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CORREIO BRAZILIENSE
CAD. PENSAR
09/12/2001 - domingo
PALAVRAS E MULTIDÕES
Paulo Paniago e Sérgio de Sá
Primeiro, ele foi registrado como Fidel Hipólito Ruz Gonzalez. Depois, Fidel Casiano Ruz Gonzalez. Finalmente, Fidel Alejandro Castro Ruz. O sobrenome do pai, o galego Don Angel, entra na história quando o divórcio do primeiro casamento é oficializado. Os outros ficaram para trás. E Fidel Castro cai no clichê: dispensa apresentações. Certo? Mais ou menos. Temos essa figura conhecida e reconhecida em todo o mundo. Sempre com o indefectível uniforme militar verde-oliva. O boné, a barba. O charuto (abandonado recentemente em nome da saúde, ao menos publicamente).
Foram poucas, entretanto, as tentativas de escrever a vida do ditador cubano. A maior e mais ambiciosa delas chega às livrarias esta semana: Fidel Castro - Uma Biografia Consentida, da jornalista brasileira Claudia Furiati. A obra, em dois volumes, será lançada amanhã na sede da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro e, terça-feira, no Museu de Arte Contemporânea de Niterói. O maior trunfo de Furiati é a segurança dos dados coletados e agora colocados à disposição do leitor brasileiro. Também historiadora, Furiati obteve o consentimento de Fidel Castro, como deixa evidente o título. Não foi a primeira vez que ele permitiu (o que é diferente de autorizar) que se escrevesse sobre sua vida. Antes, o jornalista norte-americano Tad Szulc publicara Fidel - Um Retrato Crítico. Mas, explica Furiati, o próprio biografado ficou descontente com o resultado. ''Outras tentativas de descrevê-lo restringiam-se a uma etapa de sua vida e obra ou são entrevistas'', escreve Furiati no prólogo de Do Menino ao Guerrilheiro, o primeiro tomo de sua biografia. Ela foi mais ambiciosa, e teve acesso a um número maior de informações acerca de El Comandante. Os dois volumes vêm, portanto, suprir uma lacuna nas prateleiras. Não que o mundo não se interesse por Fidel Castro. Não. É o comandante quem, invariavelmente, afirma não gostar do ''culto à personalidade''. Mas como aquiescer a isso, se o Ocidente disso vive? Nesse sentido, Fidel Castro é Marilyn Monroe, Ayrton Senna, John Kennedy, Michael Jackson. Fenômeno de imensa dimensão pública e maior publicitário de si mesmo, por trás do disfarce de não estar nem aí. A primeira parte concentra-se na formação do mito. Claudia Furiati parte de Don Angel, o pai de Fidel, para delinear suas origens. Foi o período de vida mais difícil de recompor, pois são poucos os documentos disponíveis.
Recorreu-se à memória. Nela, Fidel surge como um menino extraordinário desde o berço: nasceu pesando 5,443 quilos. No segundo livro, Do Subversivo ao Estadista, importa saber como o grande líder se comporta no xadrez internacional, na queda de braço contra o principal inimigo: o capitalismo (leia-se: Estados Unidos), e como se segura, no muque, um país em queda livre que tem como sustento um pára-quedas precário. Recheados de imagens, muitas inéditas em livro no Brasil, os relatos mesclam história (política, econômica, social) mundial e latino-americana com vida pessoal, privada. ''Não é um livro apenas deglutível. É uma obra de referência, a primeira biografia abarcadora de Fidel. Então ele tinha que ser do tamanho que é'', explica Furiati em entrevista ao Correio. E, no caso, tamanho é documento.
