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IG Ler
08/12/2001


ENTREVISTA COM CLAUDIA FURIATI


iG Ler- Como você conheceu Fidel Castro? Como surgiu a idéia de biografá-lo?

Claudia Furiati- Tive minha primeira conversa com Fidel em dezembro de 1979, durante um festival de cinema em Cuba. Eu era bastante ligada ao cinema na época, fazia pesquisa para argumento de roteiros.

Fui a Cuba com uma turma de brasileiros, uma das primeiras delegações de brasileiros que foram para lá. Não me lembro do que conversamos, pois nosso contato foi muito breve.

Eu trabalhava no festival de cinema do Rio e passei a ir para os festivais de cinema em Cuba todo final de ano, como ia para outros países, para fazer contatos.

Minha primeira aproximação grande com Fidel foi quando resolvi escrever meu primeiro livro. Isso já foi no início de 1992.

Nesse ano estava em cartaz o filme "JFK", de Oliver Stone, e li algo sobre uma conexão cubana com a morte de Kennedy. Por outros motivos eu estava em Cuba e aproveitei para perguntar para alguns conhecidos a respeito do filme. Um deles era Alfredo Guevara, presidente do Instituto de Cinema, que eu sabia que era próximo a Fidel desde a juventude. Perguntei-lhe por que havia tantos cubanos na cena e fiquei esperando alguns dias por uma resposta.

Foi quando tive meu primeiro contato mais profundo com as instituições cubanas, pois fui atendida por um general da contra-inteligência. Ele me contou o que havia nos arquivos cubanos sobre isso. Eles estudaram muito o que estava por trás das tentativas de assassinato a Fidel Castro e chegaram à conclusão que elas estavam ligadas à morte de Kennedy.

Passei a estudar o assunto, focalizando os atentados relacionados a Fidel. Resolvi escrever um livro e fiquei em Cuba um ano pesquisando. Acabei me encontrando com Fidel uma vez, brevemente. Quando terminei, Fidel leu a obra ("ZR - O rifle que matou Kennedy", Ed. Revan, 1993) e pediu acréscimos. Ele ficou interessado no resultado e a partir daí criou-se um elo.

Comecei a pensar em escrever sobre sua vida, a princípio não uma biografia completa mas um ensaio biográfico, e minha primeira motivação era saber que força evitava sua morte, como ele conseguiu sobreviver a tantos atentados. Logo percebi que teria que escrever mesmo uma biografia, mas não tinha coragem de falar sobre isso com Fidel porque achava que ele diria "não". Fidel sempre foi contra biografias, porque achava que diriam que ele estava querendo se cultuar. Ele tinha uma grande resistência a ser biografado.

Eu não ousava consultá-lo mas tive que fazê-lo e ele, três meses depois, acabou me dando seu aval, abrindo todo seu arquivo secreto, mas sem querer ser biografado. Ele não queria interferir, nem autorizar uma biografia. A solução foi adotar uma definição sui generis, criada por Fidel: a biografia consentida, que ele leria só depois de publicada.

iG Ler- Você foi a primeira pesquisadora a ter acesso aos arquivos dele?

Claudia Furiati- Outros pesquisadores tiveram acesso ao mesmo material, mas sempre fizeram trabalhos específicos. Posso dizer que minha pesquisa é pioneira na extensão, no período que ela abarcou, desde a infância, incluindo toda a memorialística da família. Descrevo a fazenda em que Fidel passou a infância, porque ela foi importante na sua formação, o linguajar rural que ele domina tão bem. Estudo a figura do pai dele, que tem a ver com o jeito paternal com que Fidel lida com o povo cubano. Fiz uma pesquisa minuciosa no arquivo, ficha por ficha, pasta por pasta. Conversei com todas as pessoas que apareceram na documentação e que haviam participado de algum episódio da vida de Fidel. Quem esteve mais próximo dessa documentação, além de mim, foi o jornalista Tad Szulc. Ele fez uma biografia ("Fidel, um retrato crítico") que considero muito boa, mas Fidel criticou-a por achá-la apressada e sem checagem das informações. É verdade que Szulc se fixa em algumas etapas da vida de Fidel, deixando de lado outras que demandariam mais pesquisas, mas acho que o texto é bem resolvido.

iG Ler- Quanto tempo durou sua pesquisa?

