Mirante

Editor: Renato Guimarães

Lula em alta - O primeiro-ministro espanhol, José Luis Zapatero, publicou neste domingo, 13, em El País, um artigo dedicado ao presidente Lula, com um título que já diz tudo: El hombre que asombra al mundo. Faz referências calorosas e altamente elogiosas ao presidente brasileiro, apresentando-o como “líder indiscutível da América Latina e referência para todos os políticos”. Lembra a infância pobre e difícil dele, sua trajetória de luta no movimento sindical brasileiro, sua dedicação aos interesses dos mais pobres. Louva sua liderança hábil e corajosa na recente história de êxito do Brasil, tanto no desenvolvimento econômico próprio quanto na afirmação de uma presença expressiva e positiva do país nos assuntos mundiais. Registra que “este homem honesto, íntegro, voluntarioso e admirável, [converteu-se] em uma referência inevitável para a esquerda do continente americano”.

Zapatero não é um estadista com tamanha autoridade que não se possa divergir dele, mas é nome conceituado mundialmente, embora levemente seduzido pelo neoliberalismo. Tampouco El País é sinônimo de veracidade - basta lembrar que seu dono é o grupo Prisma, com vastos interesses de negócios na Europa e na América Latina e, portanto, servidor mais desses interesses do que da verdade -, mas é de qualquer modo um jornal de primeira importância no mundo e talvez, hoje, o que goza de melhor conceito na intelectualidade dos países capitalistas. Alguns menos avisados poderiam esperar, portanto, que tal louvação ao presidente do Brasil despertasse interesse da mídia em nosso país, tanto mais que ela ocorre depois de uma série de êxitos de Lula e de outras homenagens de relevo que lhe foram prestadas em diversos países e continentes. Mas o espírito partidista antiLula que empolgou a grande mídia no Brasil é infalível. Ela simplesmente ignora os fatos que lhe desagradam, e foi o que fez também no caso de Zapatero.

A propósito do silêncio dos grandes jornais e TVs do país a respeito desse e de outros episódios que favorecem Lula, o sítio HS-Liberal postou um comentário inteligente, que vale a pena ler.

Ler o artigo de Zapatero no texto original aqui e na tradução para o português aqui. Ver o comentário de HS-Liberal aqui.

Fantoche de Israel – Este foi o título que Paul Craig deu a Obama, no que é talvez o artigo mais cáustico na enxurrada de protestos que o atual presidente dos Estados Unidos vem provocando no mundo inteiro, por sua rendição ao “governo invisível” que os interesses militaristas e imperialistas exercem em seu país. Cáustico e sarcástico, ao mesmo tempo. Craig chama Obama de “comandado em chefe” dos militares, denuncia o total acaudilhamento do governo dos EUA pelo lobby sionista de Israel, propõe que, em vez de meter-se em guerras estúpidas, seu país adote uma lei que faça doação direta aos donos da indústria bélica e seus associados militares e políticos os trilhões de dólares que custam as guerras e assim por diante. Ler o original aqui, o texto transcrito aqui e a tradução para o português aqui.

Rubicão ao contrário – Neste Mirante, semanas atrás, apontamos como sinal da rendição de Obama ao grupo ultrapoderoso de interesses de indústria bélica, petróleo e militares que governam seu país há décadas o anúncio feito por ele de que os Estados Unidos reconheceriam como presidente de Honduras o candidato vitorioso na recente eleição conduzida pelo governo golpista deste país. Depois disso, outro ato deste presidente que tanta esperança despertou no mundo marcou de modo mais formal esse recuo, uma espécie de “Rubicão ao contrário” dele: o discurso na academia militar de West Point, no qual ele anuncia a remessa de mais tropas para o Afeganistão e o aprofundamento da guerra imperialista promovida por seu país naqueles rincões asiáticos. O brilhante jornalista estadunidense Tom Engelhardt, em seu site Tom.dispatch, narra os bastidores da batalha de “cerco e aniquilamento” que os grupos de mídia, políticos, militares e lobistas a serviço desse “governo invisível” dos EUA promoveram para pôr Obama de joelhos. Com ironia, pôs o título no artigo de “Vitória, afinal!”. Ver o texto transcrito aqui.

