[retornar]
[O Museu do Sagrado ao Segredo]
Nosso primeiro encontro com as reflexões de Ana Lúcia de Castro não foi durante a atual e prazerosa leitura deste texto denso e criativo, nem teria sido durante as inúmeras conversas embora nunca repetitivas que levaram à produção de uma pesquisa de pós-graduação, já avançada, na década dos noventa. Foi nas salas do Museu da Imagem e do Som, na Praça XV, quase uma década antes, onde aprendi a descobrir informação nos traços físicos e emocionais da memória nas partituras de Jacob do Bandolim ou nos negativos em vidro de um Rio de Janeiro ainda em processo de urbanização.
Ao se perguntar pela memória, porém, a autora nos fala sempre a partir do presente, ajudando-nos a reconstruir movimentos de lembrança e esquecimento, como modos de agir de atores sociais imputáveis.
Neste trabalho, distingue a construção de um objeto museal, no contexto dos museus, da elucidação epistemológica das condições de construção de um objeto de conhecimento, na Museologia. Para Wittgenstein, conforme lembráramos em outra oportunidade, a investigação acerca do que constitui uma disciplina ou área do conhecimento requer procedimentos diferentes daquelas análises aplicadas aos objetos que são de seu domínio. A investigação do que seja matemática, no exemplo do autor, não é matemática e não terá, portanto, nem cálculos nem logística (Wittgenstein, Investigações filosóficas, II, XIV). A elucidação do que seja uma investigação museológica, em consequência, não poderia realizar-se como descrição funcional do que seja a faticidade materializada nos museus e, menos ainda, a partir da autoexplicitação finalística dos museus institucionais.
Pensamos que, com essa compreensão, Ana Lúcia de Castro se aproxima do objeto museal o necessário e conveniente para, a seguir, tomar distância dele: distância historiográfica (construção cultural e institucional do Museu), epistemológica (construção do conhecimento museológico), distância antropológica (mecanismos de sacralização e ocultamento), na medida suficiente e adequada para reconstruir os elos entre o tempo atual da Museologia e o tecido ficcional do tempo e do espaço do Museu.
A aguçada heurística conceitual de Ana Lúcia de Castro articulará, assim, uma trama argumentativa que, de modo rigoroso, recorre aos caminhos plurais das configurações do Museu para provocar reflexão sobre a Museologia, como demanda de saber a ser validada e credenciada no cenário das ciências contemporâneas.
A tematização dos mecanismos epistêmicos e ideológicos que estão envolvidos na construção museal de uma faticidade espetacular, permite descortinar o locus social dos museus em seus deslocamentos históricos e contribui, ao mesmo tempo, para outorgar à questão museológica justo lugar no contexto de uma política da cultura, da comunicação e da informação."
Na sacralização, os aspectos abordados analisam a estrutura conceitual do objeto museológico, sua museificação e os resíduos mnemônicos contidos. Nessa direção, a feição enciclopédica, prefigurada no Museu Alexandrino, outorga ao museu um princípio de acumulação indefinida que, ao ganhar feição institucional, busca legitimar-se como totalidade, recebendo a marca da sacralização. Ao assumir os imaginários universalizados do nacional, da ciência, da arte ou de interesses singulares a serem apresentados como coletivos, a faticidade museal transforma-se no espelho seletivo em que se refletem imagens escolhidas, como exemplares privilegiados de uma representação ideal.
Segundo a autora, conjeturar que o museu tem no sagrado e no segredo os pilares básicos de sua perenidade é indagar pela prerrogativa ontológica, que, além de legitimar as representações de imaginários sociais, protegeria o museu de sua própria fragilidade ordenadora.
O jogo da sacralização gera, assim, no Museu uma constante zona de tensão entre a exposição e o segredo, a informação e a desinformação: No tocante ao segredo, são discutidas as razões da imprecisão informacional nos museus, sua vinculação com a ocultação e as novas possibilidades conceituais da informação museológica, assim como as experiências internacionais.
Com esses pontos de partida, a comunicação e a informação são remetidas, assim, aos mais intrínsecos parâmetros de constituição do Museu e às mais urgentes questões da indagação museológica.