Claudia Furiati- Residi em Cuba de 1995 a 1999, quase sem interrupções. Foram praticamente cinco anos dedicados somente à biografia. Evitei escrever o livro em primeira pessoa, ou seja, ele sendo porta-voz de si mesmo. Quis percorrer um campo vasto de documentos e pontos de vista para poder chegar até Fidel, para obter um certo distanciamento, pois eu conhecia meu fascínio por ele e precisava evitar que esse fascínio contaminasse minha pesquisa.

iG Ler- Quais são as informações mais importantes que você obteve nos arquivos?

Claudia Furiati- Acho que a história da relação de Cuba com a África nunca foi contada da maneira como o faço. A autoria do projeto tricontinental sempre foi atribuída a Che Guevara. Trato do papel de Che e de Fidel no empreendimento. Concluo que o cabeça era Fidel, diferentemente das várias biografias de Che, que para mim não explicam o nascimento do projeto. Quem quis exportar a revolução, por meio dessa triangulação Cuba/África/América Latina, foi Fidel. Che foi seu parceiro e embaixador, mas não foi ele que exportou a revolução. Acho que isso fica claro no livro. Dei também bastante atenção à relação Cuba-EUA, tema vasto e sempre atual. Em minha opinião vemos Cuba muito pelo prisma dos EUA. Abordo no livro as tentativas de reatamento, os movimentos de bastidores. Conto a história dessa relação desde o início. Trato com discrição e cuidado da vida pessoal de Fidel, pois ele sempre procurou preservar sua intimidade ao longo de quatro décadas e conseguiu, o que, para mim, é uma vitória pessoal dele. Em suma, posso dizer que o primeiro tomo, que cobre o período de sua infância até a vitória sobre Batista, é bastante definitivo. Já no segundo tomo tive que fazer uma seleção dos temas, para que o livro não ficasse extenso demais. Os fatos mais importantes, como a invasão da Baía dos Porcos e a crise dos mísseis teriam que ser contados inevitavelmente, mas tentei contá-los de maneira diferente, levantando mais dados e contando minúcias.

iG Ler- Você nos contou que durante todo o tempo de sua pesquisa um assessor próximo a Fidel encontrava-a todas as noites e checava as informações colhidas por você junto a outras pessoas, dizendo muitas vezes que aquilo que lhe haviam dito era mentira. Como você conseguiu discernir o que era o correto?

Claudia Furiati- (Risos) É uma boa pergunta. A primeira providência que eu tomava para fazer a filtragem das versões era checar com outras versões, com a documentação escrita, à procura de algo que pudesse me confirmar aquilo. Quem vinha me ver era o comandante Manuel Piñeiro. Na verdade ele tinha o intuito de colaborar. Não era uma coisa ostensiva, no sentido de que ele ia lá para ficar checando. Eu é que perguntava muitas coisas para ele, às vezes ele dizia que aquilo era mentira, mas nunca procurou me induzir.. Às vezes eu até queria que alguém me ajudasse, dizendo: vai para lá, vai para cá (risos). Mas me senti muito livre para escrever. Algumas dúvidas foram tiradas pessoalmente com Fidel. Estive com ele três vezes durante os cinco anos para checar informações.

iG Ler- A vida de Fidel é muito rica, o que se reflete no tamanho do livro: cerca de mil páginas. Qual foi o critério adotado para escrevê-lo? Que aspectos você procurou ressaltar? Não foi possível reduzir o tamanho do livro?

Claudia Furiati- Procurei ir atrás de minha questão inicial: em que momentos a morte o perseguiu? Outro aspecto foi buscar na figura de Fidel a tensão entre o impulsivo e o calculista, a ação e o pensamento, que em minha opinião são extremos que nele convivem, dando-lhe um traço muito raro. É difícil encontrar isso em pessoas que têm algum traço de genialidade: os gênios ou são muito reflexivos ou são pura ação. Quis tratar também da questão do comunismo. Todo mundo diz: Fidel foi comunista o tempo todo. Mas ele não era o comunista clássico. Mostro no livro a tensão com a ideologia e com o partido comunista; o porquê da opção socialista da revolução cubana somente em 1961, mais de dois anos após a derrubada de Batista; o que representou o partido comunista dentro da história cubana; as conspirações contra a revolução e como Fidel costurou as várias forças opostas a Batista, atuando de forma pendular. Essa costura política interna só se deu 5 anos após o advento da revolução. Muitos romperam com Fidel ao entenderem que aquela revolução era uma revolução socialista. Houve uma primeira leva de exílio das pessoas ligadas a Batista, à velha ordem e uma segunda leva, falo a grosso modo, de pessoas que participaram da derrubada de Batista mas que não queriam participar da revolução ou não aceitavam a liderança de Fidel. São pessoas que vivem hoje em Miami, algumas delas são progressistas. Conheci algumas que vêem a situação cubana hoje de modo diferente; entendem que a revolução é um processo que vai caminhando e as modificações podem se dar com Fidel na liderança.

iG Ler- Como é tratada no livro a questão dos intelectuais que deixaram Cuba, o escritor Cabrera Infante, por exemplo?

