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Jornal do Commercio,
Rio de Janeiro, 29/12/02



Claudia Furiati, a determinação em pessoa
José Louzeiro

Conheci a escritora através de seu marido, o cineasta Nei Sroulevich. Certa vez, início da década de 90, nos encontramos em Havana, num festival de cinema, quando ela já pesquisava a vida de Fidel Castro. Mais adiante, nas vezes em que estive no apartamento de Nei, para tratarmos de assuntos relativos a filmes, lá estava Claudia, adorável anfitriã, sem denotar qualquer preocupação com pesquisas e dúvidas sobre o que ouvira de certos entrevistados.

Jamais falou comigo a respeito do seu trabalho. Nei é que comentava, de vez enquanto, sobre a extensão da obra e do amontoado de papéis e disketes sobre a mesa da autora. Entre surpreso e feliz, avaliava: quando publicado, "o livro será um volumaço". E acertou: os dois tomos somam 1.072 páginas.

Indiferente à pré-divulgação da obra que, silenciosamente, arquitetava, Claudia só tinha uma preocupação: aprimorar a metodologia do que fazia, a fim de que, sobre suas informações, não viessem a pairar dúvidas. Mas, claro está, sua pesquisa de campo foi permeada de obstáculos pois, se encontrou muitos cubanos que demonstravam a maior boa vontade em ajudá-la durante as inúmeras entrevistas que fez, em Havana e arredores, havia aqueles que, extrovertidos, dissertavam com a maior cara de pau a respeito do que pouco ou nada sabiam.

Quando Claudia dispôs-se a reunir elementos para a biografia de Fidel Castro, um dos personagens de maior destaque do século 20, vinha de uma outra obra que dera o que falar: ZR, o rifle que matou Kennedy. Com esse livro Claudia Furiati lançava luzes sobre o assassinato do presidente norte-americano e mostrava até que ponto ia a desfaçatez dos dirigentes da CIA e de seus cúmplices, no sentido de envolver cubanos fidelistas, na monstruosa façanha, coisa típica do cinismo capitalista.

Agora, com Fidel Castro – Uma biografia consentida, a autora revoluciona o gênero, se considerarmos que, ao retratar o guerrilheiro que derrotou a sanguinária ditadura de Fulgêncio Batista mostra, com riqueza de detalhes, como ele e companheiros, entre outros o legendário Che Guevara, transformaram Cuba num país digno de respeito e admiração.

Tomada pela mesma força que levou o jovem Fidel a liderar uma revolução socialista, nas barbas do Tio Sam, Claudia Furiati foi fundo na sua proposta, sem concessões ou provocações que sinonimizassem com sensacionalismo. De outra parte, em nenhum momento procura endeusar os que se concentraram em Sierra Maestra, já em confronto aberto com as tropas de Batista. Os próprios personagens é que se projetam, após uma sucessão de prisões, torturas e humilhações nos cárceres de Batista e, também, nas prisões mexicanas, por onde Fidel e Guevara passaram.

A lucidez e isenção com que Claudia marca este seu longo e admirável trabalho, primeira obra de peso publicada em língua portuguesa, no ano 1 do século 21, aproxima-a de uma outra autora que encheu a cena durante a segunda metade do século passado: Simone de Beauvoir. A par dos muitos livros que escreveu, um se destaca: a sofrida e apaixonante biografia intitulada A cerimônia do adeus, onde relata os dez últimos anos de vida do seu companheiro, o também "rebelde parisiense" chamado Jean-Paul Sartre, que teve a audácia de recusar o Prêmio Nobel de Literatura (1964), além de escrever o Furacão sobre Cuba", em homenagem a Fidel Castro, Che Guevara e a todos os componentes do contingente libertário.

Na mesma linha, vale lembrar uma outra afinidade de Claudia Furiati: com Rauda Jamis, autora do estudo a respeito da "mulher mistério" Frida Kahlo. O método analítico de Claudia está muito próximo, ainda, de outros três renomados biógrafos: Peter Gay (Freud, Uma vida para o nosso Tempo); Ernst Pawel, que consegue iluminar o mundo sombrio de Franz Kafka em "O pesadelo da razão", e Li Zhisui, com A vida privada do camarada Mao, obra-prima no gênero.

Fazer biografia, principalmente com o personagem vivo, não é coisa fácil. Se por um lado o levantamento de dados e material iconográfico torna-se menos problemático, há que considerar limitações do tipo: "disso e daquilo, o biografado não gostaria de falar". Ou, o que é pior: o biografado sentir-se no direito de minimizar fatos que o envolveram e foram polêmicos ou até de "preferir esquecer" uns tantos outros por questão de conveniência. Claudia Furiati venceu essas barreiras.

Consciente de seu ofício ela se mantém informante isenta dos tumultuados fatos que resultaram na derrocada de uma ditadura patrocinada pelos Estados Unidos, a fim de que Cuba se mantivesse, através dos tempos, como simples bordel dos americanos ricos. Queriam transformar a Ilha em um novo Haiti. Um dos mais imponentes edifícios da capital cubana, no "reinado de Batista", era o cassino Habana Libre, do mafioso Dom Corleone, tendo como gerente o ex-boxer campeão do mundo Luc Marciano. Acontece que Fidel Castro fez Cuba ressurgir das cinzas e se tornar um país independente e de moral elevada, como almejava que assim fosse o poeta Jose Martí.

Há que destacar, também, no trabalho de Claudia Furiati, a fluidez narrativa que consegue dar à sua monumental obra. Longe da "estética dos historiadores oficiais", se assim posso dizer, utilizou-se de uma linguagem simples e muitas vezes coloquial, como se estivesse escrevendo um romance, povoado de bravos guerreiros, como nos tempos das transcendentes epopéias que, sabiamente, Homero recolheu em obras imortais como a Ilíada e a Odisséia.