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Folha de São Paulo - Caderno Mais - 23/set/2003
A
moral do fracasso de Dom Quixote
Juan José Saer
Desde
sua publicação, em 1605, a influência do "Dom Quixote"
na narrativa ocidental (para nos limitarmos ao Ocidente e ao gênero narrativo)
tem sido cada vez maior e poderíamos dizer que, sobretudo a partir do
século 18, foi ganhando um pouco mais de atualidade a cada dia. Os maiores
nomes da criação novelística posteriores a Cervantes confessaram
sua dívida para com esse texto inesgotável. Muitos personagens
célebres da ficção moderna têm traços comuns
a D. Quixote: Madame Bovary, certos heróis dostoievskianos como o príncipe
Mishkin ou Aliocha Karamazov; os protagonistas de "O Processo" e "O
Castelo", de Kafka, e o de "Lorde Jim", de Conrad. Também
há um Quixote em cada um dos romances de Faulkner, que certa vez declarou:
"Leio o "Quixote" todos os anos como outros lêem a Bíblia".
A psicologia e o comportamento de Philip Marlowe, o famoso detetive particular
criado por Raymond Chandler, seriam incompreensíveis sem levar em conta
uma das contribuições fundamentais de Cervantes à narrativa
moderna: a moral do fracasso.
Essa moral do fracasso constitui o golpe de misericórdia que o "Quixote"
desfecha nos valores da epopéia, relegando definitivamente o gênero
ao passado. Aquilo que Adorno chama "ingenuidade épica", ou
seja, a irrefletida inconsciência com que o herói da epopéia
se lança ao mar dos acontecimentos para realizar um determinado objetivo,
perde toda vigência a partir do "Quixote", em que não
apenas os objetivos do Cavaleiro Andante são vagos ou irrealizáveis
mas também os acontecimentos são de condição incerta,
pois têm para o herói um sentido diferente em relação
aos demais personagens, ao autor e aos leitores (por exemplo, os moinhos de
vento são gigantes somente para D. Quixote e continuam sendo vulgares
moinhos para todos os outros).
Diferentemente do herói épico, que sempre espera um progresso
como resultado de suas aventuras e que, no desenrolar delas, vai ganhando terreno
em diversos planos, D. Quixote, ao final de cada uma das suas, se encontra no
mesmo lugar, decepcionado e às vezes muito ferido, física e moralmente.
Mas, mesmo quando antecipa vagamente seu fracasso, ele decide prosseguir suas
aventuras. Essa é a moral do fracasso que "D. Quixote de la Mancha"
inaugura e que está presente na quase totalidade da narrativa ocidental
moderna.
A
escolha de La Mancha como cenário indica certa ironia em relação
à epopéia, porque La Mancha é o lugar mais pobre e menos
prestigioso que tem à mão, em oposição aos lugares
legendários de que provêm os heróis dos romances de cavalaria
Sterne e Flaubert, Dostoiévski e Kafka, Faulkner e John dos Passos, Chandler,
Borges e até Thomas Mann, que numa noite, num navio que o levava para
Nova York, sonhou D. Quixote com os traços de Nietzsche-Zaratustra, assimilaram
essa inestimável lição de Cervantes. Mas outras contribuições
originais do "Quixote" também deixaram sua marca na narrativa
ulterior. Nele se afirma pela primeira vez a autonomia da ficção,
numa discreta alusão logo no começo do livro. A famosa primeira
frase, "En un lugar de La Mancha, de cuyo nombre no quiero acordarme",
pode ser interpretada em, pelo menos, três sentidos diferentes: a fórmula
"não quero me lembrar" pode ser lida também como "não
posso me lembrar", o que tira importância ao lugar exato em que a
ação se deu, introduzindo assim a tipicidade própria dos
fatos de toda narrativa realista, de modo que qualquer lugar vale por todos
os outros lugares semelhantes que esse lugar representa; mas, se interpretarmos
o "não quero me lembrar" de maneira literal, esse será
um lugar preciso que deve ser mantido em segredo para que o leitor não
o identifique, como tampouco as pessoas e os acontecimentos narrados; e, por
último, em paradoxal contradição com o sentido anterior,
o não querer se lembrar insinua que pouco importa que lugar é
esse, pois a ficção deve sempre preservar sua autonomia em relação
a seu referente, criando um mundo próprio que não se limita a
ser cópia do que supostamente existe fora do texto. Por outro lado, a
escolha de La Mancha como cenário para o romance também indica
certa ironia em relação à epopéia, porque La Mancha,
nas intenções de Cervantes, é o lugar mais pobre e menos
prestigioso que tem à mão, em oposição aos lugares
legendários de que provêm os heróis dos romances de cavalaria,
que são o último avatar, já um tanto simplificado, do gênero
épico.
Esses grandes achados do "Quixote", moral do fracasso e autonomia
da ficção, são apenas duas das muitas contribuições
do livro à narrativa. Valeria destacar também a superposição
de um mundo ideal a um tratamento realista da matéria fictícia,
já que o herói vive em dois mundos ao mesmo tempo, o que voltamos
a encontrar no século 20, no "Ulisses" de Joyce, em que cada
capítulo, minuciosamente realista, segue o esquema ideal de um canto
da "Odisséia", numa construção que, grosso modo,
também constitui um desmantelamento da epopéia. Mas a crítica
também apontou o possível paralelo entre o "Quixote"
e certos textos de Kafka, atentando para a mesma impossibilidade de os personagens
avançarem rumo a um objetivo ao mesmo tempo incerto e inatingível.
E, se em Joyce encontramos raríssimas alusões ao "Quixote",
nos diários e relatos de Kafka as referências são muito
numerosas.
Embora as figuras de D. Quixote e Sancho tenham se tornado não apenas
universais mas também populares, à semelhança de outros
arquétipos literários, como o binômio Sherlock Holmes/Watson
ou o monstro criado pelo Dr. Frankestein, que acaba se apropriando do nome de
seu criador, ou o personagem duplo que encarna o bem e o mal (Dr. Jekyll e Mr.
Hyde), o que distingue "Dom Quixote de la Mancha" desses mitos modernos,
com a possível exceção do romance de Mary Shelley, é
a superioridade do texto literário sobre a versão estilizada do
mito. A criação de um mito não é o objetivo principal
de uma obra literária, e sim a plenitude do prazer intelectual, sensual
e emocional de sua leitura. Também nesse sentido o texto do "Quixote"
é exemplar.
O romance é imensamente mais rico que os arquétipos que ele segrega:
a dupla Quixote-Sancho é grosseiramente contrastada no mito, mas sutilmente
matizada no texto; o mito, com a suposta clareza de suas figuras, é imprudentemente
afirmativo, enquanto o texto, em sua emaranhada minúcia, suscita, a par
da imprescindível exaltação, muitas dúvidas e interrogações.
Ao contrário do livro, o mito, que cremos conhecer de uma vez e para
sempre, dispensa-nos da reflexão e da releitura. O mito é simplista
e edificante; o romance, complexo e ao mesmo tempo compassivo e cruel.
Juan
José Saer é escritor e ensaísta argentino, autor de, entre
outros, "A Pesquisa" e "Ninguém Nada Nunca" (Companhia
das Letras).
Tradução de Sergio Molina.