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CORREIO BRAZILIENSE
CAD. PENSAR 09/12/2001 - domingo


O HOMEM FIDEL

1958

Restavam poucos momentos de intimidade na vida de Fidel, ou para dedicar-se às leituras e aos seus pensamentos. Na maior parte do tempo, era acompanhado por uma escolta - as tropas de Batista tinham como missão permanente caçá-lo, além de tentar sustentar alguma posição tática, diante dos incontáveis guerrilheiros que agora fermentavam por todo o canto. Por aqueles dias, o Comandante ainda instruiu o estabelecimento de uma frente em Pinar del Río, na Serra dos Órgãos, com milícias que atuavam na região, obrigando o regime a mobilizar tropas em seu extremo oposto. Ele nunca dizia a ninguém para onde se moveria, nem à sua escolta, tomando as suas próprias medidas de segurança. Quando conseguia, enfim, um pretexto para afastar-se, e caminhar um pouco - era um andarilho compulsivo -, aproveitava-o, mesmo usando os batizados como pretexto. Era quando lhe vinha à mente o filho Fidelito, que se encontrava com a mãe, Mirta, nos Estados Unidos, assim como algumas das suas irmãs. Chegariam a aparecer, naquela altitude da Maestra, várias caixas de bombons que elas lhe enviavam de presente e que o médico Martínez Páez mandava esconder, pois Fidel era glutão, com tendência a engordar e louco por chocolate. Mas este invadia a despensa e devorava tudo aquilo que era seu de direito.

Dormia pouco; às vezes, quatro ou seis horas por noite. Entrar em seu recinto privado, a casa do comando, era permitido apenas a um reduzido círculo, normalmente em momentos que despachava a sua extensa correspondência pessoal, ordens militares e as notas a serem lidas na Rádio Rebelde, com o seu ajudante, capitão Llibre, desempenhando o papel de mecanógrafo.

(...)

Na manhã de 24 de dezembro, véspera de Natal, recém-tomado o quartel de La Maya, em Palmas Soriano, Fidel aparecia de surpresa em Birán. Não via a mãe havia quase quatro anos. O cozinheiro Enrique preparava o café de Lina, quando ouviu ruídos de freios de vários carros ao portão. Correu à varanda e viu Fidel, ao longe, saltando de um dos veículos. Abriu portas e janelas, subiu ao quarto de Lina que acabava de acordar e deu-lhe a notícia. Não era de se crer; ela, trêmula, desceu como pôde para abraçá-lo. E Fidel estava radiante, como aquele menino que chegava para suas férias na fazenda.

'Vem logo, que Titín está aqui...', disse Lina a Ramón, por telefone. Amanhecia bonito, mas começou a cair um tremendo aguaceiro. O piso da varanda virou lodo puro com toda aquela gente de Birán subindo para vê-lo, com a escolta afrouxada. Fidel foi à cozinha, segurou Enrique pelo braço, como é seu costume quando quer ser incisivo, e lhe disse: 'Somos 30 famintos. Faça bisteks, ovos fritos e banana cozida'. A prima Ana Rosa e a tia Belita ajudaram no preparo 'e todos eles tomaram café como se fosse almoço'. Depois caminharam até o laranjal, onde o Comandante convidou a tropa a comer laranjas. E Lina agora chovara porque iam destroçar a sua bem-amada plantação, arrancando frutas sem cortar com a tesoura. Ramón, que já havia chegado, ouviu dele a confidência: 'Esta será a primeira propriedade que passará às mãos do Estado...'

(...)

1959

Havana parecia inerte na manhã do dia 8 (de janeiro), previsto para a chegada de Fidel na 'caravana da vitória'. Próxima ao porto, ladeando a enseada que lhe franqueia a passagem por mar, pulsava uma aglomeração à espera, completando-se em rosário pelas calçadas da Avenida do Malecón. Na outra margem, onde se situa a Fortaleza de La Cabaña, distante apenas por um breve corredor de águas, via-se Maria Antônia - a cubana que mandaram buscar no México, onde ela acolhera o núcleo inicial do Granma. Colada ao pé da estátua de Cristo erguida no monte, a mulher fazia-se como par de sentinela do quartel, na entrada da cidade - um perímetro de arquitetura em que se resume o passado intacto, uma Havana colonial intocada. Com a exata panorâmica, Maria Antônia olhava a multidão no porto ofuscada por uma névoa de lembranças, da última vez que ela vira Fidel despedindo-se com um até já casual, disfarçando-lhe o momento de partir.

