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CORREIO BRAZILIENSE
CAD. PENSAR
09/12/2001 - domingo
ENTREVISTA / CLAUDIA FURIATI
A autora da biografia de Fidel Castro concedeu a seguinte entrevista por telefone, do Rio de Janeiro
CORREIO BRAZILIENSE - Qual foi a motivação inicial para escrever a biografia de Fidel Castro?
CLAUDIA FURIATI - Eu me envolvi com a revolução cubana e com a figura de Fidel desde o final dos anos 1970. Trabalhava no festival de cinema cubano naquela época e também fazia algumas reportagens para jornais. Até que surgiu o momento daquele meu primeiro livro (ZR - O Rifle que Matou Kennedy), quando passei um ano em Cuba. Tinha intenção de escrever um outro livro sobre Fidel, alguma coisa que beirasse uma biografia, um ensaio biográfico. Estava tímida quanto a escrever uma biografia stricto sensu, uma biografia grande, abarcadora. Tinha dúvida de que ele pudesse aceitar. Até que me imbuí de coragem, fiz um projeto que dividia a vida dele em sete partes, como acontece com o gato de bota. Fiz o projeto e apresentei. Recebi depois a resposta dizendo que poderia começar a escrever um livro sobre Fidel, mas ele não queria ser biografado.
CORREIO - O que é uma resposta muito estranha.
FURIATI - Estranhíssima. Era como entrar numa corda bamba entre o sim e o não, quer dizer, ele aceita, mas não quer ser biografado. A minha pergunta foi, por que ele aceita? Acho que foi porque uma biografia autorizada por ele, em que ele explicitamente está dizendo que é a primeira pessoa da biografia, seria vista logo no mundo como uma biografia oficial, e isso não seria bom. Iam dizer que ele teria censurado, teria interferido diretamente no texto, conduzido para chegar aonde ele queria.
CORREIO - Você conversou com ele em muitas ocasiões?
FURIATI - Depois dessa trajetória de estar em Cuba, levantando informações, tive alguns momentos com ele, pontuei coisas. Em outros, mandei perguntas para ele e a resposta me veio de volta.
CORREIO - O texto foi escrito à medida que a pesquisa se desenvolvia ou foi sendo escrito junto com a pesquisa?
FURIATI - De forma geral, esperei colher todo o material, para depois organizar, limpar, fazer um primeiro copião, que era enorme, e depois tirei coisas. Foi uma escritura em três etapas, porque a primeira organização foi muito trabalhosa. Tive que reler tudo. Havia coisas, inclusive entrevistas, das quais tinha me esquecido. Tinha que definir uma linha, se ia fazer um livro cronológico ou não, porque existia uma idéia de fazer um livro temático, mas achei que não ia ser bom porque eu ia perder o sabor de criação do personagem antes do poder, esse menino que viveu ao ar livre, naquela fazenda, que depois viveu nos muros de um colégio, depois se transformou num rebelde, primeiro de ação, depois um rebelde teórico. Achei que tinha de contar passo a passo, então eu tive que reconstruir, reordenar essa linha, a pesquisa.
CORREIO - Você se sentiu incomodada de Manuel Piñeros (chefe da inteligência do governo cubano) ter acompanhado o tempo todo o seu trabalho, indo quase que diariamente a sua casa?
FURIATI - A nossa relação era muito amistosa, companheira, não era no sentido de ele vigiar o que estava sendo escrito. Ia lá porque já havia uma relação anterior, no sentido de ele me ajudar, porque sabia que estava sendo difícil, algumas pessoas tinham resistência em dar entrevista. E ele me ajudou nisso. Ele conhecia profundamente essa história relacionada a Cuba dos anos 1960, relacionada com países latino-americanos e a África. De forma alguma foi uma relação inibidora ou com conteúdo de espionagem (risos).
CORREIO - No período em que você morou em Cuba, de 1994 a 1998, trabalhou na imprensa local ou ficou enviando material para o Brasil?
FURIATI - Abandonei todas as minhas outras atividades.
