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GAZETA DO POVO [Curitiba]
13/01/2002 - domingo


FIDEL CONTRA O ESPELHO
Marcos Zibordi

Cuba é a maior incógnita da América. A ilha do Caribe localizada a menos de 150 quilômetros dos Estados Unidos - os donos do mundo - é um nó que separa não só os dois lados geográficos, mas históricos do continente. Único país a fazer e manter uma revolução verdadeiramente nova, convive com uma embargo que é tão antigo quanto a tomada do poder pelos guerrilheiros da Sierra Maestra em 1959. Ao Sul do continente, seus líderes não conseguiram ver concretizado - e talvez nem vislumbrado - o sonho de uma revolução cuja pátria seria o Terceiro Mundo.

Após a morte de Che Guevara na selva boliviana, sobrou o ícone Fidel Castro, um dos mais importantes personagens do século 20. Não é sem tempo, portanto, que a sua biografia fosse realizada. Ela, assim como todo o processo cubano e latino, é intrincada desde a autorização. A biógrafa, a brasileira Cláudia Furiati, teve uma concessão de Fidel para escrevê-la. Mas não ocorreram longas e várias sessões de entrevistas com o comandante, como era de se esperar num trabalho assim. Argumentando ser contra o culto à personalidade, Fidel parou quatro vezes para conversar com a autora, que permaneceu nove anos em Cuba.

No entanto, ela teve acesso aos arquivos secretos do líder, guardados numa discreta casa. Daí a concessão, que autoriza as quase mil páginas - em dois volumes -, simplesmente porque trata-se de material inédito e, principalmente, porque a história de Fidel, após a revolução, é a própria história de Cuba.

Fidel Alejandro Castro Ruz nasceu em 1926 (ou 27) em Birán, numa família numerosa, cujo pai era um rico latifundiário cubano. Na época, a ilha era uma espécie de curva de rio, local em que vão parando tranqueiras e destroços. Lá se hospedavam ex-ditadores em exílio ou em férias permanentes (o que dá no mesmo), traficantes, e existiam cassinos e uma enorme rede de prostituição. Um local que justificava a denominação popular de "casa da sogra".

Após estudos na escolinha da fazenda do pai, ele segue para Santiago de Cuba e, depois, para a Universidade de Havana. Neste momento - em mentalidade bem ao estilo do país -, o principal argumento de qualquer líder era, antes de um bom discurso ou ideologia, uma arma de fogo. As coisas eram, sem exagero, decididas à bala.

Fidel, o jovem voluntarioso e campeão esportista (principalmente basquete e baseball), já havia aprendido a manejar alguns fuzis na fazenda, e não demorou a ter também uma arma sempre carregada na cintura. Não era moda, mas necessidade.

De líder estudantil e candidato a deputado, as coisas começaram a tornar-se realmente perigosas quando Fidel e seu grupo decidiram atacar o quartel de Moncada, em 1952. Frustrada a operação, o ditador Batista voltaria ao poder e os invasores seriam exilados no México. Lá, conheceu o revolucionário argentino Che Guevara, com quem estabeleceria amizade e traçaria planos. A decisão foi voltar para Cuba num iate com capacidade para 25 pessoas. Oitenta e dois guerrilheiros embarcaram, mas apenas 12 chegaram a Sierra Maestra, núcleo central da revolução. Aqui começa a parte incrível da história porque, dessa dúzia, surgiria um exército que, dois anos depois, venceria 80 mil soldados e tomaria definitivamente o poder. O primeiro tomo de Fidel Castro - Uma Biografia Consentida (Revan, Tomo I, 576 páginas; e Tomo II, 480 páginas, R$98) relata esta parte da história, até 1959.

Praticamente tudo o que se trata até ali é inédito, com uma quantidade impressionante de fotos (250 nos dois volumes), e a vida praticamente desconhecida de Fidel até antes da tomada do controle da ilha. A história posterior, apesar de ser mais conhecida pelo mundo, é pontuada por alguns esclarecimentos importantes da autora e outros itens que ela, subliminarmente, procura comprovar.

