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JORNAL VALOR
30/11/2001


O MISTERIOSO CZAR CARIBENHO
Carlos Haag

Dans mon île Aos 75 anos, 42 deles como o líder de Cuba, Fidel Castro é o último enigma da Guerra Fria.

"A história me absolverá." Desde 1953, quando Fidel Castro gritou a frase no tribunal que o condenava a 15 anos - não cumpridos - de prisão pela tentativa de derrubar a ditadura de Batista, seus admiradores lutam para dar razão à bravata, enquanto seus detratores o querem enterrado no inferno histórico. Aos 75 anos, há 42 anos no poder em Cuba, barba branca, sem os charutos e, em algumas ocasiões, sem o indefectível uniforme, Castro ainda não ganhou o favor pedido à história. Talvez nem queira mais, preferindo continuar a inflamar - em todos os sentidos - as discussões a seu respeito. A CIA, por exemplo, encomendou há poucos meses uma avaliação médica do "comandante", temerosa da "hiperatividade geriátrica", a mesma que gerou as reformas do velho Mao. Há chances de que o embargo americano a Cuba possa acabar. Fidel, porém, em sua ilha, teima em ser o último enigma da Guerra Fria.

Mas o mistério pode diminuir um pouco com a chegada de novos livros sobre o líder cubano. O mais esperado é "Fidel Castro: uma Biografia Consentida", da jornalista brasileira Claudia Furiati, a ser lançado no dia 10, pela Editora Revan. Dividida em dois volumes ("De Menino a Guerrilheiro" e "De Subversivo a Estadista"), são quase mil páginas de epopéia castrista. "Consentida" porque, embora Fidel tenha aberto seus arquivos para a jornalista, não autorizou a biografia. Entre as muitas novidades, reveladas por meio de pesquisas extensas e conversas com parentes e amigos de Castro, o livro revela que Fidel nasceu em 1926 e não em 27, como se acreditava, já que, em 1941, seu pai falsificou a certidão de nascimento para poder matriculá-lo antes na escola. O outro, abertamente crítico do líder cubano e de seu regime é "A Ilha do dr. Castro" - uma sintomática alusão ao cientista criador de monstros de "A Ilha do dr. Moreau" - da Editora Peixoto Neto, escrita pelos jornalistas franceses Corinne Cumerlato, da "L'Express", e Denis Rousseau.

"Estou tentando situar a revolução cubana na forma em que se desenvolveu, sem julgamento e preservando a sua complexidade. O regime instituído em Cuba é fruto de uma revolução que derrubou uma velha ordem e recriou a nação", disse-me Claudia numa entrevista em maio de 1999, quando elaborava a biografia. "Para viabilizar essa revolução em plena Guerra Fria, foi essencial a colaboração da ex-URSS. Franquear, então, a organização de partidos que propugnassem uma alternativa ao regime cubano era entendido como uma atitude contra-revolucionária. Mas em Cuba não falta liberdade de expressão, nem de pensamento", assegurou. Nem todos concordam com Claudia e ela mesma se questiona se o seu biografado deve ou não ser chamado de ditador. "Em muitos momentos me pergunto isso. Fidel ganhou uma grande autoridade pelo que representou e representa para Cuba. Sua palavra e seus critérios têm influência arrasadora", diz.

"Um cubano, durante uma entrevista, ao lembrar da época de Batista falou 'aquela outra ditadura'. O 'outra', dita de forma involuntária, é a melhor definição do regime de Castro", acusa Denis Rousseau. "O castrismo é acima de tudo um sistema de poder que repousa sobre um objetivo único: a manutenção no poder de um homem e de uma casta burocrática e militar que está totalmente unida ao destino de seu líder", continua o jornalista francês, ex-diretor da sucursal cubana da Agência France-Presse. Fernando Morais, autor de "A Ilha", dá a solução salomônica para o dilema: "Os cubanos que vivem em Miami dizem que sim. Os que estão em Cuba dizem que não".

Seja como for, detratores e admiradores concordam que o embargo dos EUA é um anacronismo. "Só há uma explicação para a manutenção do bloqueio: o eleitorado da Flórida, que concentra algumas centenas de milhares de votos da comunidade cubano-americana", analisa Morais.

"É uma relíquia da Guerra Fria. Para o governo americano, a questão não é vista como um problema de política externa, mas interna. A melhor prova disso é que a lei Helms-Burton, que reforçou o embargo após 1996, tirou da Casa Branca a gestão estratégica de Cuba", faz coro Rousseau. "É um lobby dos exilados cubanos que fazem pressão sobre os candidatos, já que seu financiamento de campanhas faz a diferença entre a vitória e a derrota", completa o francês.