CORREIO - E como se sustentou?
FURIATI - Com as minhas finanças. Não houve financiamento, a não ser o familiar. Bom, eu não apenas sou jornalista e fui professora e pesquisadora, como nós tínhamos uma empresa e eu tinha uma renda para me manter. Não era muito alta, mas dava para solucionar o problema de tocar a pesquisa.
CORREIO - Você fala que a biografia não é autorizada, é consentida, e Fidel se reservava o direito de criticá-la. Ele já se pronunciou a essa altura? Ele já recebeu o texto?
FURIATI - Bom, ainda não se pronunciou. Ele esteve aqui no Rio de Janeiro, quando foi a um encontro este ano na África do Sul. Soube que ele vinha com relativa antecipação e fui ao Rio Othon, onde ele estava. Fidel estava sendo recebido pelo governador, não deu naquele momento para a gente se falar, mas logo que ele abandonou a conversa com o governador, me perguntou como estava o livro, eu disse que estava concluído, ''está aqui, comandante, o texto final'', não estava editado, mas era o manuscrito definitivo. Ele perguntou: ''E em espanhol?'' Eu tenho uma editora na Espanha, que vai editar para toda a América Latina, mas mandei o texto para eles traduzirem e vai levar um tempo. Ele me desejou boa sorte, nos despedimos e ficou assim. Até o presente momento não tenho nenhum comentário específico dele sobre a biografia.
CORREIO - Há passagens muito rápidas no texto. Por exemplo, a transição do adolescente para o ativista político na universidade. Isso é decorrência da escassez de informações?
FURIATI - É sim, claro que sim, porque aí exige mais do historiador. Na segunda parte do livro, existe uma gama de referências de fonte maior, quer dizer, pode ser filtrada pela contrapropaganda ou não, mas já existe um certo conhecimento público. O que tentei foi resgatar esses acontecimentos e o fluir da história de Fidel de uma maneira diferente, colocando fatos às vezes desconhecidos, mas de alguma maneira ela já é a história do Fidel no poder. A história do Fidel pequeno, adolescente, essa aventura dessa pessoa que ainda não chegou ao poder e que está em busca dele, essa eu tive que me pegar dando cotovelada com as fontes, porque era difícil e tive que me basear muitas vezes na memória, e memória às vezes longínqua de pessoas que viveram isso há muitas décadas.
CORREIO - Há algum tipo de informação que você não conseguiu levantar?
FURIATI - A parte da vida íntima de Fidel, quer dizer, a vida íntima de Fidel já no poder. Nos pontos em que o livro diz isso, fala do Fidel como uma pessoa que preza muito essa privacidade, e eu reputo isso de muita importância, isso faz com que a própria vida política de ele respire melhor, não fique manchada com facilidade, o fato dele conseguir preservar a vida íntima e compatibilizar o privado com o público. Tentei, da mesma maneira como ele preserva, preservar também.
CORREIO - Mas o livro sugere que ele tem um caso com Célia Sanches, a chefe de gabinete...
FURIATI - É verdade, sim, está dito no livro. Só que está dito de maneira respeitosa, não agressiva, não escandalosa, nada disso. Tentei até incluir esses acontecimentos, esse status do ser humano Fidel no meio do desenrolar da história, não como um capítulo à parte chamando demasiado atenção, grifando esses aspectos. O que está ali de forma contida é propositalmente contido.
CORREIO - Uma biografia não é um pouco o mergulho no lado íntimo, separar o homem do mito e também ver o homem de carne e osso, que se apaixona e se emociona?