... a informação contida no objeto não chega ao usuário de museu por estar envolvida no segredo, no silêncio da exposição, no sigilo da reserva técnica, no ocultamento documentário. O segredo é da ordem da consciência, mesmo quando não percebida ou deliberadamente esquecida. Oculta-se o objeto conhecido, aquele que tem expressão e significação. O rompimento do segredo implica exteriorizar a informação, possibilitar a comunicação.
Fica, desse modo, caracterizado o encontro da Museologia com a Ciência da Informação, não a posteriori, pelas marcas externas da vinculação acadêmica e disciplinar (publicações, currículo), mas através das condições epistemológicas de junção e cruzamento entre a problemática da constituição do Museu e a da disponibilização e acesso social à informação.
Esse esforço por caracterizar o ponto de encontro, em que ambas as abordagens teóricas (a museológica, a informacional) defrontam-se com a difícil reconstrução de faticidades feitas, incorpora a tensão permanente das ciências humanas e sociais, fadadas a atravessar o ismo entre pragmáticas situadas de produção de sentido e demandas de validação generalizadas.
O ponto de encontro desdobra-se, de fato, na informação e na comunicação.
Por um lado, a autora explora o que denominará categorias estruturais da informação museológica: a informação semântica, à qual atribui caráter social, traduzível e comutável, e a informação estética, que expressaria uma ligadura intransferível entre a vivência ancorada no tempo e no espaço, e a copresença dessa corporalidade da vivência junto à emergência objetual do mundo.
Configuração híbrida de interobjetividade e intersubjetividade, no escopo e abrangência do Museu, a informação atravessa a concretude expressiva da construção museográfica, ora sob a moldura das categorizações e dos padrões estabelecidos, ora atiçando a invenção de novos usos da linguagem, através de plurais tecnologias reprodutivas e digitais.
As codificações e ressignificações museográficas são sempre, porém, seletivas e contingentes. E, quanto mais especializadas as codificações, menos serão os que podem compartilhá-las.
Se, como toda instituição, os museus seriam meios de comunicação, para se caracterizar como esfera pública eles deveriam ser duplamente comunicativos: por um lado, ao desenvolver ofertas infocomunicacionais por meio de uma faticidade museal voltada a dar visibilidade social e cultural a um tema e uma questão; por outro, prestando esclarecimentos acerca da vontade pragmática que estabelece, a priori, uma vinculação discursiva entre o tema sua semântica e sua aisthesis e seus possíveis públicos ou destinatários.
As composições que dão visibilidade às narrativas dos museus sejam objetos, textos, audiovisuais, hologramas ocultam tanto quanto exibem, de modo inevitável, por mais fidedignos que sejam seus espelhos expressivos. A incomunicação museal habita os processos comunicacionais e a desinformação acompanha as mais descritivas das semânticas textuais e objetuais.
Uma estrutura organizacional da informação museológica tem de obrigatoriamente avaliar os diversos planos informacionais e as variadas categorias documentais que exprimem e revestem o objeto museal.
Nesse sentido, pareceria que a comunicação museológica não poderia concluir-se num processo linear em que o objeto falasse por si mesmo, como mediação sem ruídos, nem redundâncias entre um emissor e um destinatário.
Podemos pensar que a comunicação museológica assemelhar-se-ia à relação ego-alter de um processo argumentativo em que cada proposição oferecida por um interlocutor tem de estar sustentada em boas razões, a fim de que outro, oponente discursivo, pudesse aceitá-las ou rejeitá-las, em igualdade de condições gnosiológicas e comunicativas. É na oposição ego-alter que se realizam a isonomia pragmática, os jogos dinâmicos e recíprocos dos pontos de vista.
O desocultamento da moldura metacomunicacional da experiência museográfica e museológica pode servir de solo sobre o qual será possível uma construção mais sólida e abrangente de uma moldura teórica, favorecendo novas interlocuções entre a Museologia, a Ciência da Informação, a Comunicação, os estudos culturais e da memória. O locus das questões museológicas, no grande fórum das ciências humanas e sociais, constituir-se-ia justamente onde se desconstrói o privilégio ontológico da sacralidade.
