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CORREIO BRAZILIENSE
CAD. PENSAR 09/12/2001 - domingo


BUT I AM NOT AMERICAN

De navio, chegara a Santiago uma equipe de estudantes norte-americanos para uma competição de basquete. O primeiro jogo com o Colégio Dolores seria no campo da Alameda. A pedido de Fidel, de volta às aulas, escalado como titular para o time, a luz do pátio da escola permanecia acesa à noite para treinamentos. Ele não descansava enquanto não acertava diversos arremessos contínuos à cesta. Inserido na atmosfera de intimidade com os Estados Unidos, ainda engatinhando no inglês, resolveu escrever uma carta ao presidente Roosevelt: ''President of the United States... If you like, give me a ten dollars bill green american, in the letter because never I have not seen a ten dollars bill green american and I would like to have one of them. My adress is: Sr. Fidel Castro, Colegio de Dolores, Santiago de Cuba, Oriente-Cuba... I don't know very English but I know very much Spanish and I suppose you don't know very Spanish but you know very English because you are American but I am not American'' (Presidente dos Estados Unidos... Se você gostar, me dá uma nota verde de dez dólares, na carta porque eu nunca vi uma nota verde de dez dólares e gostaria de ter uma delas. Meu endereço é: Fidel Castro, Colégio de Dolores, Santiago de Cuba, Oriente-Cuba... Eu não sei muito inglês, mas sei muito espanhol e suponho que o senhor não sabe muito espanhol, mas sabe muito inglês porque o senhor é americano mas eu não sou americano...'').

1926/7

A data de nascimento de Fidel Castro, conta Claudia Furiati, é certa: 13 de agosto. O ano, incerto... Para que ele pudesse entrar no segundo grau, seu pai, Angel, pagou propina ao secretário do juiz da comarca. Por 100 pesos, Fidel ficou um ano mais velho. De 1927 para 1926.

1939

No exame de admissão para o Colégio Dolores, em Santiago, o professor pede: ''Diga o nome de um réptil...''. Fidel responde: ''Um majá!''. ''Mencione outro réptil'', insiste o professor. ''Outro majá.'' Foi aprovado.

1943

O esportista está em plena forma. No colégio Belén, faz parte da equipe de futebol e se destaca por sua ''impetuosidade indomável'', conforme registrado à época. No basquete, é cestinha e tira satisfações com os adversários ao final das partidas.

O HOMEM QUE DOBROU O DESTINO

Vitorioso o golpe que tirou o ditador Fulgencio Batista do poder, era preciso estabelecer novos rumos para Cuba. A máquina de fazer um novo Estado começa a funcionar. Claudia Furiati acredita que Fidel Castro pertence ao time dos que dobram o mundo à força para submetê-lo à própria vontade. No início do segundo volume de Fidel Castro - Uma Biografia Consentida (Do Subversivo ao Estadista), a revolução está bem-sucedida e os guerrilheiros entram em Havana.

É o momento de mostrar a que vieram. ''Fidel escutava e falava sem cessar'', relata Furiati. As necessidades físicas suprimidas. ''Eventualmente, cochilava umas duas horas de dia ou de noite, enquanto era aguardado atrás da porta.'' Hiperatividade sempre marcou a trajetória de El Comandante.

É necessário uma reacomodação. Há grupos de trabalhadores portando faixas e reclamando melhorias sociais. Uma lei intervém no que são considerados ''negócios fraudulentos'' e bens - móveis e imóveis - são julgados frutos de roubo e confiscados. O paredón começa a funcionar. Fidel garante: os condenados não passariam de 400. Mas será que existe um número, bem, adequado? Furiati assevera que no primeiro ano foram 150 os fuzilados, ''sendo que alguns preferiram o suicídio a serem executados''. Mas isso não era bem visto no exterior: ''A imprensa internacional noticiava os vereditos como 'atos de barbárie em um banho de sangue'.''