Furiati mostra que Cuba, ingenuamente, serviu de massa de manobra da União Soviética em 1962, na chamada Crise dos Mísseis, quando o mundo prendeu o fôlego ante a possibilidade das potências dispararem suas armas nucleares. Era o começo do relacionamento entre a ilha e a então superpotência comunista que, conforme se infere nas entrelinhas, tornaram-se aliadas mais por questões de estratégia geopolítica do que propriamente por uma prévia orientação socialista nos planos dos revolucionários.

Outro fato no qual a autora insiste com bastante habilidade é o de que parte do insucesso da política implementada em Cuba se deve não só ao embargo dos Estados Unidos, mas pela corrupção no governo e uma colaboração pouco entusiasmada da população nos sacrifícios propostos pelo Comandante.

Para o mundo, a história da ilha, da revolução até a atualidade, ficaria praticamente reduzida aos problemas que se agravaram e aos embates com o "Grande Irmão" do norte. Mas a autora mostra um Fidel obstinado pela revolução da pátria terceiro-mundista, financiando, armando e enviando homens para guerrilhas na África (principalmente Angola) e América Latina (inclusive Brasil, através de Mariguela, relação pouco explorada na biografia).

Para quem acha que só em Cuba há prostituição, drogas, comércio paralelo e ilegal e planos econômicos que não se concretizam, a biografia vale para saber, através de Fidel, como se deu o processo. E a questão final não é se a História absolverá Fidel ou não. É se a História absorverá o exemplo cubano, sem filtros nem embargos, com suas glórias e desastres. Em seguida, entrevista concedida via e-mail por Cláudia Furiati.

Caderno G - Apesar dos 40 anos da Revolução Cubana, não lhe parece que a história se passou muito rápido?

Cláudia Furiati - Foi mesmo breve o tempo para que todo o projeto revolucionário se realizasse. Mas sonhar vale a pena, mesmo que os sonhos sejam como cometas... Uma grande transformação interna ocorreu em Cuba em quatro décadas - social, política, econômica e cultural. E, afinal, só não se pode dizer que a revolução se concretizou em tão pequeno "tempo histórico", porque ela é um processo, é movimento, sempre com novas circunstâncias e realidades.

Já nos primeiros anos, a partir de 1959, extinguiram-se os latifúndios, as oligarquias, rompeu-se a dependência estrutural dos Estados Unidos, anularam-se as desigualdades sociais, emanciparam-se os trabalhadores, valeram os direitos sociais, fundou-se uma nação. A própria revolução sai de um projeto original, nacional-reformista-popular, para estabelecer o socialismo. Todo um sistema caiu por terra e foi preciso construir outro, um novo país - o que se fez. Três décadas depois, quando estado e sociedade cubanos se assentavam, confrontando-se com suas virtudes e seus problemas, um possante fator externo - a queda do bloco socialista e da União Soviética - apresentou-se para fazê-los ruir por inteiro.

Na ameaça de caos, experimentou-se um novo projeto, o qual - espera-se - não venha a alterar os alicerces do socialismo cubano. De certa ótica, nesses poucos quarenta anos, inscreveu-se, em síntese, grande parte dos tópicos da história moderna e contemporânea.

- Na sua opinião, os esforços revolucionários não alcançaram maior êxito em Cuba por causa da ingerência e corrupção de alguns setores do governo, aliada a uma certa displicência da população em acatar a dificuldade do planejamento econômico-social?

- Fidel, em seus anos de proselitismo pelo país, falando ao povo, agenciando o projeto de transformação, apontou, sempre, ingerências indevidas, displicências e formas de corrupção no trabalho, na administração e no governo, tratando de corrigi-los, combatê-los, mantê-los sob controle num sistema em construção. Eram, portanto, dificuldades, mas não foram obstáculos para a implantação da revolução no campo da educação, da saúde e da ciência. Não impediu que o cubano reconquistasse cidadania e dignidade humana. Como adendo, é preciso ficar claro que, diferentemente do que ocorreu na URSS, um dos aspectos que sustentam o regime cubano é a ausência de corrupção nos altos escalões do governo e do partido.

