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JORNAL DO BRASIL
IDÉIAS
08/12/2001
UM HOMEM QUE MUDOU A HISTÓRIA
Leandro Konder
Jornalista brasileira teve acesso a material confidencial para fazer a primeira biografia consentida do líder cubano Fidel Castro
Sabemos que são os seres humanos que fazem a história. Somos nós que transformamos as condições sociais, mudamos o mundo e nos modificamos, com nossas iniciativas, nossos acertos e nossos erros.
Mas sabemos também que não influímos todos no mesmo nível e com a mesma profundidade sobre o movimento da história: alguns indivíduos se destacam num exercício de liderança que lhes confere um papel especial.
É claro que a ação desses líderes não é arbitrária, eles não são motivados por ímpetos gratuitos e se tornam líderes justamente porque atendem a uma demanda socialmente significativa: são indivíduos que ganham força em função do apoio que recebem de uma coletividade.
É impossível aprofundarmos a avaliação histórica da ação de uma liderança destacada sem compreendermos o movimento coletivo que ela lidera. E, da mesma forma, é impossível aprofundarmos nossa compreensão de um movimento histórico sem avaliarmos conscienciosamente sua liderança.
Mito - Entre os líderes políticos contemporâneos, é difícil encontrar uma figura que seja considerada, por tanta gente, tão fascinante como Fidel Castro. Seria inconcebível que um historiador se dispusesse a estudar a revolução cubana sem dedicar uma atenção particular ao seu maior dirigente.
A brasileira Claudia Furiati prestou um relevante serviço aos interessados em entender melhor o que vem acontecendo em Cuba desde meados do século 20. Ao longo de nove anos de pesquisa, ela recolheu uma soma colossal de informações, uma quantidade surpreendente de fotografias interessantíssimas, um material excepcionalmente rico, que lhe permitiu escrever uma cuidadosa e alentada biografia (cerca de mil páginas!) de Fidel Castro.
Contando com a boa vontade de seu biografado e com o apoio de preciosas fontes cubanas, a biógrafa esmiuçou a infância do líder, suas primeiras expressões de rebeldia, suas posições contestadoras como estudante e seu ingresso na política.
Reconstituída em suas linhas gerais a situação de Cuba durante os anos da ditadura de Batista, o primeiro volume do livro se detém na evocação da tentativa de assalto do quartel de Moncada, na prisão e no exílio mexicano de Fidel. O leitor é levado a se familiarizar com as razões que levaram o líder do movimento 26 de julho a optar, nas circunstâncias da época, pelo caminho da luta armada contra o ditador.
Segue-se a expedição do barco Granma (o nome dado pelo proprietário original evocava sua avó, a ''Grand Mother'', ''Grand Ma''), que tinha capacidade de transportar 25 pessoas e levou ao longo de vários dias o grupo dos 82 revolucionários que desembarcou na ilha.
A campanha começou mal: após as primeiras semanas, restavam apenas 18 dos que tinham vindo no Granma e haviam sido recrutados somente 14 novos combatentes. Logo, porém, os sobreviventes aperfeiçoaram suas competências bélicas e passaram a levar vantagem em sucessivas batalhas (reconstituídas em diversos mapas, no livro).
Para neutralizar a ação desinformadora do governo, que declara já tê-los ''dizimado'', os insurgentes atraem um jornalista americano para fazer uma entrevista com Fidel. Esse jornalista - Herbert Matthews - fica entusiasmado com as qualidades do chefe da guerrilha: chama-o de ''novo Bolivar'' e de ''Lincoln do Caribe''.
A partir daí, o carisma do comandante-guerrilheiro não cessa de crescer.
Leandro Konder é professor de Filosofia da PUC-Rio
HERÓI OU DITADOR
O segundo volume de Fidel Castro: uma biografia consentida começa com a ofensiva (minuciosamente reconstituída) dos rebeldes e a conquista do poder, no final de 1958.
Herói e (ou) ditador?A nova situação põe Fidel diante de escolhas que acarretam graves conseqüências: quais devem ser as mudanças prioritárias? Quais as concessões inevitáveis?
Batista foge, porém seus agentes que cometeram crimes são presos e julgados por um tribunal revolucionário. Os fuzilamentos espetaculares dos que são levados ao paredón repercutem ambiguamente no plano internacional: são aprovados por muitos, deplorados por outros.
Reformas- Uma reforma agrária empreendida com energia expropria grandes fazendas e agrava a contradição com os Estados Unidos, já que empresas americanas eram proprietárias de cerca de 70% das terras que estavam em condições de uso imediato pela agricultura em Cuba.
Outras reformas, inadiáveis, se sucedem, golpeando privilégios e gerando descontentamento em amplos setores da burguesia cubana. O conflito com os Estados Unidos se agrava, o governo americano apóia uma tentativa de invasão da ilha, mas onde os 82 passageiros do Granma tiveram êxito os 1.400 inimigos do socialismo que desembarcaram de cinco navios fracassaram: foram aprisionados ou postos em fuga.
Claudia Furiati mostra que, a partir de um certo ponto, a biografia de Fidel Castro se funde e se confunde com a dramática história do Estado revolucionário cubano. E o objetivo dos que anseiam pelo fim da revolução passa a ser, com freqüência, a morte do seu maior dirigente.
