Apologeta do opressor

 

Desmascaramento político de um filósofo radicalmente aristocrata. Com o seu volume sobre Nietzsche, Domenico Losurdo forneceu uma pesquisa que estabelece novos parâmetros de julgamento

por Moshe Zuckermann, Junge Welt 16/10/2009 – Thema – p. 10-11.

Traduzido do italiano por Jaime Crasen.

 

(Sociólogo, Zuckermann ensina no Instituto Cohn de História e Filosofia da Ciência da Universidade de Tel Aviv e foi diretor do Instituto de História Alemão de Tel Aviv. )

 

Há livros que só podem ser resenhados com dificuldade. O trabalho de pesquisa realizado por eles é tão amplo e o esforço conceitual que os caracteriza é tão impressionante que se pode temer fazer uma injustiça contra a complexidade da obra mediante uma resenha que, por sua natureza, comporta um procedimento drasticamente redutivo. Um livro assim é o opus de Domenico Losurdo (Nietzsche, Il ribelle aristocratico. Biografia intellettuale e bilancio critico), que apareceu na Itália pela primeira vez em 2002 e que agora está disponível em tradução alemã [e brasileira, Revan]. Trata-se de uma empresa magistral, não por acaso definida como um marco na recepção de Nietzsche, um resultado científico que poderia rapidamente se tornar uma obra de referência no âmbito da história espiritual europeia. De fato, no futuro, quem quer que se ocupe com a dimensão política do pensamento de Nietzsche não poderá deixar de lado este livro. Ele estabelece novos parâmetros de julgamento e apresenta coordenadas analíticas demasiado persuasivas e demasiado significativas para ser lícito ignorá-lo. Por isto a obra não deve ser aqui resenhada no sentido estrito do termo. Limito-me a algumas reflexões sobre o que ela poderá significar doravante para a compreensão geral de Nietzsche e para a nossa relação com esse pensador eminente e inquietante da Alemanha do século XIX.

Dois modelos fundamentais

Indubitavelmente, depois de uma recepção longa, densa e, portanto, altamente controvertida, que começou já no século XIX, mas que atravessou depois todo o século XX, pode-se perguntar ceticamente o que ainda se pode chegar a descobrir de realmente importante do edifício teórico do filósofo. O que agora se pode dizer de novo dele, que de um modo ou de outro já não tenha sido dito? Domenico Losurdo está plenamente consciente disso e consegue voltar a seu favor até essa evidente abundância de leituras críticas reduzindo a rica exegese nietzschiana a dois modelos fundamentais centrais, para depois confrontar-se com eles no decorrer de mais de mil páginas. Por um lado, ele critica a interpretação decididamente apressada de Georg Lukács, segundo a qual a “destruição da razão” se teria realizado na forma de uma “estrada do irracionalismo” que, a partir de Schelling (sobretudo), passando por Nietzsche, teria depois levado até Hitler, uma leitura que, entrementes, consolidou-se numa espécie de paradigma e que tem a sorte de valer como a mais nítida crítica sobre Nietzsche até hoje. A convergência direta entre o filósofo e o regime nazista é rejeitada por Losurdo como excessivamente redutiva e insustentável. Por outro lado, porém, ele ataca o predominante aviltamento de Nietzsche, aquele trilho (hegemônico) da recepção que sempre de novo toma o caminho de uma apologia do pensador e precisamente onde o “filósofo com o martelo” exprime monstruosidade e teme horrores. Particularmente belo (e há tempo esperado) é a este respeito o desmascaramento da tese segundo a qual Elisabeth, irmã do pensador, teria editado os escritos, deformando-os em direção das necessidades ideológicas do nazismo, na realidade um mito intrínseco à história da própria filosofia. Os “hermeneutas da inocência” não se envergonharam de atribuir à irmã a culpa pela suposta distorção da recepção de Nietzsche (as suas declarações em parte malvadas seriam entendidas como metáforas, alegorias e símbolos) sem, porém, perceber nisto qual importância eles objetivamente atribuem a ela no plano da história da filosofia e da ideologia.