Nosso Norte é o Sul – A ascensão democrática e antiimperialista na América do Sul, que sofreu um revés com o golpe de Estado em Honduras apoiado pelos EUA, volta a triunfar com rejeição do Mercosul à fraudada eleição do novo presidente hondurenho, a espetacular vitória de Evo Morales na Bolívia e a eleição de José Mujica a presidente do Uruguai. Esses dois últimos temas são objeto de interessantes matérias publicadas em 9.12 por El país. Sobre a Bolívia, no original aqui e o texto transcrito aqui. Sobre o Uruguai, no original aqui e o texto transcrito aqui.

Exceção que brilha – A grande mídia no Brasil, como era de se esperar, deu de modo geral tratamento infame à visita do presidente do Irã ao país. Ahmadinejad foi durante dias objeto de um bombardeio feroz de calúnias e agressões, no qual que xingamentos como tirano, terrorista, assassino eram repetidos de modo incansável. Também o presidente Lula, pelo gesto corajoso de convidar e receber seu colega iraniano, foi quase unanimemente trucidado pelos “chiens de garde” que, nos jornais e TVs, aplicam no Brasil as diretrizes do imperialismo estadunidense. Houve, entretanto, pelo menos uma exceção, e brilhante: o artigo de Mauro Santayana dedicado ao assunto no Jornal do Brasil. Leia aqui.

Farsa em Honduras, não Outra atitude soberana tomada pelo governo brasileiro foi sua negativa em acompanhar o governo dos Estados Unidos na decisão de aceitar os resultados da eleição tutelada pelo governo golpista de Honduras, programada para dezembro próximo. A banda de música direitista que domina a mídia no Brasil deplora, é claro, tal atitude “inconveniente” de independência em relação a Washington. Mas a opinião pública brasileira e internacional, que condenou a torpe manobra do governo Obama de fingir que condenava os golpistas enquanto na verdade lhes dava suporte, com certeza vai apoiar também neste caso o governo brasileiro. Exemplo disso é a matéria publicada em El País sobre o tema, que manifesta respeito pela atitude brasileira, embora não esconda simpatia por Washington. Ler o original aqui e o texto transcrito aqui.

Rendição de Obama? – Embora país pequeno em cifras, Honduras ficou grande como símbolo de definição do presidente Obama no papel de prisioneiro e boneco de ventríloquo do sistema de interesses econômicos, militares e políticos que há décadas comanda a política em seu país. Ao sustentar uma atitude cínica de condenação “moderada” do golpe de Estado que vitimou aquele país centro-americano, ao dar sustentação aos golpistas na política adotada por estes de ganhar tempo e, finalmente, ao promover uma falsa e hipócrita “solução” do problema do retorno do presidente Zelaya ao poder, o governo dos Estados Unidos deixa claro que, no que depender dele, temos pela frente o retorno à política tradicional estadunidense em relação à América Latina: a política do porrete, celebrizada por Theodore Roosevelt e a partir dele aplicada a ferro e fogo.

Hoje, as condições são mais difíceis para o êxito dessa política. Há mais de uma década, desenvolve-se na América do Sul e Caribe um processo democrático e de afirmação nacional que não será retroagido tão facilmente como foi o que se desenvolvia nos anos 1960-70. Mas, para quem tinha expectativa de mudança positiva com Obama, a definição veio com sentido oposto.

Matéria publicada em El País pelo correspondente do jornal madrilenho em Honduras mostra em detalhe o transcurso das negociações em Honduras e a participação pérfida do governo de Washington nelas. Ver aqui.

Bases na Colômbia – A curvatura de Obama à política imperialista-belicista de seu país no continente americano fica ainda mais definida com os acordos sobre uso de bases militares na Colômbia. Estes representam, nem mais nem menos, a anexação da Colômbia ao território dos Estados Unidos, conforme assinala Fidel Castro em sua “reflexão” mais recente, e com certeza uma das mais bem fundamentadas e de maior alcance. Um documento militar oficial estadunidense, recém-divulgado, deixa clara a finalidade de ação bélica regional da ocupação dessas bases, tropas, aviões e mísseis dirigidos pelo Pentágono. Ninguém pode reclamar, então, que Hugo Chavez alerte o povo venezuelano para o perigo de guerra e o convoque a preparar-se.

Ver a “reflexão” de Fidel aqui, o artigo da da jornalista venezuelana Eva Golinger que divulga o documento militar estadunidense aqui e a exortação de Chávez ao povo de seu país, conforme matéria de El País, aqui.

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