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O GLOBO
PROSA & VERSO
09/03/2002
AURA DE REVOLUCIONÁRIO
Mônica Lessa
Segundo Littré, a biografia é "uma espécie de história que tem por objeto a vida de uma só pessoa". Segundo o Aurélio, é a "descrição ou história da vida de uma pessoa". Já para os historiadores, por muito tempo, o gênero foi considerado um campo da história que se avizinhava da literatura, pois seu objeto de estudo implica construir a investigação e a trama em torno de um único personagem; priorizar o cronológico em detrimento das estruturas; eleger como cerne desse tipo de trabalho os grandes homens em detrimento das massas; reverenciar ou cultuar mitos. Sobretudo a partir da criação da "Ecole des Annales", a história passou a testar novos procedimentos de pesquisa, a descobrir e a incorporar novos campos de interesse, a priorizar as estruturas em lugar do cronológico e do factual, as massas aos heróis. Enquanto isso, a biografia era acusada de permanecer insensível a tais mudanças. Nas últimas décadas, porém, refinou seus métodos e ampliou seu campo de estudo revelando toda a riqueza desse tipo de trabalho.
A biografia de qualidade, aquela que possui lastro por iluminar a história com novas interpretações, é sempre um contributo de peso para o ofício do historiador e um produto cultural inestimável para o leitor exigente. Este é o caso da obra da jornalista e historiadora Claudia Furiati. Dividida em dois volumes - o primeiro dedicado à vida de Fidel Castro desde a infância até a derrubada do governo Batista, e o segundo dedicado à sua trajetória de estadista - a obra é fruto de nove anos de pesquisas em arquivos cubanos, públicos e privados, hemerotecas e inúmeras entrevistas. Trabalho incontornável para quem se interessa pela revolução na ilha ou pela trajetória de Fidel Castro ao longo desses 42 anos de regime socialista, tem ainda o mérito de ser a primeira biografia brasileira sobre o líder cubano.
O plano da obra de Furiati é tradicional, seguindo uma narrativa orientada pelo cronológico e pelo factual. É inteligente, incorpora múltiplos depoimentos que pontilham todo o texto enriquecendo com informações e detalhes o relato da autora. É sólido, apóia-se em fontes primárias variadas e reproduz inúmeros documentos que balizam a evolução da cena política cubana assim como a arquitetura do projeto político de Castro e de seus seguidores desde os primeiros anos de militância. O resultado é um texto coerente, bem escrito e esclarecedor tanto sobre a vitória da revolução quanto sobre a continuidade do regime socialista cubano.
Furiati descreve com grandes pinceladas a Cuba pré-revolucionária, a situação econômica do país antes de 1959, a luta dos opositores aos regimes corruptos e subservientes aos Estados Unidos, a violência do jogo político cubano, a formação e a luta dos militantes contemporâneos de Castro. Descreve minuciosamente, e entrelaça com desenvoltura, a história da revolução com o cenário internacional: a Guerra Fria, o ideal internacionalista simbolizado em homens como Che Guevara, a simpatia e a solidariedade de vários líderes e intelectuais latino-americanos e europeus, a política externa multilateral, a relação privilegiada com Moscou, a exportação da revolução, e a resistência anticastrista financiada pelos EUA desde os anos 50.
Consciente dos perigos que ameaçavam a revolução, Castro escreve no "Segundo Manifesto do 26 de Julho": "Na revolução, disse Martí, os métodos são secretos e os fins são públicos". Em 1958, após bombardeios aéreos financiados secretamente pelo governo Eisenhower (muitos com bombas de napalm), Castro escreve em carta endereçada a sua companheira: "Célia, quando vi as bombas que jogaram na casa de Mário, jurei que os norte-americanos vão pagar bem caro o que estão fazendo. Quando esta guerra acabar, começará para mim uma guerra bem maior e mais longa: a guerra que vou levar contra eles. Dou-me conta que este será o meu destino verdadeiro".
Furiati elenca então os interesses econômicos americanos em Cuba e a estatização dos mesmos; descreve o esforço do governo dos EUA em apoiar Batista e, em seguida, patrocinar um golpe militar, e, por último, enumera os inúmeros complôs, atentados, campanhas anticubanas, tentativa de invasão da ilha, bloqueio econômico e financiamento dos grupos anticastrenses baseados em Miami. O divórcio entre as antigas elites econômicas aliadas aos grandes grupos americanos e a revolução é, para Furiati, a mola propulsora da nova política externa dos EUA para Cuba. Consciente de que a revolução cubana não era uma revolução comunista, mas pressionado pelos grupos expulsos da ilha, o vice-presidente Nixon teria negociado o apoio de poderosos lobbys em troca de votos e influenciado o Presidente Eisenhower a traçar uma política externa de combate e não de negociação.