Atentados- Os atentados se multiplicam. Os cubanos dizem que até 1997 foram planejados e muitas vezes tentados 637 atos contra a vida de Fidel. As concepções variaram muito: um traidor que integrava os altos escalões do governo revolucionário ia usar uma seringa disfarçada de caneta carregada com veneno; agentes da CIA puseram explosivo plástico (que não explodiu) embaixo do palanque onde Fidel falou; outros agentes colocaram uma bomba em forma de concha grande no local onde Fidel mergulhava.
Um agente tinha uma pastilha de veneno, guardada na geladeira, para dissolver num milk shake pedido pelo líder cubano. Na hora de usá-la, contudo, não conseguiu desgrudá-la do gelo, perdeu a chance. E há o caso de uma loura atraente que namorou o chefe de Estado para matá-lo, porém se arrependeu antes de cumprir sua missão e a revelou à sua quase vítima.
Na medida em que sobrevivia aos variadíssimos atentados, o carisma de Fidel se fortalecia. E isso o ajudava a enfrentar o desgaste que decorria dos numerosos problemas irresolvidos.
Política Externa - No plano internacional, Fidel, em determinado período, ao que tudo indica, acreditou demais em seu poder de influir revolucionariamente nas lutas de outros povos. Invocando o precedente das interferências dos Estados imperialistas na história política dos países do Terceiro Mundo, o líder cubano se dispunha a disputar batalhas políticas em terra alheia. Para isso ele contava com a ajuda de um secreto Departamento de Libertação.
Em outro período, posterior, a política externa cubana pagou um preço alto por acompanhar de maneira excessivamente solidária a política externa da União Soviética. Embora sempre tenha dito que Cuba não era e nunca seria ''satélite'' de ninguém, Fidel sofreu inegável desgaste quando apoiou Brejnev em ações desastrosas, como a da intervenção no Afeganistão.
No plano interno, os resultados muito positivos da política seguida na área da educação e da saúde, assim como a preservação de um perfil econômico que impede o aprofundamento de desigualdades sociais, constituem justo motivo de orgulho para Fidel e seus companheiros. No entanto, alguns problemas complicados estão longe de terem sido resolvidos.
Problemas- Tendências burocratizantes, manifestações de oportunismo, atitudes paternalistas, casos de corrupção (envolvendo até o narcotráfico!) são severamente combatidos, mas funcionam como sinais de coisas que não vão bem.
O turismo, que se tornou uma das fontes de receita mais importantes no país, exige a livre circulação do dólar; e a tensão entre os dois tipos de moeda - o dólar e o peso - tende a acentuar desequilíbrios injustos (uma arrumadeira de hotel que recebe gorjetas em dólar ganha bem mais do que um médico ou um professor recebem em pesos).
Outro problema: o do crescimento de um certo lumpesinato em Havana. O fato de todos os bairros terem água encanada e alguns serviços básicos não é suficiente para eliminar deles a miséria.
Consentimento - Cláudia Furiati se beneficiou da boa vontade de Fidel e de diversos companheiros dele para fazer seu livro. Não se trata, contudo, de uma biografia ''oficial''. Fidel declarou que se reservava o direito de discordar, eventualmente, do que ela escrevesse. Caracterizou a obra como uma biografia ''consentida''. A biógrafa assumiu a designação.
A biografia ''consentida'' tem sobre a biografia ''oficial'' a vantagem de permitir a quem a escreve maior liberdade pessoal, maior fidelidade à postura indagadora de um cientista que busca compreender melhor os problemas examinados, sem estar totalmente comprometido com soluções programáticas previamente definidas.
O ''consentimento'', no entanto, ainda é algo que estabelece um compromisso. Enfatiza um vínculo de gratidão, exacerba uma ligação de solidariedade, de ''espírito de partido''. Cobra sutilmente do pesquisador que não se exceda ao ultrapassar determinados limites ''políticos''.
É possível que, consciente ou inconscientemente, Cláudia Furiati tenha ousado menos do que poderia, em sua análise e em sua reflexão sobre algumas questões que emergem da trajetória épica do líder da revolução cubana. É possível que ela pudesse ter dedicado maior atenção aos efeitos antidemocráticos de um sistema montado sobre um partido único.
Talvez a biógrafa corresse o risco de irritar, ou decepcionar, seu biografado, refletindo mais longamente sobre o significado da longa permanência de Fidel no poder como expressão de limitações no processo da democratização da sociedade cubana, Mas essa ''impertinência'' poderia contribuir para um aprofundamento do pensamento de esquerda sobre as dificuldades da democracia.
Referência- Em todo caso, Cláudia Furiati teve, entre muitos outros, o mérito de não ter ignorado esses problemas. Sua biografia ''consentida'' é magnífica, passou a ser uma referência fundamental para quem queira estudar a revolução cubana e sua maior liderança.
O livro deixa claro que há uma profunda coerência na liderança de Fidel: ele é absolutamente fiel a seus liderados, que constituem a camada dos de ''baixo'' na sociedade (como dizia Gramsci). E o povo dessa base se reconhece em suas preocupações igualitárias, em sua paixão justiceira. (L.K.)