As dificuldades do envio de dinheiro de cubanos nos EUA para a ilha apenas aumenta a situação de penúria que atingiu Cuba após o fim do apoio soviético. "Depois de 1991, o país foi tomado por uma crise tenebrosa e todo o funcionamento da economia foi paralisado ou reduzido drasticamente. Mas Fidel reagiu e pode-se dizer que a situação mais crítica foi superada pelas reformas introduzidas na economia, desde as relações de produção até o comércio exterior", avaliou Claudia. "A polarização anterior em torno da revolução cubana obrigou que todos a vissem como um modelo social a ser imitado ou a ser execrado por ser comunista. Hoje, podemos ver, com mais realidade, os limites e as possibilidades do sistema."

"A modernização da economia é muito relativa. Ela se limita a alguns enclaves dolarizados, em especial o setor turístico. De fato, Castro só consentiu em reformas econômicas na medida em que elas eram necessárias à sua manutenção no poder, algo como um balão de oxigênio da economia, a fim de impedir tensões sociais", rebate Rousseau. "O turismo, aliás, uma das saídas de Fidel, trouxe de volta a Cuba a prostituição e deixou entrar a aids", continua. "O país fez uma inevitável jogada de risco ao se abrir para o turismo internacional, pois eles fizeram renascer a prostituição, atividade que tinha desaparecido depois da revolução. Mas, se não fossem essas divisas, é possível que não tivesse sobrevivido ao fim da URSS e do chamado 'socialismo real'", ressalta Morais.

Outro fator inquietante sobre a ilha é a presença do narcotráfico. Claudia, em 1999, já detectava o que chamou de "problemas sérios de tráfico de drogas em Cuba". "Castro quase foi pego com a boca na botija no fim dos anos 80. Mas se safou acusando o general Ochoa e o coronel Tony de la Guardia de serem os chefes do tráfico no país. Não tenho dúvidas de que o Líder Máximo não apenas estava ciente do narcotráfico como é um principais beneficiários dele", afirma Rousseau. "Mas ele aprendeu a lição e desde 1999 vem propondo uma cooperação antidrogas 'urbi et orbi', em especial com Washington", observa. Morais discorda. "Não conheço outro país em que as drogas sejam reprimidas com tanta dureza."

Mas o maior mistério de Castro é quem vai suceder a ele. "Não tenho dúvidas. A sua sucessão é tranqüila e está definida desde 1959. O substituto é Raúl Castro, seu irmão, atualmente ministro das Forças Armadas Revolucionárias", acredita Claudia. "Em Cuba, muitos pensam que Castro é imortal - como acontece com Roberto Marinho no Brasil. Se de um lado a ausência de alguém com tamanho carisma prenuncia tempestades, por outro é preciso lembrar que aquela é uma sociedade muito organizada", pondera Morais. "O PC cubano - ao contrário do falecido PC da URSS ou do próprio PCB - não é um partido de massas, mas de quadros. No PCC não entra quem quer, mas quem é aceito. E é de lá que sairá, sem dúvida, aquele que substituirá Castro", diz.

Rousseau não tem uma, mas várias hipóteses para a sucessão castrista. "A maior parte dos observadores descarta a chance de um golpe que derrube Fidel, mas eu penso que não é tão impossível que uma revolução palaciana queira, para parafrasear Lampedusa, 'mudar o líder para que nada mude'", analisa o francês. "O cenário ideal seria que Castro aceitasse encaminhar, ele mesmo, uma transição progressiva e não traumática. Mas o Líder Máximo nem quer ouvir falar disso. Então, resta esperar por sua morte", continua. "Parece-me, porém, difícil que Raúl, o sucessor designado, possa se manter no poder por mais que um par de meses. O mais provável é que, após a morte de Fidel, uma junta militar tome o poder. Uma tal estrutura será capaz de controlar os movimentos sociais e políticos que com certeza ocorrerão", diz Rousseau. "Eles serão, também com certeza, obrigados a realizar uma abertura política, seja para se beneficiar de ajuda internacional, seja para receber os investimentos da comunidade de exilados nos EUA, indispensáveis para que o país possa se reerguer e sair da crise."

Enquanto isso, a imagem de Castro ainda mantém uma notável vitalidade de polêmica. Em particular sobre a liberdade. Ou a falta dela. "Uma das muitas dúvidas que me assaltam é se é realmente obrigatório limitar liberdades individuais para obter conquistas tão importantes para uma sociedade. O mais complicado é saber que nenhum outro país pobre conseguiu os indicadores sociais de Cuba. Mas eu não sou cientista político. Sou repórter. Fui lá, vi, contei. Eles é que expliquem isso", fala Morais. "Você me pergunta sobre liberdade. Será que a liberdade - aqui reduzida ao conceito de liberdade política - não teima em ser uma infinita quimera? Eu acho que a revolução cubana foi libertadora e transformadora", acredita Claudia.

"Castro é um ditador da pior espécie, porque ele forçou os cubanos, por meio de uma mistura eficiente de propaganda e repressão, a adotar uma estratégia de sobrevivência, de 'moral dupla' que dissimula os comportamentos. 'De que me vale saber ler e escrever se alguém decide o que posso ler e escrever?', como disse Cabrera Infante", diz Rousseau. Qual será o veredicto da história à afirmativa de Fidel?