebendo algo que eles não puderam conceber. Ou seja: Babel é amaldiçoadamente Pós-Moderno.

A obra só se entrega na última página, o que remete de volta ao início do enigma. O último conto, "Criador", é a chave de compreensão das ficções que, na verdade, fracassam no intento original de compor O Livro: "Aquilo não era um Livro, mas um monstro: nascera de outros livros, da sua vida mais íntima e da cruel memória do mundo". Mas saber disso antes de enfrentar os corredores e as vozes não adianta: o espanto é o mesmo. Babel é um questionamento sobre a própria literatura, mas sem cair na já quase estafada obsessão pela metalinguagem, outra marca pós-moderna (como se a literatura não pudesse falar de mais nada exceto de si mesma). Porque se o Livro nasce de livros, cada conto é autônomo. A pergunta matriz só é suscitada no final: como dizer o não dito? Se, como diz o narrador do conto "Sombra e Escuridão", "se por um Deus, um Demônio, por má formação de caráter ou por simples necessidade lógica, não importa porque na origem e no fim tudo se parece", como ainda ter a ilusão de ser original em nossos tempos? Mas ao mesmo tempo que suscita a angústia definida por Harold Bloom como "da Influência", Babel é a melhor resposta que se poderia dar, exatamente porque é um haver-se de altíssima competência com os maiores índices, símbolos e alegorias da cultura "ocidental" e além, uma espécie de "zerar o jogo", em que o resultado é um Frankenstein verbal que, ainda que dotado de coração e cérebro e impecável estética, sabe-se um monstro. Aos autores de agora restaria então o recomeço, a busca de outros caminhos e outros símbolos, de outros modos de contar em que as antigas imagens e estilos e gêneros não poderiam mais influir. Babel é o enfrentamento e a libertação, e é irônico que tenha nascido "no Brasil" de uma "língua portuguesa", como querem os donatários do Cânone. Prova de que a literatura se faz em um não-lugar e o que quer que venha a dizer pode ser dito em qualquer língua. "Babel" é morte e alforria. Agora é só começar. Ou aceitar a tragédia imposta pela academia e pela visão beatificante, reacionária e bíblica de que "tudo está dito".

Para os que não estão preocupados com conceitos e debates literários, nem por isso a ficção de Babel perde sua força. A multiplicidade das imagens, o incomum dos desfechos, a força de cada conto, o humor, a ironia, o asco são ingredientes da exasperação. Porque literatura é antes de tudo a criação de um holograma: o verdadeiro texto é pessoal, incomunicável, e está além do texto, como se a página e sua "mensagem" fossem apenas modos de conectar a visão do leitor com o extratexto. Algo próximo da técnica do "olho mágico" em que o visto é rito de passagem para o que se verá. E o que se vê em Babel é um bestiário único: dragões, tigres, condenados, velhas crianças, poetas, cegos, astrônomos, astrônomos cegos, anjos, plantas, todo o orbe divino e imundo dessa nossa quarta dimensão. A sensação desse mundo por trás das imagens é que é literatura.

O fluxo que atravessamos na leitura é um fluxo de vozes que se intercambiam, cada uma um universo contendo outros tantos, a dança do macro-micro se devorando mutuamente (aliás, uma das imagens mais reincidentes é a da devoração, ao lado do labirinto, dos monstros, da arte, do livro e do tempo). Em Babel livro é corpo: o verbo fez-se carne e habita entre nós (de linguagem). É a Bíblia da pós-modernidade e sua maior ironia. O sonho de criar o Livro dos Livros, um substituto perfeito do Cântico dos Cânticos, que contivesse todos os homens em seus respectivos espaços e tempos e vozes. Por isso a coleta/metamorfose/apropriação. "O ser do ser é o caos", "O presente é a eternidade". É preciso que se façam leituras específicas desse multi-texto. Ler a polifonia, a imagética, a filosofia, a estética e a visão de mundo específicas desse livro que, mesmo amaldiçoando a si mesmo enquanto narrativa e fracasso, diz o que todos precisávamos ouvir. Se o sujeito que teve a sintonia fina para ouvir as emparedadas vozes da Torre infinita (que nós mesmos construímos e na qual nos aprisionamos) escreveu o que acredita ter ouvido apenas para se livrar de uma culpa, de um peso ou de um daimon pessoal, não importa. O resultado final é literatura. O que mais se pode pedir de um texto?

* Carlos Moreira é professor de literatura