Três da tarde. Sob uma grandiosa expectativa, aumentada pelo atraso, aquela imagem retida de súbito apagou quando Fidel surgiu de verdade. A fortaleza de Maria Antônia cedeu às lágrimas. Ele, de pé, em um daqueles tanques ganhos na Batalha de Santo Domingo, era o protagonista de um retake: adentrava a cidade como o último libertador, a síntese dos heróis da Independência, completando-lhes a tarefa deixada em suspenso. Em um plano simbólico, conciliando o político e o militar, rematava a sina de José Martí e dos generais Máximo Gómez e Antonio Maceo. Movendo-se febril como de costume, virando o rosto enérgico, as pessoas vibrando, de cores diversas, nas ruas transversais, espremidas, compunham imagens que, gravadas na ocasião, revelam uma verdadeira apoteose. No olhar de Fidel, estampas - justamente inversas à da convulsa maré que vivera no Bogotaço.

O veículo que o levava freou de repente. Fidel havia avistado o filho Fidelito, de mãos dadas com a sua meia-irmã Lidia, rente à calçada. Ansioso, dera ordem de parada. Apressou-se a descer para abraçá-lo, a prendê-lo no peito. Após quase três anos, Fidel permitia-se estremecer de emoção. Ofegava carente, apesar dos momentos de glória, seu corpo alto e rijo agora plantado no chão. E sentiu-lhe o ser. Vivera na luta a eternidade do vazio, o afeto descompensado do guerreiro, a só imaginá-lo, o filho, trancando culpas, reprimindo-se ante a missão. Ninguém viu, nem poderia, mas os olhos do pai marejaram prudentes, em um surto de silêncio acossado pelo êxtase que o impedia de parar.

Trechos de Fidel Castro - Uma Biografia Consentida, de Claudia Furiati. Na foto, Fidel em Sierra Maestra, 1958

1953

Ocorre o ataque ao Quartel Moncada. A morte de Fidel chega a ser anunciada. Mas ele estava detido. E iria para o presídio da Ilha de Pinos. Entre as obras que lê, A vida de Luis Carlos Prestes, o Cavaleiro da Esperança, de Jorge Amado.

1956

Com capacidade para 25 passageiros, o iate Granma deixa a costa mexicana com 82 revolucionários. A travessia não é fácil. Che Guevara sofre com uma crise de asma. No desembarque em Los Cayuelos, ''o lodaçal ameaçava enguli-los''.

1957

Em fevereiro, o jornalista Herbert Matthews, do The New York Times, sobe a Sierra Maestra para uma entrevista exclusiva com Fidel, que abriu uma caixa de charutos. Conversaram durante três horas. O rifle sueco de mira telescópica do guerrilheiro também estava lá.

1958

O presidente Fulgencio Batista apelidou de Plano FF (Fim de Fidel) a estratégia para detonar os guerrilheiros. Não deu certo. O Exército Rebelde seguiu em frente. ''Se eu estivesse morto, todos diriam que eu estava errado'', pensou Fidel Castro.

1959

Fidel se dirige à multidão, no primeiro de uma série de discursos, em Havana. Esse ficou famoso, porque, enquanto fala, pombas pousam no palanque e, sem respeito às hierarquias, até mesmo nos ombros de Fidel. O povo cubano aproveita a dica e, no jogo do bicho, joga na pomba, mas dá leão.

AONDE ESTÁ O LOBO MAU?

Um dos problemas principais de quem volta atenções para Cuba é não conseguir um distanciamento crítico exato, que permita no mesmo golpe tecer elogios à ausência de analfabetismo e descer o malho na falta de liberdade (individual, de imprensa). É tudo muito à esquerda ou muito à direita. Fidel vira Satã ou Salvador da Pátria.

A opção de Claudia Furiati é clara: Fidel é salvador. Obviamente, escapa com louvor da chatice dos textos oficiais que só conseguem louvar o ''triunfo da revolução''. Mas não consegue apagar por completo uma visão oficial. E quem conseguiria, tendo de lidar com um estado ditatorial filtrador de informações? Como escrever a história mais fiel possível sem depender da fonte estatal?

Claro que Furiati também relata as idiossincrasias do líder. O Comandante anuncia eleições e depois, na maior sem-cerimônia, volta atrás. Fala que é contra o nepotismo e indica o irmão Raúl como o sucessor natural. A certa altura, ela encontra o tom certo para falar dele: ''Fidel, em seu eterno movimento pendular e modulado.''