- Comente a relação de Cuba com a URSS, seu livro defende a tese de que o alinhamento se deu mais por contingências do momento político do que por uma opção que existisse previamente?

- Há que fazer ressalva ao termo "alinhamento", tal como está sendo usado. Cuba tornou-se aliada da URSS e abraçou a plena colaboração dos soviéticos após uma seqüência de pressões norte-americanas. Em contingência de guerra fria, a forma como se deu a aliança com a URSS foi gradativa, como resultado de uma estratégia de Fidel. E mesmo quando Cuba adotou várias premissas do modelo soviético, permaneceu ciosa de sua soberania política, visivelmente no campo externo. Decisões de política externa, como o apoio à luta de emancipação no Terceiro Mundo, eram autônomas, não responderam a um "alinhamento" com a URSS.

- Como você avalia esta relação? Se por um lado houve aporte econômico e acordos comerciais vantajosos, por outro Cuba foi usada como massa de manobra pela URSS, como no caso da Crise dos Mísseis. Afinal, foi um erro ou um acerto?

- Ao propor a instalação de plataformas com foguetes em Cuba, em abril de 1962, havia a premissa - em Nikita Krushov, o máximo dirigente soviético - de poder vir a negociar a retirada dos mísseis norte-americanos e da Otan instalados na Turquia e na Itália, como se soube posteriormente. Sendo assim, Cuba foi usada como objeto de manobra sim, mas havia também a informação - por parte dos soviéticos -, de que se organizava uma invasão norte-americana a Cuba. Como existiam permanentes agressões norte-americanas ao país, a instalação das bases serviria como defesa.

A relação entre Cuba e URSS foi solidária e fraterna - sem o apoio soviético, Cuba não poderia ter alavancado seu programa social -, mas seu nascimento (primeira metade dos anos 60) deu-se num quadro de "pacto de potências", de frágil "equilíbrio" e de divisão do mundo em áreas de influência. A URSS tentava um melhor ganho na "correlação de forças" com os EUA. Eram condições históricas, não houve erro, nem acerto.

- Para você que viveu muitos anos em Cuba e pôde vivenciar a ilha para além dos documentos, como a população avalia atualmente a administração do Comandante? Os cubanos estão felizes em seu país?

- O cubano tem o sentido da pátria. Sente-se dono do país. Se o momento de crise, após 1991, acentuou aflições e individualismos - pelas carências -, os cubanos crêem que seu líder e parceiros de governo estão guiando as resoluções da melhor maneira. Os cubanos não estão distanciados: acompanham, discutem e participam dessa difícil situação no dia-a-dia - essa luta é uma forma de felicidade. Quando perguntados, respondem que não desejam ver seu país entregue a interesses alheios.

- A figura de Fidel se confunde com a representação simbólica do próprio país. Você acredita ser possível que Castro passe a outro a direção da ilha e, caso isso aconteça, quem teria o mesmo apelo de figura pública e revolucionária que ele? Ou seja, há alguém que possa substituí-lo?

- Não há quem possa substituir Fidel. Sua importância na história de Cuba se eternizou. Penso que, mesmo na sua ausência, sua marca estará presente. E, provavelmente, os outros que virão - porventura figuras que já desempenham cargos no governo - traduzirão, à sua maneira, a obra de Fidel.

- Você considera ditatorial a administração de Fidel em Cuba?

- Considero-a democrático-revolucionária, o que lhe acrescenta pincéis de enorme autoridade, como figura máxima de um Parlamento Nacional e de um partido comunista, há muitos anos. Conceitos, como democracia ou ditadura, só ganham significado a partir do conhecimento dos contextos históricos aos quais se pretende aplicá-los.

- Você imagina ser possível o êxito de uma revolução armada nos dias de hoje na América Latina? Em qual país ela poderia eclodir?

- Mesmo se pensamos em situações nacionais explosivas, como Argentina e Colômbia, em diferentes níveis, os países requerem hoje a intermediação das instituições e lideranças para solucionar os conflitos. E como faltam boas lideranças... Pensando bem, quem sabe não seria possível ocorrer uma revolução armada mais acima, nos Estados Unidos?