Indicado o ponto de encontro daqueles saberes, Ana Lúcia situa o labor informacional nos museus, nessa zona de tensão entre os mecanismos reguladores da sedução e do espetáculo e os mecanismos desocultadores, que podem deixar à mostra os plurais sujeitos que, pressupostos pela interobjetivadade, sustentam e justificam as diferentes camadas semânticas e estéticas do fato museal.
Junta-se, assim, à outra estudiosa da informação nos museus, Helena Ferrez, na afirmação da complexidade informacional (intrínseca, extrínseca), necessária para acompanhar um objeto através de seu deslocamento, desde seu nicho funcional ao receptáculo classificatório do museu.
Manter as marcas desses deslocamentos, as mutações dos contextos, é parte do labor informacional, a demandar pericias e técnicas desenvolvidas nos estudos da informação. A modelização dos processos de recuperação e busca de informação acompanharia essa face não suficientemente valorizada pelo museu atual. Tratar cada fatum museal como documento ou como documentável permitiria manter em toda a sua riqueza aqueles tecidos intersubjetivos e interobjetivos que, ancorados em diversos tempos e espaços, subvertem constantemente o tempo e espaço ficcional do museu.
Efetivamente, a museologia em sua prática documentária está distante de um tratamento sistêmico da informação, seja para a configuração de suas áreas temáticas, seja na abordagem multidisciplinar que converge para seu campo fenômenico. Distante a ponto de se indagarem as variações de sua representação documental e as relações esparsas de uma recuperação informacional agregadas ao conhecimento.
O labor informacional, os dispositivos documentários e de recuperação da informação são condição da reversão do mito ontológico da sacralidade do museu, abrindo passagens às plurais pequenas ontologias montadas pelos artefatos e cenários culturais.
Assim, refletir o Museu do sagrado ao segredo representa iluminar a passagem simbólica do objeto social transfigurado em objeto museológico. É perceber a representação do sujeito deslocada no objeto; é compreender a construção do tempo museal, sua temporalidade eternizante e narcísica; é ouvir o silêncio ocultante dos variados contextos plurais tratados univocamente; é caminhar pela imobilidade sagrada da musealização. É ir ao encontro da informação museológica e provocar a comunicação.
O museu, híbrido de vozes e silêncios, não pode abrir simplesmente suas pesadas e talhadas portas, tão evidentes e visíveis: só a partir de um trabalhoso e empenhoso esforço de informação e de uma vontade democrática de comunicação, o museu poderá ser, mais que público, uma expressão do que em comum podamos definir como comum. Indagar esse museu por vir é o desafio da Museologia, compartilhado com as redes sociocomunicacionais e as redes tecnológicas que tecem e desfiam memórias e informação.
A autora evidencia sua capacidade de provocar estranhamento e iluminar aquilo que cega por sua proximidade, enxergando e somando novas perspectivas, com a lucidez e a ponderação de uma inteligência apaixonada. Se é bom lembrar que o desvendamento da sacralização gera conhecimento, ou uma epistemologia museológica, sua obra é um dos casos que a epistemologia conversa com a ética. Nessa direção, os trabalhos de Ana Lúcia de Castro recorrem tanto ao registro teórico-conceitual dos modos do conhecimento museológico, como neste texto, quanto indagam pelas consequências éticas dos mecanismos seletivos da memória e da linguagem que regulam o labor informacional dos museus. Nos trabalhos publicados, em periódicos da Ciência da Informação, da Museologia, e da área cultural em geral, retoma com diversas abordagens a relação entre museu, informação e ética.
A problemática do valorar que constrói e seleciona aquilo sobre o qual a informação informa e desinforma , assim como o modo de sua inscrição e circulação, tem sido intensamente esmiuçada em sua tese de Doutorado, publicada pela Revan, Memórias clandestinas e sua museificação.
Esta nova publicação soma as questões anteriores, a ponderada combinação de um olhar epistemológico corajoso e sem resguardos, com a reflexão crítica acerca dos princípios técnicos e conceituais que definem os dispositivos de comunicação e informação dos museus, e indicações acerca de modos inovadores de reformular as mediações culturais, dando maior autonomia e controle aos atores sociais que são o princípio de sua existência e legitimação.
Maria Nélida González de Gómez
Doutora em Comunicação e Cultura,
Pesquisadora Titular- IBICT