O trabalho de compilação de histórias mostra-se cuidadoso. Informações, muitas. Não raro, entretanto, elas transbordam e já não é possível dar conta de tudo. Quando menciona, por exemplo, um discurso em que Fidel discorre sobre os problemas econômicos e dá como exemplo o aumento do consumo de rum em 300%, Furiati fica devendo uma explicação para esse aumento: seria a insatisfação com o novo regime? Talvez o maior problema sejam mesmo as fontes para essas informações. Boa parte delas provenientes dos nada isentos/confiáveis arquivos oficiais cubanos, incluindo aí os membros do ''partido''.

Outro problema evidente está na contextualização histórica, principalmente quando se toca em questões relativas a Cuba e América Latina. O leitor pouco habituado ao tema corre o perigo de se perder entre nomes.

Uma boa biografia sempre se permite tecer um comentário mais ácido sobre o biografado. E se a autora não se furta a relatar os tropeços de Fidel, faz isso da maneira mais simpática possível, partidária mesmo.

Em Fidel Castro - Uma Biografia Consentida abundam números, datas, detalhes. E isso é muito bom. Não se pode estimar o valor desse documento. Falta-lhe, porém, o sabor do texto, reservado exclusivamente, e nem sempre, aos momentos da vida íntima. Sobra a dureza do jornalismo, no sentido mais restrito do termo. Falta bom romance, boa poesia, literatura - hoje componentes da não-ficção que deseja seduzir o leitor. O desempenho da obra nas livrarias pode ser prejudicado por isso. Ainda: histórias paralelas de personagens secundários, que poderiam dar bom caldo, são poucas.

Faz sucesso atualmente em Cuba uma música com o seguinte refrão: ''Por qué tú me quieres tanto si yo soy malo, yo soy malo cantidad?'' Na boca do povo, essa pergunta é feita pelo dólar a Fidel Castro: Se eu sou tão mau assim, por que você me quer tanto? O hit é cantado em alto e bom som por Havana. Mas ninguém ousa falar abertamente sobre a piada. As pessoas estranham se um estrangeiro conhece o significado que se propagou. Só vale o sussuro.

Porque há uma dupla moral. O ditador Fidel Castro é amado e odiado. A diferença é que os que amam podem bradar isso pelos quatro cantos. Para pegar o clima Bush-Bin do momento, Fidel faz parte tanto da história do bem como da história do mal. Na biografia, Chapeuzinho aparece mais que o entocado Lobo Mau.

O Comandante (e essa denominação é reverência) merece todas as biografias do mundo. Não se pode, entretanto, deixar que o mito revolucionário apague a trajetória do ditador (mais do que um estadista). Assim como não se pode esquecer as atrocidades impostas a Cuba pelos Estados Unidos da América. Estamos diante de um dos pecados do consentimento.

Outro recurso de linguagem: se estamos dentro de um país chamado Fidel, o mapa que Claudia Furiati oferece nos fará chegar ao destino com extrema segurança, fazendo com que a gente se sinta e esteja realmente bem informado. Sente-se falta do risco da aventura, da dúvida, da tentativa de revolucionar a narrativa biográfica. (Paulo Paniago e Sérgio de Sá)

1960

Em Nova York para participar Reunião Geral das Nações Unidas, Fidel Castro e comitiva passam pelo constragimento de serem expulsos do hotel Shelburne. Vão parar no Harlem, a convite do movimento negro. Fidel dá o troco nas sessões da assembléia: há mães esperando condolências pelos filhos assassinados por bombas dos Estados Unidos...

1961

Depois da malsucedida invasão norte-americana à Baía dos Porcos, autorizada pelo presidente John Kennedy, Fidel resolve faturar politicamente sobre o assunto. Abdica da indenização caso os norte-americanos consigam, junto a ditadores como Francisco Franco (Espanha), a liberdade de cidadãos presos ''por lutarem contra o fascismo, o racismo, o colonialismo e o imperialismo (...)''. Não cola. Recebe indenização, mesmo.

1966

No início do ano, Fidel Castro inaugura em Havana a Conferência Tri-Continental. São 743 delegados da Ásia, África e América Latina, com uma parcela de chineses e soviéticos como observadores. A pauta é: juntar esforços e intensificar as lutas de liberação.