Mirante

06/abril/2008

O custo da guerra - A edição de março da revista The American Conservative trouxe como destaque o artigo "Oil for war", de Robert Bryce, que mostra uma situação paradoxal: os Estados Unidos empreenderam a guerra do Iraque para apossar-se do petróleo daquele país, mas o custo em petróleo de cada dia de guerra é altíssimo, pois os equipamentos bélicos são de crescente voracidade em combustível. É interessante notar que, como o nome indica, a revista é de orientação política conservadora. Um de seus fundadores é Pat Buchanan, conselheiro de Nixon, Ford e Reagan e candidato à nomeação do Partido Republicano para a campanha presidencial em 1992 e 1996. Leia o artigo em inglês aqui. Em língua portuguesa, uma versão apresentada no blog português O Carvalhadas, aqui.

A guerra completou agora cinco anos e quatro mil soldados estadunidenses mortos, num momento em que a resistência recrudesce, com o exército xiita de Al-Sadr voltando à luta. Roberto Fisk, um dos mais inteligentes e corajosos jornalistas que cobrem a guerra, faz um balanço impressionante do desastre no The Independent, de Londres. Ver aqui.

Integração
- Em Recife, os presidentes Lula e Hugo Chávez reuniram-se para tratar, entre outros assuntos, da integração energética entre Brasil e Venezuela. Um dos temas em debate foi a parceria Petrobras-PDVSA para a construção da refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco. Sobre o papel da estatal brasileira no processo de integração, não só com o vizinho, mas com todo o continente sul-americano, Lula disse que se deve agir com “generosidade e grandeza” e não pensar apenas na rentabilidade dos empreendimentos. Leia o que a BBC Brasil escreveu a respeito.

O Brasil e a crise – A repercussão no Brasil da atual crise econômica nos Estados Unidos foi objeto de duas entrevistas interessantes no Jornal do Brasil de 23.3, domingo. Uma, com o notável economista e historiador estadunidense Robert Brenner, que teme pelo efeito que uma depressão nos preços das commodities possa ter sobre a economia brasileira. Outra, com o atual diretor do IPEA, Marcio Pochman, que não ignora essa possibilidade, mas acredita que esse fator negativo seja neutralizado pelo potencial de crescimento do mercado interno e pela capacidade do governo brasileiro de sustentar uma política de desenvolvimento voltada para dentro do país.

Outra matéria interessante sobre o tema veio pelo O Estado de S.Paulo, dia 21.3, numa entrevista com Heiner Flassbeck, economista-chefe da UNCTAD, que chama a atenção para a armadilha em que caiu o Brasil, ao deixar que sua moeda fosse envolvida pelo cassino financeiro mundial. Ver aqui.

Manipulação
– Os quatro maiores jornais brasileiros em circulação conseguiram uma triste proeza neste domingo, 9.3: nenhum deles pôs na primeira página o principal fato da crise que ocupou suas manchetes durante toda a semana, o pedido formal de desculpas ao Equador pela invasão de seu território feito pelo presidente Uribe, da Colômbia, e a promessa deste de jamais repetir no futuro fatos dessa natureza, em violação da soberania nacional de seus vizinhos. Em contrapartida, há pletora de informações sobre supostos atos de colaboração dos governos da Venezuela e do Equador com as FARC, como se eles fossem os agressores, no caso. Em contraste, o New York Times deu relevo ao resultado da reunião do Grupo do Rio e reconheceu, em sua edição de 9.3, domingo, que "a Colômbia e seu aliado, os Estados Unidos, viram-se isolados na região”.

Mas podemos repetir Galileu: E pur si move. A manipulação midiática não muda o fato de que a política estadunidense de transformar a Colômbia no Israel da América Latina sofreu um duro golpe. Não chega a ser um knock-out, como o apelidou Fidel Castro em seu breve comentário sobre o fato (ver aqui), pois o poder econômico e militar dos EUA é muito grande e a luta em defesa da Amazônia contra as ambições imperialistas daquele país está apenas começando. (Ver a respeito o oportuno e inteligente artigo de Mauro Santayana no Jornal do Brasil.) Mas podemos dizer que essa humilhação a que se submeteu Álvaro Uribe, por força do isolamento e da hostilidade que teve de enfrentar na reunião de presidentes latino-americanos em Santo Domingo, fincou um marco na história dessa luta.

Equador: Rafael Correa, segundo Fidel
- Quando o nome do presidente do Equador, Rafael Correa, aparece na grande mídia nacional, é normalmente associado aos de Hugo Chávez e Evo Morales e estigmatizado. Na verdade, os três expressam a vontade de mudança dos povos que os elegeram -- mudança para uma sociedade menos opressora, menos desigual, mais soberana. Sobre o presidente equatoriano, leia aqui as impressões de Fidel Castro.

Eleições nos EUA
– Aproxima-se de uma definição o quadro de candidaturas para as próximas eleições presidenciais nos EUA. No lado republicano, firma-se a candidatura do senador McCain, de quem publicamos há dias um perfil levantado por Fidel Castro. No lado democrata, o senador Barack Obama parece vencer sua concorrente Clinton. Embora alguns digam que sua candidatura foi favorecida com fartos fundos de financiamento e generosos estímulos da mídia a fim de facilitar a vitória do conservador McCain, e outros, mais numerosos, vejam pouca ou nenhuma diferença entre os dois, ou mesmo entre um republicano e um democrata, há intelectuais de esquerda que manifestam esperança no senador Obama. O conhecido escritor e filósofo Immanuel Wallerstein acaba de divulgar um texto seu com esse teor. Embora cauteloso, ele acredita na eleição de Obama para presidente e acredita que, dentro de limites, seu governo será bom para os Estados Unidos e para o mundo. Seu texto pode ser acessado aqui.

Sobre méritos e carências do prof. Wallerstein, o leitor tem uma avaliação no comentário que está nesta página, no espaço referente ao seu livro O fim do mundo como o concebemos, publicado pela Revan.

O presidente da Venezuela
criticou a ação de lideranças aliadas a seu governo ao ocuparem o Arcebispado de Caracas. A ocupação, segundo os manifestantes, seria um ato contra dois “alvos revolucionários” – a hierarquia católica e um canal de TV privado. Hugo Chávez repudiou o ocorrido e ressaltou a inconseqüência de uma extrema esquerda que muitas vezes serve como justificativa para reações truculentas de direita, aventando inclusive a possibilidade de infiltração contra-revolucionária no acontecimento. Leia o que o jornal argentino Clarín noticiou a respeito.

Sobre revolucionários, infiltrações contra-revolucionárias e relações promíscuas promovidas por serviços secretos, leia O agente secreto, de Joseph Conrad.

O Manifesto Comunista
, de Marx e Engels, acaba de completar 160 anos. No dia 21 de fevereiro de 1848 foi publicada a primeira edição desse documento histórico que foi, ao mesmo tempo, um libelo contra as forças predatórias do capital, uma análise concisa do movimento dos trabalhadores na Europa e uma exposição das doutrinas socialistas da época. Libelo, análise e exposição lastreados no propósito de afirmar a capacidade transformadora de novos homens e novas idéias que se apresentavam.

Foi um panfleto, como muitos outros ao longo da história, mas, diferentemente de tantos que passaram – comoveram, mas passaram –, permanece sempre a instigar e motivar pela lucidez dos argumentos.

Leia aqui o texto integral do Manifesto.