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El comandante da América

Biografia de Fidel Castro escrita por jornalista brasileira faz sucesso em países latino-americanos

Gazeta do Povo - Paraná - 17 de agosto de 2003

Claudia Furiati fala sobre a repercussão de sua obra pelo continente e comenta situação de Cuba Fidel, durante um de seus intermináveis discursos: para autora, ele é dono de uma "oratória genial" e realizador de "façanhas heróicas".

Talvez a jornalista e escritora Claudia Furiati não imaginasse, durante meados de março do ano passado, que seu então recém-lançado livro Fidel Castro: Uma Biografia Consentida, pudesse alcançar o sucesso a que está chegando agora. Só em 2002, a obra, então dividida em duas partes, ganhou três edições. Já neste ano, a editora Revan a lançou em um único volume, ampliada e acrescida de atualizações até o mês de abril.

Mas a repercussão sobre a maior biografia do comandante cubano não ficou restrita ao Brasil. Recentemente, o livro foi traduzido para o espanhol pela editora espanhola Plaza & Janés, que iniciou recentemente o lançamento de Fidel Castro: La Historia me Absolverá em diversos países de língua hispânica. A edição em espanhol, não marca apenas o interesse da América Latina no livro, mas também a real oportunidade para que Fidel em pessoa possa ter acesso à biografia.

Claudia falou com exclusividade ao Caderno G, via e-mail, sobre o sucesso que o livro está alcançando no exterior. Leia abaixo os principais trechos da entrevista.

- Seu livro Fidel Castro: Uma Biografia Consentida está sendo lançado em diversos países de língua espanhola. Recentemente, uma das principais revistas do México, a Proceso, fez uma extensa reportagem a respeito da obra, antes mesmo do lançamento do livro no país. Por que você diria que a vida de Fidel Castro interessa tanto à América Latina?

- Claudia Furiati - Certamente, Fidel é a grande figura latino-americana viva. Não apenas foi e é um grande líder político, um estadista, como personifica um projeto de emancipação e soberania latino-americanas. Fidel já experimentou, em sua trajetória, desde a luta armada até hábeis negociações bem-sucedidas. Creio que seu antiimperialismo, sua intransigência em certos princípios, além da oratória genial e do fato de ser realizador de façanhas heróicas, são referências reais e simbólicas para povos e dirigentes latino-americanos.

- Nessa mesma reportagem da Proceso, o texto enfatiza as relações de Fidel com o governo americano desde a revolução. Houve reais tentativas de acordo entre os dois países para restabelecer relações diplomáticas? O que levou ao fracasso dessas negociações?

- Quando Fidel ainda estava na Sierra Maestra, em 1958, mas já era possível antever a vitória dos rebeldes contra o exército do ditador (Fulgêncio) Batista, o governo de Dwight Eisenhower tentou fazer contato com ele, sondá-lo, na intenção de saber mais do seu pensamento, sua linha política. Nesse momento, havia visões distintas dentro do poder norte-americano: para uns Fidel era uma séria ameaça comunista, para outros era apenas um nacionalista, uma hipótese de conflito.

A partir de meados de 1959 - a partir da reforma agrária, principalmente -, Fidel passa a ser, para eles, o líder a ser afastado, derrubado ou eliminado. A Guerra Fria, que caminhava, justificava a intenção de extirpar o acinte de uma revolução com orientações socialistas na área de influência norte-americana. Mas, na verdade, Fidel só se torna comunista quando se funda o PCC (Partido Comunista Cubano), em 1965.

Durante os governos de Kennedy, Nixon (após Watergate) e Jimmy Carter ocorreram tentativas de restabelecer relações diplomáticas com Cuba, em caráter secreto. Estão relatadas no livro. No primeiro caso, fracassou porque Kennedy foi assassinado; nos outros dois, porque a negociação política esbarrou em princípios inegociáveis aos dois países em um dado momento.

- Sempre presente no noticiário internacional, Fidel voltou à ordem do dia recentemente quando do episódio da execução de prisioneiros contrários ao regime. Como biógrafa do presidente, qual sua opinião sobre o incidente? Ele pode chegar a "manchar" a biografia de Fidel?

- Não é a primeira vez que se aplica o que eles chamam de "justiça revolucionária". Nem é a primeira vez em que as razões e leis de Estado, em defesa do regime, estiveram por cima de quaisquer outros valores ou considerações. Houve outros momentos em que se aplicou pena máxima - bem menos do que alardeia a contrapropaganda -, por atos de traição ou atentados à segurança nacional. Vejo o incidente do fuzilamento dos três mercenários da seguinte forma: define, uma vez mais, a certeira ação de Fidel ante o perigo do inimigo. À custa de vidas, se preciso for. É de uma radicalidade assustadora, sem dúvida. Mas assim é esse lado "manchado" de sua personalidade.

- Fidel Castro é um democrata?

- Um democrata revolucionário, um ditador do proletariado.

- Qual a impressão pessoal que você tem dele hoje?

- Estive com Fidel três vezes. Fiz-lhe perguntas, às quais respondeu normalmente. Em outros dois momentos, enviei-lhe dúvidas por escrito, que me foram esclarecidas. Minha impressão de Fidel é de... um grande treinador de seleções cubanas para os Jogos Pan-Americanos. Além disso, um amigo de fato e um cavalheiro extremamente honesto. Impetuoso, mas surpreendente e até inexplicavelmente maleável em certas circunstâncias.

- Inicialmente, a editora Revan lançou Uma Biografia Consentida em dois volumes. A quarta edição já traz volume único e uma atualização até abril deste ano. De que forma você poderá parar de escrever esse livro? Terá de esperar pela morte de Fidel?

- É engraçada e difícil essa relação. Um biógrafo, constantemente "perseguido" pelo biografado, pelo que este ainda pode "aprontar", torce para que siga vivendo, vivendo apenas, para que a obra (escrita) não se altere. Mas às vezes é preciso mover o texto, quando a ação do personagem marca uma diferença, algo novo no processo. E será assim até o último suspiro, meu ou dele, daqui a muitos anos.

- Além da publicação no exterior, você acredita que o livro possa ganhar outras mídias, como por exemplo o cinema? Há algum tipo de negociação nesse sentido?

- Sem dúvida, pensamos em cinema. O texto, inclusive, em muitas partes, se situa próximo ao argumento cinematográfico. Nesse caso, de uma grande série. Já houve sondagem nesse sentido, mas não se fechou acordo.

- Uma biografia "consentida" não é o mesmo que uma biografia "autorizada". Mas muitos resenhistas tomam essa palavra do subtítulo do seu livro como argumento para criticá-lo. De que forma esse consentimento ajudou ou atrapalhou o seu trabalho?

- "Consentida" foi um termo usado pelo próprio Fidel para definir a biografia, pois "autorizada" lhe parecia demasiado forte, indicador de interferência. O termo "consentida" guarda nuances e até uma certa ambigüidade, que percorreu todo o tempo da feitura do livro. Saber que Fidel não autorizara a biografia, embora tivesse consentido em abrir informações desconhecidas e reservadas, esclarecendo pontos à medida de sua possibilidade, criou tensão. Uma tensão dramática que - cada vez mais me convenço disso - colaborou ao fôlego e ao empenho de pesquisar, perguntar, organizar, escrever, chegar ao fim. O "consentimento" representou limites e estímulo - assim como a possibilidade do "distanciamento", necessário a mim como autora.