Losurdo toma outro rumo. Mantendo-se igualmente distante de imputações doutrinais de culpa e aviltamentos ideológicos, baseia-se – como crítico marxista da ideologia que é – na contextualização histórica do pensamento de Nietzsche e na reconstrução, passo a passo, da sua matriz político-social. Nisso, ele não se contenta com uma extração cirúrgica precisa dos motivos sincrônicos do universo filosófico nietzschiano, mas segue também a odisseia do desenvolvimento ideológico diacrônico do pensador, as etapas e as viradas radicais ao longo do percurso de amadurecimento do “Nietzsche tardio”. Isto também é indispensável, desde o momento em que num filósofo da idade moderna se encontram turbulências tão clamorosas, mudanças espirituais e recomeços paradigmáticos como nele, o que, não por último, fez com que a sua opera omnia assumisse o aspecto de um gigantesco compêndio de visões heterogêneas, opiniões contrastantes e postulados fortemente contraditórios. Não por acaso, em 1932, Tucholsky escreveu: “Quem não o pode reivindicar! Dize-me o que precisas e eu encontrarei para ti uma citação de Nietzsche [...]. Pela Alemanha ou contra a Alemanha; pela paz ou contra a paz; pela literatura ou contra a literatura”. Que seja, mas no plano da crítica da ideologia não se pode contentar-se com isto. Então, Losurdo elenca com pontualidade todas as dissonâncias, as bobagens e as aporias do pensamento de Nietzsche, mas sempre levando em conta com exatidão a matriz ideológica fundamental que está na base de todas essas intuições e fulgurações espirituais, culturais e intelectuais e à qual elas podem no fundo ser decididamente referidas; e essa matriz fundamental – nisto devemos ver um dos resultados mais importantes da obra de Losurdo – é de natureza profundamente política, e precisamente não apenas num sentido abstrato (acerca da posição do homem no mundo, por exemplo), mas animada pela agenda política, consciente da contemporaneidade e sustentada por um fundamento empírico. Contudo, a irrupção de tal ênfase política é comprovada pelo fato de saber que está irmanada com um princípio ético e moral que deve ser entendido no plano da história da humanidade. O fato atual (o contexto histórico concreto, portanto) se funde com a mais nobre filosofia, e matéria de folhetim com a suprema filosofia da existência. A esse respeito, Losurdo insiste analiticamente e metodicamente sobre o fato que, prescindindo de toda a genialidade individual de Nietzsche e da idiossincrasia do seu pensamento “alemão”, as suas premissas e cabriolas espirituais podem ser, no seu conjunto, contextualizadas e, portanto, colocadas em tradições culturais e de pensamento que ultrapassam o mundo intelectual de Nietzsche. O que desse modo – corretamente marxista – é conseguido é a determinação tanto histórica como social e sociopsicológica do pensamento individual, sem, porém, nunca pôr em discussão a qualidade específica do filósofo.

Luta contra a emancipação

O que, então, Losurdo descobre? Como podemos descrever a sobredita matriz na base do pensamento global de Nietzsche? Começando com os acontecimentos da Comuna de Paris, captados com grande horror, Nietzsche inflige ao período revolucionário inteiro (1789 – 1830 – 1848 – 1871) o veredicto negativo de uma catastrófica sublevação das massas populares plebeias, que lentamente avançava na Europa inteira. Ele estende o diagnóstico desse movimento de revolta, antes de tudo, ao iluminismo europeu moderno, para depois prolongá-lo ainda mais para trás, para a Reforma protestante e, enfim, para o mundo judeu-cristão inteiro, ao qual acrescenta também a tradição filosófica socrática (e, portanto, platônica), que interpreta em sentido pejorativo como uma tendência imprópria, animada pela sede de conhecimento, de sacudida da estrutura cultural e social hierárquica. Aquilo que em Nietzsche, portanto, por ódio empático em relação à “democracia” e ao “socialismo”, se condensa e solidifica concretamente numa verdadeira obsessão, é colocado num processo geral de civilização que, por sua vez, amadurece num paradigma da sua visão global do mundo. Visão do mundo que tem como pressuposto o caráter necessário de uma hierarquia dada por natureza, a sublimidade de quem está em cima e a abjeção de quem está em baixo, portanto, a postulação de uma imutabilidade da diferença qualitativa; ele tende sempre a ver na tendência constante à sublevação dos “malogrados” e dos “fracassados da vida” a ameaça àquilo que é necessário manter como hierárquico. Visto que acha estar o consenso normativo à sublevação das massas dos miseráveis engatado ao processo iluminista global que desde Sócrates, passando pela tradição judeu-cristã, chega até à Revolução francesa e às pretensões de emancipação derivadas dela, Nietzsche combate filosoficamente todas as suas etapas e todos os seus desenvolvimentos, as suas configurações culturais e os seus postulados sociopolíticos. O discípulo original de Schopenhauer chega assim à recusa decidida de qualquer forma de misericórdia com relação à experiência humana do sofrimento (dado que se trata do sofrimento dos “inferiores”) e à tomada de visão da necessidade para ele consequente com o que qualificou como “transmutação de todos os valores”, o que se deveria afirmar como código fundamental da existência humana coletiva “além do bem e do mal”.