Roberto Amaral, no prefácio ao Tomo I, afirma que a biografia de Furiati é mais do que a história de Fidel, ''é a revelação de mais de meio século da história do nosso Continente; para além da história recente de Cuba, é a história da luta dos povos subdesenvolvidos, é a história dos humilhados e ofendidos da Terra lutando por dignidade.'' Grande no tamanho (juntando os dois livros, 1.072 páginas), grande na dimensão sociopolítica, Fidel Castro - Uma Biografia Consentida é resultado de exaustivo trabalho de pesquisa, que o texto de Furiati expõe sem timidez. Foram cinco anos de depoimentos, conversações e entrevistas (Alfredo Guevara, Alfredo Esquivel, Max Lesnick, Ramón Castro e outros personagens históricos), exame de documentos do Arquivo Fidel Castro, leituras incansáveis de cartas, jornais e livros. A autora viveu entre Cuba e o Rio de Janeiro. O lugar-comum mais correto sobre Fidel é confundir sua trajetória com a do país que ele conduz com mão de ferro há mais de 40 anos. Não parece à toa que Fernando Morais tenha colocado o seguinte subtítulo no clássico A Ilha: Um Repórter Brasileiro no País de Fidel Castro, até agora uma das maiores referências no Brasil quando o assunto é Castro-Cuba. Cuba é um lugar chamado Fidel Castro. E esse homem-país é feito de muitas palavras. Sua imagem está bastante relacionada ao palanque, ao discurso verbal. Aconteceu cedo a descoberta desse poder. Em um debate parlamentar na escola, Fidel representava o setor que defendia a não-intervenção do Estado na educação (ironias do tempo...). Foi escalado para falar a favor da liberdade do ensino. Tirou nota 10. O dom fenomenal, lembra Furiati, apenas foi sendo sedimentado. ''Ele não discursa, conversa com as pessoas, às vezes meio ao pé do ouvido porque a voz amansa, ondula, ele volta para aquele ponto que ficou lá atrás e não foi bem explicado. Consegue lembrar que duas horas antes não tinha completado um raciocínio. É realmente fora do comum.'' Nas páginas seguintes deste Pensar especial, leia e veja um pouco mais sobre o sedutor Fidel Alejandro Castro Ruz e uma história que apenas começa a ser contada na relevância dos detalhes.
1974
Henry Kissinger, secretário de Estado norte-americano, propõe iniciar diálogos com Cuba. O primeiro encontro é no ano seguinte. Os Estados Unidos querem, entre outras coisas: compensação por propriedades expropriadas e aviões seqüestrados; permissão de visita de exilados cubanos a familiares. Cuba diz o que quer: fim do bloqueio econômico, a devolução do território de Guantânamo. Ou seja, impasse.
1978
Toda vez que a comunidade internacional apela para direitos humanos em Cuba, Fidel responde com a ''boa vizinhança'' dos Estados Unidos com regimes do Chile, Nicarágua, Brasil, Zaire e África do Sul. Em 1978, em meio às viagens internacionais, Fidel recebe em Havana, pela primeira vez, um grupo de cubanos que estão no exílio.
1998
Na tentativa de recompor um pouco a má vontade interna e externa, Fidel Castro abre a ilha para uma visita curiosa, a do Papa João Paulo II. No discurso, ensinou padre a rezar missa: ''Que podemos oferecer-lhe em Cuba, Santidade? Um povo com menos desigualdades, menos cidadãos sem amparo...'' Sua Santidade, no entanto, é especialista em ensinar padres a rezar missa: ''Que Cuba se abra para o mundo e que o mundo se abra para Cuba."
EM OUTRO COMPASSO
Enquanto Claudia Furiati tenta mostrar na volumosa biografia os dilemas enfrentados pelo comandante com tintas que glorifiquem a trajetória de revolucionário, os jornalistas franceses Corinne Cumerlato e Denis Rousseau abrem o verbo para que não restem dúvidas: o que está em andamento em Cuba pode ser chamado de ''social-surrealismo''. Moradores de Cuba entre 1996 e 1999 e hoje impossibilitados de voltar, eles são os autores de A Ilha do Doutor Castro - A Transição Confiscada, que começa a circular nas livrarias a partir de amanhã.
No livro dos jornalistas franceses, os cubanos contam piadas como forma de subverter o matraquear da propaganda. Os métodos para levantar informações na ilha do Doutor Castro são os mais primitivos possíveis. Mas isso nem é o pior: ''Em Cuba, o jornalista estrangeiro é sistematicamente vigiado, escutado, espiado''. Durma-se com esse barulho.
