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ISTO É GENTE
DIVERSÃO E ARTE
28/01/2002
FIDEL CASTRO - UMA BIOGRAFIA CONSENTIDA
Cristian Avello Cancino
Historiadora brasileira revela a vida do "comandante"
Os dois volumes de Fidel Castro - Uma Biografia Consentida (Revan, R$ 54 e R$ 46) têm histórias que nem mesmo Ian Flemming, o criador de James Bond, poderia imaginar. Elas se referem às mais de 600 tentativas de assassinato sofridas por Fidel, boa parte orquestradas pela CIA, a agência de inteligência norte-americana. Numa delas, Fidel, em visita ao Chile no início dos anos 70, seria morto com um projétil disparado por uma máquina fotográfica. Contando com a sorte, Fidel não viu seu fim porque seu algoz perdeu o vôo para Santiago. Essa história é apenas um dos motivos que tornam a leitura dos dois calhamaços (são mais de mil páginas), escritos pela historiadora carioca Claudia Furiati, irresistível. O principal deles, entretanto, é a precisão com que a autora enumera os detalhes do período pré-revolucionário, incluindo aí a vida do Fidel Castro criança e adolescente. O homem que, ao lado de Che Guevara e Camilo Cienfuegos, deporia o ditador Fulgencio Batista em 1959 era um menino que apedrejava a escola da irmã quando ela era reprimida pela professora e, ainda, praticava tiro ao alvo nas galinhas da fazenda onde morava.
Furiati escreveu uma espécie de testamento para o autor da frase "a história me absolverá". Às vezes toma partido e consente com a historiografia oficial de Cuba - o livro foi escrito durante dez anos e sua maior referência foi a Oficina de Assuntos Históricos do Conselho de Estado de Cuba, nunca aberta a pesquisador algum. Assim mesmo, a biografia revela um Fidel desconhecido e é obrigatória para quem quiser entender um dos períodos mais importantes da recente história latino-americana. Fidel por trás das barbas
PING PONG
CONFIDENTE DO DITADOR
Cristian Avello Cancino
Claudia Furiati, autora da primeira grande biografia sobre Fidel Castro, teve acesso irrestrito aos arquivos do líder cubano, privilégio inédito para um pesquisador estrangeiro. Ela ganhou a confiança de Fidel após publicar o livro ZR - O Rifle Que Matou Kennedy, que esmiúça o que o serviço secreto cubano sabia sobre o assassinato de JFK e como isso poderia se relacionar com os complôs que a CIA armava para matar Fidel. A escritora falou à Gente sobre seu envolvimento com o "comandante".
Qual foi a reação de Fidel Castro ao saber que você escreveria a biografia?
Manhosa. Ele havia dito que não queria ser biografado, mas abriu seus arquivos, franqueou meu acesso à sua vida e obra. Colocou-me em uma espécie de limite, mas hoje entendo que ele sabia que eu chegaria ao fim.
Ele já leu o livro?
Entreguei-lhe os originais em português, quando ele passou pelo Rio, em fins de agosto passado. Enfim, não sei se já pôde ler com uma tradução feita por lá ou se vai esperar por um exemplar em espanhol que deve sair em três meses.
Houve momentos em que ele se recusou a falar de algum assunto?
Recusava-se a falar sobre sua vida particular. Quando pude me encontrar com ele, poucas vezes, mais que esclarecimentos, o que eu buscava pescar era o seu modo de ser e de pensar.
A vida íntima de Fidel foi pouco explorada. Foi opção sua ou imposição dele?
As duas coisas. Optei por abordar a sua vida íntima de maneira leve, com os dados que tinha ao meu dispor e com reflexões pessoais -- até por saber, previamente, da dificuldade que teria em explorá-la.
Hoje em dia, onde e como vive o líder cubano?
Simples, sem mística. A vida de Fidel divide-se entre seus afazeres de chefe de um regime revolucionário, que lhe tomam a maior parte do tempo, e o pouco tempo para a casa, a mulher que ama e a família.