Claudia Furiati- Não tratei de casos individuais. Mostro que houve duas grandes levas de intelectuais deixando Cuba. A primeira em 1968, após a morte de Che Guevara (outubro de 1967) , quando houve um acirramento da influência soviética. Che representava um caminho diferente, mais independente, e sua figura era um espelho para esses intelectuais. Em 1971, Fidel foi a um encontro na União Nacional de Escritores e Artistas e falou outra vez algo que já havia falado nos anos 60: "Dentro da revolução tudo, fora da revolução nada". Ou seja, ele colocou a revolução como um ente abarcador que estava acima de todos. Muitos intelectuais acharam que isso era uma camisa-de-força muito grande, que era necessário um pouco mais de abertura e foram embora do país. Essa foi a segunda grande leva. Fidel fazia, nessa fase, o discurso da aliança com a URSS, com alguma ambigüidade. Mas ele sempre praticava que chamo de movimento pendular, pois quando sentia que perderia um grupo, tentava adequar o discurso. Ainda assim, muitos intelectuais deixaram o país.

iG Ler- A importância do herói na história foi bastante relativizada pelos historiadores. Até que ponto Fidel Castro poderia ser uma exceção a essa regra?

Claudia Furiati- Essa é uma pergunta difícil. Pois também há o lado do anti-herói. Fidel quer ser o coletivo, assume-o em si. Seu projeto não é pessoal, mas nacional. É verdade que ele é o dirigente máximo, tem grande importância no país, mas ele tenta se autocriticar e negar sua preponderância. Tento mostrar no livro como as forças sociais acompanharam a trajetória de Fidel. Ele não conduziu a história sozinho. Tentei decifrá-lo, mas essa será sempre uma tarefa difícil. Como explicar o enigma Fidel? Ele foi o agente de uma revolução transformadora. Como susbstituí-lo? Impossível. Ele reconstruiu uma nação usando o seu gênio militar, com um grupo de uma dúzia de pessoas. Mas sempre dizia: "É Cuba que está fazendo. Estou a serviço dessa nação, a serviço de um projeto, represento um movimento histórico. Não sou eu que estou aqui". Ele mesmo nega essa função, que ele tem, sim!

iG Ler- É possível haver um "bom ditador", como Gabriel García Márquez definiu Fidel?

Claudia Furiati- (Risos) García Márquez falou isso em um evento pequeno, para os alunos da escola de cinema e acabei revelando no prólogo. Fidel é um democrata sui generis, um "ditador", entre aspas, por ser um ditador humanista. Criou um país para seu povo, sem defender interesses de quaisquer grupos, sem ganhar vantagens pessoais. Sua família foi desapropriada. Há vários fatores que o absolvem de sua grande autoridade. Não o considero um ditador: não há corrupção em Cuba, nem locupletação pessoal, nem desinteresse para com a população.

iG Ler- E a falta de liberdade em Cuba?

Claudia Furiati- A liberdade em Cuba é diferente. Não é verdade que em Cuba não se pode falar. Pode-se opinar, nas assembléias, nos centros de trabalho, criticam-se os projetos do governo que não funcionam. Há enorme participação política, todos são bem formados. O que existe é um partido único, mas isso significa falta de liberdade? Esse foi o modelo adotado para conduzir a revolução. Fidel sabe que qualquer novo partido teria apoio externo. O partido único é uma forma de defesa, de diminuir a influência dos EUA.

iG Ler- E quanto à liberdade de imprensa?

Claudia Furiati- Existe uma deturpação desse assunto. Existe um jornal, que é o porta-voz do governo, o Granma, mas há outros além dele, tanto em Havana como nas províncias. Não se pode dizer que toda a imprensa é oficial. Muitos jornais são porta-vozes de categorias da sociedade, que apóiam a revolução, mas fazem críticas.

iG Ler- É possível fazer críticas, mas em Cuba há presos políticos...