Acusada pelos americanos de ter um regime antidemocrático e vitimada por um boicote econômico, Cuba aproxima-se da URSS visando a vantajosas parcerias econômicas e apoio militar. Ao mesmo tempo, é elaborada uma política externa multilateral e uma "política de exportação" da revolução. Para uma testemunha da época, o jornalista Robert Taber, "a revolução, personificada em Fidel, é antes de tudo a declaração de independência em relação aos EUA".
Elevada à estatura de Estado independente, Cuba passa a ser peça fundamental no xadrez da Guerra Fria. E são instrutivas as passagens referentes ao papel da CIA no combate a Cuba, pós 1959. Por exemplo, nos anos 60, com plenos poderes de ação, a agência americana elaborou os mais grotescos planos para desmoralizar Castro: uso de uma substância parecida com LSD a ser vaporizada no estúdio de uma rádio americana, spray para a queda definitiva da barba de Castro, "contaminação de charutos de sua preferência para abobá-lo em público" etc.
Preocupado em assegurar a continuidade do processo revolucionário, Castro indicou em 22 de janeiro de 1959 seu irmão Raul como seu sucessor. Não por nepotismo, garantiu Castro, mas porque Raul "possui qualidades suficientes para me substituir". Foi assim decidido o critério de sucessão do poder revolucionário, reafirmado há poucas semanas por Castro. Se Furiati tivesse ousado discutir a longa permanência de Castro no poder e os descontentamentos dos opositores do regime, sua obra teria contribuído mais para o debate dos processos democráticos nos regimes socialistas. Talvez este seja o limite de uma biografia consentida. É pena, pois aprendemos com sua bela biografia muito mais do que a história de uma vida.
Furiati nos ensina a compreender como a vitória da revolução cubana recupera e apóia-se em um legado comum da nação, um patrimônio histórico e cultural cubano encarnado por José Martí. Pois como ignorar a influência do nacionalismo martiano reinventado por Castro e seus companheiros de luta, homens e mulheres de diferentes extratos sociais, com diferentes matizes políticos, mas unidos em torno de um projeto de nação baseado na justiça social e na solidariedade? Basta ler o "Primeiro Manifesto do 26 de julho ao Povo de Cuba", redigido e impresso no exílio mexicano, em 1955, e distribuído em 16 de agosto do mesmo ano, em Cuba, à ocasião do aniversário de morte de Eduardo Chibás (antigo correligionário e líder político do Partido Ortodoxo cujo emblema da campanha para presidente era uma vassoura contra a sujeira e corrupção dos políticos cubanos no poder): "Ou conquistamos a Pátria a qualquer preço, para que se possa viver com decoro e honra, ou ficaremos sem ela".
O manifesto anunciava reforma agrária, industrialização planificada, rebaixamento dos aluguéis e ascensão do inquilinato à propriedade dos imóveis alugados, moradias populares, extensão da cultura, reestruturação do Estado, confisco dos bens adquiridos ilegalmente, supressão da pena de morte etc. Para terminar, Castro declarava : "Pensamos, como Martí, que o verdadeiro homem não olha de que lado se vive melhor, mas de que lado está o dever".
Para um leitor atento, entre as muitas informações disponíveis sobre esses 42 anos de história cubana que se confundem com a história de Fidel Castro, fica clara a adesão dos cubanos a esse "plebiscito diário" que faz uma nação. Fica clara a coragem desse povo e de seus líderes. E a coerência e fidelidade de Castro a um projeto de nação anunciado desde seus primeiros anos de militância política, desde então inspirados em José Martí. "As nações não são algo eterno. Elas começaram; elas acabarão. (...) Mas esta não é a lei do mundo em que vivemos. No momento presente, a existência das nações é boa, e até necessária. Sua existência é garantia da liberdade que estaria perdida se o mundo tivesse apenas uma lei e um Senhor", proclama Ernest Renan em sua célebre conferência de 1882 que parece talhada para um discurso de Castro. Em viagem aos EUA, em 1955, Castro discursou para os exilados cubanos em Nova York: "Em outras ocasiões já usei este exemplo: o homem que se enamora de uma mulher bela e virtuosa, que a quer com toda a sua alma, seria incapaz de vendê-la e explorá-la, não quer sequer que a olhem ou a ofendam... Assim, temos a santa idéia da Pátria! É antes de tudo uma revolução moral! Estamos levantando a trincheira de idéias, mas também a trincheira de pedras".
MÔNICA LESSA é professora do departamento de História da Uerj