Eles jogam duro: ''O castrismo é antes de mais nada um sistema de poder que repousa sobre uma maquinaria social e política complexa, a serviço de um objetivo único que impõe um pragmatismo infalível: a manutenção no poder de um homem e de uma casta burocrática e militar que ligou seu destino ao do líder.''
A única saída, aventam, é esperar pela morte de Fidel. ''O sistema está aprisionado. (...) O tecido social se dissolve.'' Não é fácil. Fidel não arreda pé de seus princípios (por que deveria?), o que leva os autores a concluírem o modo como ele pensa: se o mundo está em desacordo, mude-se o mundo.
Não raro, o livro ilustra as mazelas do país por meio de histórias colhidas no local, as piadas internas. Uma professora pendura fotografia do presidente Ronald Reagan na parede e pergunta à turma quem é aquele. Ninguém sabe. Ela diz que vai ajudar: ''É por causa deste senhor que nos falta tudo em Cuba.'' Ao que um aluno reclama: ''Professora, assim não vale. Sem barba e uniforme, ninguém o reconhece!''
Cumerlato e Rousseau criticam tudo no Comandante, e muito o pendor para longos discursos - sacrificantes para a população. Chamam esses discursos de Castro-maratona. Uma cubana que o vê pela televisão, 42 anos depois de Serra Maestra, exclama: ''Ele tem olhos de louco!'' E, ao lado, alguém comenta: ''Mas ele sempre teve esses olhos; não tinha notado?''
Ao final, os autores afirmam que o pós-castrismo começou, embora Fidel ainda esteja onde sempre esteve - no poder. Desde a legalização do dólar, em 1993, ''Cuba, como última trincheira tropical do marxismo-leninismo, tem apenas existência virtual''. Há quem esteja impaciente, e se lance ao mar. ''A maioria se conforma e se contenta em sobreviver.'' Nesse momento, ponderam, o país está em suspenso, todos dentro dele atentos para não perder o trem da história. (P.P.)
TITÍN VAI À GUERRA
No primeiro volume de Fidel Castro - Uma Biografia Consentida, Claudia Furiati conta: Fidel cresceu no interior de Cuba e foi aos poucos se aproximando do litoral e dos centros urbanos. O pai era proprietário de terras. Os irmãos Angelita, Ramón, Fidel e Raúl - nessa ordem de nascimento - se sentiam livres no campo, e esse sentimento restou para sempre. Saudade.
A professora Eufrasita percebeu talento especial no menino, apelidado Titín, e recomendou que ele fosse estudar na cidade. Titín não se intimida facilmente, a ponto de mandar carta ao presidente norte-americano, Franklin Roosevelt (leia abaixo). Colocado em perspectiva histórica, o pequeno texto ganha dimensão quase hilária.
Desde jovencito, revelou aptidão para o esporte. Jogou basquete, beisebol, foi campeão de atletismo, dedicou-se ao pugilismo, percorreu distâncias a nado que deixaram forte impressão em quem conviveu com ele. Em tudo Fidel parece ter sido o maioral. O salto do adolescente para o estudante universitário engajadíssimo é rápido na vida narrada por Furiati. Na Universidade de Havana, começa a carreira de grande orador. Discursa, discursa. Passa naturalmente a interferir na esfera política. Aí o futuro Comandante conhece amigos de vida inteira: Alfredo ''Chino'' Esquivel e Baudilio ''Bilito'' Castellanos. Clima bastante intenso, Fidel e seus companheiros andam armados. E andariam por um bom tempo.
''Acho que cheguei ao ponto básico do resgate dessa história. Não há mais muito o que levantar dessa parte da infância, da adolescência, da juventude'', avalia Furiati. Alguns amigos dessa época, participantes de episódios importantes, foram encontrados na Flórida, Estados Unidos. ''Foram embora porque não concordaram com o destino que Cuba estava vivendo'', explica a autora. Destino que Cuba começou a viver quando o discurso de Fidel vira prática na luta contra a ditadura Batista.
O menino vira guerrilheiro. E a vida já não seria mais a mesma. (Sérgio de Sá)