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O ESTADÃO
CADERNO DOIS
15/07/2002


LEITURAS DE BABEL
Miguel Nenevé
[dpto. de Letras da UFRO]


Qual é o ingrediente que se requer para construir um novo mundo, ordem ou caos?
Sunti Namjoshi


"Eu já li algo assim" é o que a gente pensa desde o conto inicial de Babel (Revan, Rio de Janeiro, 2001) até o final quando o livro se fecha. Desde os textos que parecem apenas depoimentos até os textos bem poéticos, líricos, há sempre algo a ser lembrado como se um fosse re-escritura do outro. "Já li algo assim" o leitor pensa por exemplo quando lê ORDOG (Gordo?) e lembra do final de Ullysses de Joyce ou até do Salamandra de Bob Dylan. Escritos sob várias formas e gêneros os textos de Babel vão mostrando que o "algo assim" não é "bem assim" que há uma diferença, há uma bifurcação que faz o velho se renovar "para dizer o meu dito e não do jeito dos outros" como depõe o narrador de IHWH.

Um livro sem fim? Um livro que suscita um recomeço, uma revisão? O "Livro" ideal sonhado pelo criador poderia ser este livro sem fim. Ou talvez esteja sugerindo um livro sem finalidade pois não consegue atingir uma linguagem única em poucas palavras, mas um amontoado de palavras um ir e vir de textos e idéias que sugerem caos? Há procuras, anseios, esperanças e desesperos, mas não há um texto ideal, uma forma ideal ou um Livro ideal. Os vermes que percorrem as páginas vão mostrando a vida que jaz e se anuncia. Os vermes também anunciam que se não lermos eles podem se beneficiar do livro: melhor virarmos "book worms" e lermos também. Suscita questionamentos sobre o que é literatura, o que é tecer, fiar e desfiar. Quem serão os "criadores de luz" e quem serão os vermes? É necessário fazer esta dicotomia? Não haveria vaga-lumes que também são vermes, mas sabem ser criadores de luz? Quem está na luz? Quem está nas trevas? Seria o centro e a periferia? Seria a marginalidade contra a centralidade? Seria o dono da luz contra o verme da escuridão? Vale a pena questionar o diferente, o estranho, o que parece não ser "da luz."

A valorização da superficialidade passa por não valorizar o que e diferente, o que veio da "escuridão" ou do coração das trevas. "Tudo o que é dito nas trevas" deveria ser "ouvido na luz". O problema é que ao se negar a luz para ouvir o que vem "das trevas", como ouvir!? Como há barreiras para o que é diferente, para aquilo que pode iluminar. Em termos de livros, de literatura, os verdadeiros amantes são poucos, e que escrevem maravilhosamente. Há porem também os que seguem um bando que diz "o que é bom e o que não é", e há aquele também que fica com medo do novo, do não dito, do que pode desestabilizar.

Tive uma boa primeira impressão ao ler Babel. Poderia dizer que esta impressão se deve ao fato de me fazer lembrar um narrador de Poe que vai ditando e fazendo coisas inesperadas ou porque tem um pouco de "Bartleby" de Melville ou do Conrad pelo sujeito estranho que pode ser um "doppelganger" na embarcação, mas acho que não foi por isso que gostei. Gostei porque é gostoso de ler, fluente e excita a curiosidade. Tem alguma coisa correndo pelas linhas que são mais que palavras.

Babel é indiscutivelmente de grande valor literário. Pode ser lido de diversas formas. E lido por pessoas de diversas idades e níveis. O último conto, por exemplo, permite mil leituras. Dele gostei muito da "linha do homem". A Bibliogenia, a Bibliofisiologia: quanta coisa pode suscitar isso. "Ah Humanity" como dizia Bartleby... A linha da Humanidade ou do livro? Poderia ser a linha do livro simplesmente, o fim da linha em vários aspectos. Mas há tantas linhas, que sair da linha ou desalinhar-se pode sugerir muito. Pode levar a várias outras linhas até chegar aos países não alinhados. Assim o verme já citado. Por isso fica gostoso de se ler e re-ler também.

Alguém poderia usar a abordagem psicanalítica para analisar alguns dos textos ou até para querer explicar a psique do autor. Há uma loucura sem método correndo pelas linhas e saindo da linha. O verme estaria feito um "bicho da goiaba" que aparece sem ser percebido? Ou é o verme de Balke que traz doença (ou vida?) à Rosa? Distorções bizarras, especialmente nas apresentações de exageros nas figuras humanas e no comportamento anormal, patológico de algumas personagens. Parece que há uma obsessão na construção do Livro e o Livro não sai, buscam-se formas, estéticas, que se desesteticizam e a loucura vai como que se espalhando como uma fumaça. Alguém poderia também usar a abordagem pós-colonial para falar da mente colonial e colonizadora do narrador (ou do autor?) que supostamente no calor dos trópicos úmidos fala em neve e música clássica. Como não lembrar o piano perdido no Rio Madeira apresentado pelo Márcio Souza em "Mad Maria"?

Esta insistência pelo bizarro, pelo grotesco e talvez pela apresentação de uma verdade cruel deixa a leitura um pouco densa ou "carregada" como uma tarde amazônica antes da chuva. Há momentos em que os textos parecem apontar para pedaços de humanos, para fragmentos e contrastes que podem provocar risadas mefistofélicas, como por exemplo em "A Festa". Poder-se-ia dizer que há um sarcasmo do jeito de Swift in "A Modest Proposal"?

Há intertextualidade presente em tudo. Até o Frankenstein parece estar por este livro. E o Poe com seus assombros parece fiar na sombra das páginas: "Será isso e nunca mais", encontramos em um dos textos. Não sei se é bom falar em influência, mas há uma indiscutível intertextualidade e o titulo é isso também. É uma biblioteca, talvez para lembrar a "Biblioteca de Babel" de Borges. Como não começar a rir quando se lê um conto chamado "Amigos"? Como não lembrar do Cervantes? "O Numero" é um texto engraçado, podendo ser lido por diversas idades. Muito engraçado e ao mesmo tempo profundo se quisermos lê-lo assim.

O livro não é uma "colage", mas, pode-se dizer, um "palimpsest", um pouco de uma re-escritura de outros textos. O "Livro" no final seria isso talvez: uma reunião de literaturas, de obras, de estilos, apontando para outra literatura. A importância de reconhecer a intertextualidade no caso de Babel é fundamental. Acredito que não é bom para o critico ficar citando ecos de outros escritores o tempo todo, mas também não é bom cegar a estes ecos, não reconhecer a intertextualidade. E Babel tem muitos ecos: Borges, Cervantes, Melville, Conrad, Poe, Joyce. Impossível não sentir isso. Não pensar sobre isso.

O livro contém ainda alguns problemas de revisão. Isso não diminui o valor literário, mas justamente pelo seu valor literário, de capacidade criadora e recriadora que merece ser revisto. Espero ver a segunda edição com estas revisões.