FURIATI - Acho que isso está no livro. Foi uma questão que me fiz muitas vezes, durante o processo, exatamente porque era uma biografia, e então como é que eu vou dosar melhor a vida e obra, como é que eu vou fazer isso com esse personagem? São perguntas que me fiz, e faço até hoje quando estou conversando com você. Creio que cheguei a um ponto de harmonia, consegui definir essa pessoa em todos os campos, o afetivo, o familiar, o lado amoroso, o lado das amizades, o lado da política, tudo isso eu acho que está colocado sem priorizar um lado ou outro. No segundo volume, o ser público de Fidel invade totalmente, quer dizer, não invade só para nós, espectadores, invade para ele mesmo, ele se devota a essa missão que abraçou, então a maior parte da vida, ele está pensando nos problemas do país, do mundo, nos problemas do socialismo, no problema da crise cubana, essa é a vida de Fidel, o dia-a-dia dele é assim.
CORREIO - Na sua avaliação, você acha que ele tem consciência das próprias contradições? Por exemplo, se dizer contra o nepotismo e indicar o irmão como substituto, ou anunciar eleições e depois voltar atrás?
FURIATI - Exatamente, essas diferenças, essas tensões, talvez a palavra contradição não seja a mais adequada... porque, por exemplo, Fidel é uma pessoa que calcula o tempo inteiro as ações, mas também é impulsivo. Isso seriam dois opostos, mas esses opostos se complementam, não há uma contradição. Ele consegue conviver bem com esses extremos e os extremos fazem parte do ser Fidel e a propósito eu coloquei essas situações de polarização da própria personalidade dele para que o leitor pudesse ter uma noção de que esse ser humano é um ser humano igual a todos nós, que temos extremos e que extremos que se contradizem ou que se complementam. Fidel não é um ser linear, dentro dele existem tensões e diferenças.
CORREIO - Seu relato diz que Fidel teria assegurado, pouco depois de assumir o poder, que os condenados não passariam de 400. No primeiro ano, foram 150 agentes de Batista aos quais se decretou fuzilamento. Quantas pessoas afinal morreram no Paredão?
FURIATI - Foram 400, exatamente como ele colocou. Os Estados Unidos forneceram muitos dados sobre essa situação ao longo de vários anos. Há uma contradição sobre números muito grande. Depois, há um dado que foram cerca de 15 mil presos naquela etapa de guerra civil em Cuba, que vai de 1959 até 1965, quando se dá a institucionalização do regime. Fidel esboça sua fase robespierriana, tanto que o primeiro capítulo menciona isso (chama-se Ser Robespierre, Danton e Marat, eis a questão), ou seja, ele tentou conviver com essas três frentes, conversando com a burguesia, com pequenos proprietários e ao mesmo tempo justiciando pessoas que estão contra a revolução. Claro que os que viram que já não tinham mais lugar ali foram pouco a pouco se exilando.
CORREIO - Mas não é um contrasenso de Fidel criticar outros regimes que tinham presos políticos, o regime militar brasileiro, o chileno, por exemplo, sendo que em Cuba também existiam presos políticos?
FURIATI - O conteúdo do regime é diferente, ali era uma revolução, uma revolução que estava lutando contra uma ordem anterior e derrubando uma ordem anterior, oligárquica, capitalista, lutando contra os Estados Unidos. O preso político em Cuba é um preso contra-revolucionário, contra essa ordem revolucionária, esse é o conteúdo. Aqui no Brasil os presos políticos eram subversivos lutando contra uma ordem e pela libertação. A revolução cubana servia e se aliou aos grupos que intercediam como libertadores, eles estavam se libertando e se emancipando, aqui os presos políticos eram aqueles que exatamente queriam libertar o país da dominação, há um conteúdo diferente. Quando Fidel critica a existência desses presos políticos, ele está criticando os regimes que foram refletores daqueles grupos que estavam querendo uma representação do domínio norte-americano. É um conteúdo diferente, apenas isso que quero lhe dizer.
CORREIO - Fidel convoca dez mil professores voluntários para ganhar a metade do salário e deslanchar a erradicação do analfabetismo, especialmente nas zonas do interior, em que 40% de uma população de 6 milhões de habitantes não sabiam ler nem escrever. As pessoas se engajaram, os voluntários se apresentaram?