Ainda indefinida quanto ao socialismo nos primeiros anos - ou melhor, definida, mas não assumida claramente - a revolução inscrevia-se em contexto global de lutas: a vietnamita contra a França, a egípcia contra a Grã-Bretanha, a de húngaros contra soviéticos. Formar um bloco diferenciado, a Terceira Via: nem Primeiro nem Segundo Mundo. Por isso, Fidel desenvolveu política exterior ostensiva. Em janeiro de 1959, deu o pontapé na agenda de viagens internacionais, participando do primeiro aniversário da derrocada de Marcos Pérez Jiménez na Venezuela.

Fidel começa a modular o discurso em que havia feito promessa de eleições gerais em 18 meses: ''Presto contas aos povos do mundo. Quando as maiorias estiverem contra nós, nos retiraremos...'' Em maio, quando está de passagem por Montevidéu (Uruguai), mudou o discurso, e descarta eleições em Cuba, enquanto não existirem ''condições propícias''. Pelo visto, elas são como Godot, nunca chegam. Se não há partidos de oposição, qual o sentido das eleições, não é verdade?

Embora o rompimento formal com Cuba fosse acontecer só um ano depois, em 1961, os Estados Unidos - segundo a biografia - começaram a explorar alternativas para derrubada do regime desde março de 1959. Fidel ensaiou manter boas relações. Nadou na praia do tubarão: passou 11 dias por lá. Nova York em abril de 1959, Fidel em uniforme de campanha: discursos, entrevistas, conversas. A Revolução tinha um misto de porta-voz, assessor de imprensa e relações públicas na figura alta e barbuda do líder máximo. Chegou a declarar - sem aparentemente usar de ironia - que não há ditadura que suporte a imprensa livre. E ouviu elogio de Nikita Krushov, o secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética: Cuba era como ''porco-espinho a 144 quilômetros da costa dos Estados Unidos''.

Ao final, Furiati o compara a outros revolucionários, com vantagem para Fidel: Martí, Bolívar ou San Martín, Frei Caneca ou Tiradentes, ''todos foram derrotados antes de ver ativa a sua cria ou assistido o seu engano'', ela declara. ''Exceto Fidel.'' Chama a autoridade dele de ''ofuscante, avassaladora''. ( Paulo Paniago)

ALTOS E BAIXOS DA REVOLUÇÃO

O acordo que poderia salvar Fidel de continuar fechando o balanço do país no vermelho aconteceu ainda em 1960, com a União Soviética. Em troca de petróleo 33% mais barato do que o adquirido no vizinho Estados Unidos (que aliás achou por bem cortar o fornecimento), Cuba exportaria um milhão de toneladas de sua produção de açúcar por ano para os comunistas russos, com preços acima do mercado internacional. E passaria sem sentir muito a crise do petróleo, na década de 1970.

Mas a situação muda. E com o fim do bloco soviético, a queda do Muro de Berlim, em fins dos anos 1980, a torneira dos recursos fecha. Cuba é obrigada a se virar como pode, e as condições de vida pioram muito, obrigada a buscar soluções em outra parte, até mesmo num reforço ao turismo. O texto põe um pouco de maquiagem nos problemas.

Ao se concentrar na figura de Fidel, Furiati acaba por esquecer no meio do caminho um pouco desse líder para ressaltar o cenário político e histórico. Ao final volta a recuperar o ser humano que se faz perguntas: ''Pode se seguir impondo ao mundo padrões de consumo? Não poderíamos inculcar um pouco mais de ânsia de cultura e riqueza espiritual? Sem esquemas, dogmas ou palavras de ordem?''

Ela só não diz se a pergunta é retórica. (P.P.)

1945

Entra na Universidade de Havana. Forma o grupo Los Manicatos (''mãos duras'') para disputar o poder na Federação dos Estudantes Universitários (FEU). A primeira declaração pública do líder aparece no jornal Pueblo.

1948

Em abril, Fidel desembarca em Bogotá ''com a barba bem feita''. O líder político Gaitán é assassinado. Fidel e Rafael del Pino se engajam por completo no Bogotaço. A experiência repercute ''fortemente no íntimo de Fidel''.