Claudia Furiati- Hoje são muito poucos os presos políticos. Já houve uma época em que eles eram em maior número. Eu menciono as cifras no livro. Hoje eles não estão presos por delito de opinião, mas por terem feito algo contra o regime, como, por exemplo, alguém que faz sabotagem contra hotéis. Aqueles que são presos e condenados são os que organizaram algo contra o regime. Ninguém é preso em Cuba por ter opinião diferente. Mas conspirações contra o regime, com ligação com pessoas de fora, são tomadas como atitudes contra-revolucionárias e são objeto de sanção. Há pessoas que ficam no ostracismo, são pessoas que participaram de algo contra o regime ou quase participaram. Elas recebem algum tipo de punição, continuam trabalhando, mas deixam de fazer parte de uma série de coisas, vivem num limbo político. Essas são as várias modalidades de defesa do regime.

iG Ler- Fidel afirmou, em entrevista a Fernando Morais para a revista "Veja" em 1977, ter cometido erros táticos mas não estratégicos. Quais teriam sido esses erros?

Claudia Furiati- Imagino que se pudesse voltar no tempo ele mudaria sua relação com as guerrilhas na América Latina. Também a relação com a URSS, sobretudo no campo econômico. Ele adotou modelos de desenvolvimento (o modelo agrário-exportador) que poderiam não ter sido adotados. Teve que abrir mão de algumas coisas, pois o apoio soviético e a conseqüente dependência econômica eram muito grandes. Ele não abriria mão da aliança com a URSS, mas talvez procurasse manter uma relação econômica diferente. Ainda assim, nenhuma nação que adotou o modelo de exportação dependente realizou tantos programas sociais ou atingiu o mesmo patamar de desenvolvimento científico. Abdicar de uma política industrial foi um erro tático, mas Fidel achou que para avançar teria que vender açúcar para a URSS. Che Guevara não concordava com essa política econômica, mas na época ela era gerida por pessoas muito ligadas ao modelo soviético e ele teve que aceitar. Há toda uma problemática da política interna de Cuba que deve ser levada em consideração. Na questão da relação com as esquerdas, da luta armada na América Latina, o próprio Fidel dizia que era algo muito difícil. Ele tentou segurar Che, não queria deixá-lo ir para a Bolívia. Fidel achava que não daria certo, como não deu mesmo. Mas Cuba investiu muito no apoio à libertação latino-americana pela luta armada e morreu muita gente nisso.

iG Ler- Seu livro procura mais apresentar fatos que fazer uma análise da trajetória de Fidel. Por que você adotou essa postura?

Claudia Furiati- Tentei apresentar a vida de Fidel de forma límpida, sem interferências, preservando a complexidade das coisas. Não quis analisar, nem comentar, a não ser alguns aspectos que facilitassem a interpretação do leitor, sem dar a minha.

iG Ler- Quando você escreve (Tomo II, p.123) que Fidel tinha o corpo fechado e por isso escapou de inúmeros atentados, não está colocando o sobrenatural como um agente da história? Claudia Furiati- (Gargalhadas) Foi uma licença de estilo. Esse mote ainda me intriga, mesmo depois de concluído o livro. Ainda fico intrigada com essa imunidade do Fidel. Há realmente (risos) algo de inexplicável nisso. É muito difícil explicar como ele escapou da morte tantas vezes. (Uma informação para o leitor: a contra-inteligência de Cuba contabilizou 637 tentativas de assassinato, entre projetos e operações desenvolvidas e abortadas, contra a vida de Fidel até 1997).

iG Ler- Cada vez mais jornalistas têm escrito livros de história no Brasil. Quais são as diferenças entre um livro de história escrito por um jornalista e um escrito por um historiador?

Claudia Furiati- O bom historiador tem mais carinho com os dados, confronta documentos, se dá mais tempo para a pesquisa. Ele é um garimpeiro de dados. O jornalista tem, geralmente, mais pressa, menos compromisso com a pesquisa e mais preocupação com a forma final. Naturalmente há jornalistas muito sérios no trabalho com a informação, mas a atividade jornalística é mais imediatista. É verdade que o exercício constante da escritura por parte dos jornalistas torna seu texto mais atraente. O primeiro tomo de meu livro tem um tratamento mais literário, baseado na memória das pessoas e a construção é mais romanceada porque havia menos fatos para contar. Já o segundo tomo é mais jornalístico pela própria obrigação de relatar muitos fatos e tive que tornar o texto mais fácil de ser lido, menos pesado.

iG Ler- Qual é o seu próximo projeto?

Claudia Furiati- Depois de fazer esse livro é muito difícil pensar em outra coisa. Primeiro preciso saber como será a repercussão do lançamento, ele será publicado em vários países. Já há traduções contratadas para publicação no primeiro semestre de 2002 em espanhol, italiano e alemão e estão em negociação as traduções para o inglês, francês, russo, grego e japonês.