FURIATI - Muitos, no primeiro momento foram dez mil voluntários, distribuídos por várias regiões, alguns foram inclusive para lugares da Sierra Maestra, no interior do país, e o que é muito interessante disso tudo é que é um momento de guerra civil em Cuba. Coincide inclusive com todos antecedentes e o próprio acontecimento da invasão da Baía dos Porcos. Tudo isso é concomitante com a campanha de alfabetização em Cuba, que foi bem recebida. Em questão de um ano, a meta estabelecida de erradicar o analfabetismo foi concluída, não demorou mais do que isto, parece absurdo, mas foi o que ocorreu.
CORREIO - É fato que existem charutos feitos exclusivamente para ele?
FURIATI - Ele já não fuma mais.
CORREIO - Mas havia isso quando ele fumava?
FURIATI - Sim, quer dizer, claro. Ele gostava de Cohiba, basicamente... fumava outros, mas Cohiba era de sua preferência e fumou muito tempo. Há uma parte do livro que conta quando ele decide parar de fumar, atendendo um pedido da OMS (Organização Mundial de Saúde) para ele colaborar numa campanha antitabagista. Não foi um pedido explícito, mas Fidel foi radical, abandonou o charuto, aí deu o exemplo cabal, quer dizer, de que ele estava em prol da saúde da humanidade, deixando de fumar.
CORREIO - O que emociona Fidel, o que o comove?
FURIATI - O que mais emociona Fidel é a sinceridade, a honestidade e a sinceridade, seja de quem for. Seja de uma pessoa de direita, favorável ao neoliberalismo, qualquer coisa assim, seja de uma pessoa de esquerda que queira libertar seu país ou de um camponês, ou de quem quer que seja. Ele é uma pessoa que se comove muito com as referências diretas. Quando alguém o surpreende com uma verdade, com uma audácia de dizer algo que não poderia ser dito, isso o comove, sempre ele ri, quando tem esse momento.
CORREIO - Qual é a situação hoje de Cuba, sem o aporte da União Soviética?
FURIATI - Dois dos anos que vivi lá foram com economia zero. O abastecimento mínimo da população era muito restrito, foi reduzido ao máximo. Os apagões duravam horas e horas. Na agricultura foi preciso se renunciar à energia. A tração animal voltou. Falava-se muito em Cuba de uma opção zero, quer dizer, de preparar a população para nada, não ter quase nada, muito pouco para comer, só o arroz, o feijão. Mas isso foi melhorando, por causa da capacidade da economia cubana de recuperação e isso se deve não apenas às reformas do comércio exterior, com a entrada de capitais estrangeiros principalmente no turismo, mas em outros campos também. Em 1998, já se viam sintomas de melhoria na qualidade de vida, digo, na qualidade da alimentação, porque os hospitais e todas as conquistas que Cuba sempre alardeou - com razão, porque eram conquistas quase de um país desenvolvido no campo social e científico -, aquilo tudo estava indo por água abaixo. Os atendimentos nos hospitais estavam se enfraquecendo e se deteriorando. Tudo isso foi recuperado pouco a pouco. Quando saí, em 1998, vi aquele país se recuperando, não só pelos índices. No próprio dia-a-dia dava para ver essa recuperação.
CORREIO - Mas o turismo em Cuba também colocou a prostituição de volta à ordem do dia. Fidel sabe que as jineteras estão dando sopa por lá?
FURIATI - É, em muitos momentos ele comentou isso, os problemas, o preço que a sociedade teve que pagar, sociedade essa que tinha alcançado um nível educacional e humano bastante alto e que de repente tem que conviver com esses problemas crônicos de uma sociedade com problemas morais de subdesenvolvimento. A prostituição existe, mas ela fica muito visível exatamente porque é na revolução cubana, porque se fosse em algum outro país onde isso é dado como um fato comum e corrente não teria a mesma repercussão. Houve uma visibilidade excessiva do problema e era um problema natural, entre aspas. O turismo sendo incrementado e tão incentivado como foi, alterou o povo cubano de maneira muito forte. Então, fenômeno como a prostituição teria necessariamente que ocorrer.