Loa à escravidão

Para os conhecedores de Nietzsche nada disso é novo. É nova, contudo, a prova fornecida por Losurdo, no seu imponente trabalho de reconstrução, de que tudo isso, por um lado, constitui uma matriz que está na base de todas as etapas (como sempre, diferentes) do desenvolvimento do pensamento de Nietzsche e, por outro lado – e isto deveria ser mais grave –, que Nietzsche era absolutamente sério na sua visão do mundo intimamente repressiva e normativamente legitimada. É conhecido o seu postulado segundo o qual as massas inferiores (afinal de contas, a porção social de longe a mais consistente) devem trabalhar muito para que uma elite aristocrática selecionada, livre do trabalho e com direito ao lazer, possa produzir cultura e governar; menos conhecido é, ao contrário, que, além disso, se exprime com tenaz verve intelectual a favor da escravidão; que incitou à eugenia radical até um genocídio parcial; que nisso não argumentou absolutamente apenas em termos culturais, mas se entregou, em parte, a um biologismo cru, e muito mais ainda que, mesmo por leitores experimentados de Nietzsche, se chega a compreender com certo medo. De qualquer modo, a contribuição de Losurdo não reside apenas na lista otimamente documentada de todas as suas afirmações chocantes, mas sobretudo no fato de insistir constantemente no contexto político-cultural do ideologema nietzschiano relativo. Assim, por exemplo, o primeiro Nietzsche se mostra um provinciano alemão nacional-chauvinista que mais tarde se purifica em europeísta supranacional. Mas o seu europeísmo é entendido como uma tarefa de domínio mundial, nisto entusiasticamente concorde com o colonialismo – uma ideologia com a qual, no seu tempo, não é o único a partilhar. Ele certamente deixa para trás o seu antissemitismo original (no qual Richard Wagner deixou a sua marca) para converter-se num rigoroso anti-antissemita – não, porém, porque tivesse chegado à ideia de que era preciso desembaraçar-se da discriminação e da perseguição das raças, das etnias e dos outros grupos sacrificais da sociedade, mas porque perseguia a visão eugênica da fusão do judaísmo burguês financeiramente poderoso da Alemanha com a casta dos Junker prussianos no poder, uma representação que coincidia com um oportunismo prático fortemente concreto e dominante depois da fundação do império. Para os judeus pobres da Europa oriental (bem como para qualquer outra “ralé” e para todos os “fracassados”) Nietzsche mostrava aversão. Estes e outros achados, que colorem a imagem corrente de Nietzsche com tons mais escuros que de costume, estão expostos com coerência inamovível nas primeiras partes do livro de Losurdo; surpreende não só o conhecimento das fontes, mas sobretudo a excelência da sua capacidade dialeticamente analítica da hermenêutica.

Papel do psíquico

Bastaria a primeira parte do livro para prestar a Losurdo o louvor máximo pela sua imponente contribuição científica. Mas ele não se contenta com isso, e permanece fiel ao seu propósito de contextualizar o pensamento de Nietzsche e de decodificar a sua dimensão política observando do ponto de vista da crítica da ideologia também a história da recepção desse extraordinário universo filosófico, incluindo-a no seu próprio trabalho. Nele, a sua atitude intelectualmente honesta (fair, se quisermos) é posta em evidência pela capacidade de expor com grande exatidão em quê consiste a particularidade do pensamento nietzschiano no plano histórico-filosófico, portanto o seu inabalável valor gnosiológico, e ao que ainda nos podemos ater no futuro. Assim acentua o conceito de individualismo postulado por Nietzsche, muito superior, no que diz respeito à penetração psicológica, ao conceito abstrato do liberalismo corrente. Reconhece também a validade de colocar em crise as tarefas epistemológicas clássicas fundamentais, portanto também o serviço fundamental de Nietzsche ao desvelamento da dimensão psíquica de toda ideologia, com o que contribuiu de modo significativo não apenas para revolucionar a teoria do conhecimento, mas também para a psicologização da crítica da ideologia. Em geral se pode postular que: se Marx desenvolveu uma importante teoria social, sem ter composto para isso uma psicologia, podemos nesse sentido colocar Marx e Nietzsche lado a lado, sendo que o último não inventou certamente uma sociologia coerente, mas foi muito mais antecessor no campo das visões da psicologia da profundeza. Mais surpreendente ainda é que Losurdo, aliás tão poliédrico e metodicamente interdisciplinar, no seu monumental trabalho poço se refere ao papel pioneiro de Nietzsche em vista da chegada da psicanálise, nem à influência tanto direta como indireta do filósofo sobre Freud. Na obra de mil páginas, Freud é citado apenas uma vez, e dele é citada na riquíssima bibliografia apenas a monografia sobre Moisés e o monoteísmo. Este é um dado que pode ser indicado como um déficit na obra do italiano, visto que, quando se lida exatamente com a dimensão política do pensamento nietzschiano, não é possível não levar em consideração – no mais tardar a partir dos resultados da teoria crítica de Frankfurt – a maneira explosiva como o paradigma freudiano repercutiu na constituição da psicologia política do século XX; enquanto os próprios Adorno e Horkheimer são citados por Losurdo apenas como prova documentária da familiaridade com a obra de De Sade, embora eles tivessem dirigido o seu olhar criticamente irritado, voltado para o progresso da civilização em geral e da modernidade ocidental em particular, para um dos ápices mais significativos da reflexão filosófica.

Crítica do pós-modernismo

Com decisão muito maior Losurdo se aventura com o pós-modernismo, que notoriamente se fundamenta em muitos aspectos sobre a filosofia de Nietzsche como testemunho principal e ponto de partida para a crítica radical daquilo que ele chama de “modernidade”. Losurdo observa que, se os que sustentam o pós-modernismo acham, nos seus exercícios interpretativos sem fim, que podem desembaraçar-se de qualquer determinação com base num fundamento vinculante de verdade, então escolheram em Nietzsche um pai espiritual impróprio. “A afirmação de Foucault – diz Losurdo – segundo a qual a loucura final de Nietzsche poderia ser lida como a metáfora do revés inerente à tarefa infinita e infinitamente complexa da interpretação” seria literatura má. Nietzsche teria considerado desejável um sólido critério de validade, quer dizer, o “egoísmo” do homem “sadio”, que deveria ser distinguido claramente do “doente”. Insiste, portanto, num conceito patológico (fisiológico) que o pós-modernismo queria exatamente tirar do meio, como pretenderia, aliás, poder decompor infinitamente o conceito de sujeito que Nietzsche, exatamente a partir da lógica da “vontade de poder” por ele formulada, não quereria (nem saberia) absolutamente abolir. De maneira semelhante, ficando em Losurdo, nem ao pensamento conservador do século XX é concedido referir-se candidamente a Nietzsche. No seu edifício teórico estão espalhadas minas demais, das quais o conservadorismo, para a própria coerência, seria melhor que não dispusesse, se não quiser explodir a partir de dentro.

Muito se poderia ainda acrescentar além do que foi exposto até agora, com respeito à contextualização e decodificação ideológico-crítica do pensamento nietzschiano realizada por Losurdo. Mas já foi dito que é preciso renunciar a isso. No entanto, querendo-se perguntar pelo significado a atribuir ao balanço do eminente trabalho de pesquisa, uma vez acertado que o simples valor gnosiológico não exige fundamentos, se faz ciência só pelo amor da ciência – o que o próprio Nietzsche teria indubitavelmente posto em discussão.

Obra versus pessoa

Poder-se-ia tentar – totalmente no espírito do psicologismo nietzschiano – aproximar-se das monstruosidades contidas no pensamento do filósofo, debatidas por Losurdo de modo tão convincente, passando pela sua própria psique e existência individual e colocando-se a pergunta: com quanta seriedade podem ser levadas em considerações as suas tiradas contra toda compaixão se ele mesmo, quase no final da sua vida consciente, à vista de um cavalo velho atormentado pelo seu brutal cocheiro jogou-se chorando ao pescoço da infeliz criatura e desabou? Não é assim que se deve raciocinar, se responderá; a separação entre obra e pessoa deveria ser rigorosamente mantida, mais ainda porque a reação idiossincrática de Nietzsche pouco antes do seu trágico colapso deve ser concebida como patológica ou altamente simbólica. O próprio Nietzsche não estaria absolutamente contente com tal defesa que tivesse querido defender a sua honestidade intelectual. Teria sido obrigado a olhar para a reação experimentada de compaixão e para o consequente colapso como para o fracasso da sua própria “vontade de poder” e incluir, portanto, a si mesmo entre os “fracassados da vida”. Com isso certamente o dilema fundamental ainda não teria sido tirado do caminho, porque, se aprovarmos a posição de Losurdo, o qual rejeita o falatório apologético em torno da “metaforicidade” dos postulados nietzschianos mostrando com precisão a sua substância política absolutamente séria, é preciso perguntar-se como o próprio Nietzsche teria se confrontado com as práticas de violência aprovadas por ele – por exemplo, a vista concreta de escravos maltratados nos Estados Unidos e nas colônias, as técnicas de extermínio da eugenia moderna, a escravização dos trabalhadores forçados dos campos de concentração, o aniquilamento industrial de homens na forma realizada pelos nazistas. Como pessoa real, teria apoiado tudo isso? Se não – por que essa insistência anti-humanista sobre a pretensão de validade das questões filosóficas? A filosofia de Nietzsche não foi, talvez, apenas uma grande gritaria? E se é assim, não deveria só por isso ser rejeitada? Aliás, basta ler as suas opiniões “sobre a mulher” para ter clareza sobre o medo patológico “da mulher” que o move. Mas sobre isto não se pode produzir uma filosofia. No entanto, se Nietzsche não tivesse só mantido à vista de todas as atrocidades por ele invocadas, mas tivesse filosoficamente pretendido levar à extrema consequência a sua necessidade civilizadora, então não pode ser absolvido até o fundo de tudo o que, certamente não em consequência do seu pensamento, mas absolutamente em sinistra afinidade com ele, aconteceu no século XX. É mais que discutível se Nietzsche poderia ter reconhecido no pequeno burguês barbarizado, Hitler, a encarnação da vontade de poder dos senhores. Mas, independente do modo que se trata, Hitler volta à esfera nebulosa da consequência prática do pensamento nietzschiano. A leitura da obra de Losurdo impõe esta visão.

Ambivalências

Em referência à colocação específica de Domenico Losurdo é possível perguntar também como seria preciso tratar uma filosofia que se desenvolve como epifenômeno de contextos, portanto, de interdependências extrafilosóficas. A resposta não é unívoca. Ela toca, entre outros, o sério problema da diferença entre a responsabilidade subjetiva e a integração do indivíduo num objetivo que vai além de qualquer indivíduo, objetivo que se torna o determinante do seu ser subjetivo. Se na sua realidade o homem é o conjunto das relações sociais nas quais vive, então o são também as suas elaborações espirituais. Vista nesta ótica, a filosofia de Nietzsche seria compatível com o que Marx atribui estruturalmente à religião: ao mesmo tempo a expressão de uma miséria real e o protesto contra aquela miséria real – onde indubitavelmente, no caso de Nietzsche, a “miséria” não é aquilo para o quê a religião deve oferecer consolo, mas o processo de civilização no qual a religião (monoteísta) pôde de fato promover-se apenas a instância moral. Mas se as monstruosidades filosóficas de Nietzsche são apenas a expressão de uma estrutura que vai além do seu universo de pensamento, então é preciso olhar para a superação dos excessos espantosos da sua filosofia e mais ainda da condição do mundo que as gerou – e que essa filosofia, por sua vez, combate criticamente. Não obstante, toda a reveladora obra de reconstrução de Losurdo não pode ser de fato posta em discussão – aliás, o próprio Losurdo diz isso – pois exatamente o pensamento de Nietzsche leva ao mesmo tempo à luz muito daquilo que na sua fascinante abissalidade e na coerência do seu olhar incorruptível mantém uma validade inegável; a sua crítica rigorosa da civilização ocidental e da modernidade como de processos relativos de massificação só aparentemente emancipadores, das suas estruturas de estranhamento e mecanismos de reificação, bem como dos seus aparelhos ideológicos que postulam a individualidade diante de uma desindiviualização objetiva do indivíduo; o desmascaramento da inautenticidade intrínseca do político, que no fundo se dedica às pulsões egoístas ansiosas de poder, mas sempre com uma roupagem exterior de nobres palavras; a indicação do terreno escorregadio em que se fundamentam as teses de um positivismo científico que agora atingiu a hegemonia – isto e muito mais ainda eleva sem dúvida alguma Nietzsche à sublime tradição crítica dos espíritos ilustres da época moderna ocidental.

No suceder-se do raciocínio aqui feito deveremos ter chegado ao que as contradições e as aporias da modernidade nos “ensinaram” como supremo imperativo dialético: não há outro caminho senão ter de suportar a ambivalência – ambivalência em relação às deformações estruturais da vida real, mas também daquelas da sua penetração espiritual e reflexão cultural.

Obs.: A versão em italiano deste texto está no blog de Domenico Losurdo:

http://domenicolosurdo.blogspot.com/2009/11/apologeta-del-dominio-la-traduzione.html