Cherchez la femme – Esse velho mote policial na investigação por crime se aplica de modo curioso ao golpe de Estado ocorrido em Honduras. A mulher, no caso, é Chiquita, nome adotado por uma grande empresa estadunidense de produção e exportação de frutas que atua em Honduras e está no centro das articulações que levaram à deposição do presidente Manoel Zelaya. Uma esplêndida matéria do pesquisador e escritor novaiorquino Nikolas Kosloff, publicada no site estadunidense Counterpunch e divulgada em tradução para o português pelo blog O BERRO, mostra as implicações diretas de corporações imperialistas na região e dos governos dos Estados Unidos, os anteriores e o atual, no crime político praticado em Tegucigalpa. Ver a matéria original aqui e a tradução para o português aqui. Kosloff publicou em seu blog (senorchichero.blogspot.com) duas análises mais recentes e igualmente ricas de informação sobre o tema.
Galo cantou de galinha? – Diz a lenda que um galo, derrotado por outro, canta imitando galinha. Da matéria citada acima de Counterpunch e de outras que saem na Internet vem surgindo um novo e preocupante quadro: Obama apenas nominalmente preside seu país, e o poder real se exerce pelos militares e os grandes grupos econômicos de direita mais belicista, que se expressam através da secretária de Estado Hillary Clinton. De forma humilhante para ele, Obama calou-se quando a Clinton discrepou ostensivamente dele sobre o que fazer em Honduras: ele exigia a imediata devolução da Presidência a Zelaya, ela propunha negociações com os golpistas. Era caso de demissão por telefone, mas ele engoliu. Em seguida, Netanayhu bate de frente com ele, ao negar-se de público a interromper construções em Jerusalém Oriental e outras áreas consagradas por acordos aos árabes da Palestina, e ele outra vez nada disse. Israel depende até o pescoço, militar e economicamente, dos Estados Unidos, e seu governo dificilmente tomaria tal atitude se não contasse com apoios muito fortes em Washington.
Por ingenuidade ou farsa – qualquer dessas hipóteses abate a imagem positiva que sua campanha por mudanças deixou em bilhões de pessoas no mundo inteiro – Obama manteve em posições-chave de seu governo personagens de passado negro do governo Bush e convidou para secretária de Estado a rival que derrotara na eleição para candidato democrata à Presidência. Hillary Clinton aceitou, mas com vistas a fazer de seu cargo no governo um trampolim para ser de novo candidata nas próximas eleições, e para isso aceitou ser porta-voz dos grupos contrariados pela política de mudança democrática preconizada por Obama em sua campanha. Estes são maioria na mídia e no mundo empresarial-militar que há cinco décadas governa de fato o país. Obama vai reagir e impor-se? Cada dia que passa torna essa hipótese mais difícil e a acomodação, mais provável.
Mas a batalha em Honduras não acabou. Um forte apoio internacional a Zelaya e a disposição de luta do povo trabalhador hondurenho pode levar à reversão do quadro. Neste 21 de julho, ele parece favorável aos golpistas manipulados por Washington, mas pode rapidamente mudar.
Um panorama detalhado das implicações de Obama em Honduras pode ver-se no artigo do publicista estadunidense Michael Parenti, com tradução no sítio português Resistir, aqui.
O que há em Xingiang? – Domenico Losurdo enviou ao editor desta coluna uma análise que elaborou para a revista alemã Junge Welt sobre os conflitos em curso em Xingiang, na China, que opõem integrantes da etnia uiguri à maioria que é filiada etnicamente ao povo han, e sobre a política do governo chinês em relação ao problema. Historiador e filósofo mundialmente respeitado, Losurdo mergulha fundo na questão interna chinesa e nas pressões internacionais que sobre ela atuam. Ver o original italiano aqui e a tradução para o português aqui.
Choro por ti, Honduras – A situação em Honduras, criada pelo golpe de Estado e com toda evidência apoiado com mãos escondidas pelo governo dos Estados Unidos, prossegue em seu curso melancólico. Duas análises vieram a público na mídia alternativa brasileira que merecem especial atenção. A primeira, de Marcelo Salles, editor do blog Fazendo Media, publicada também em Caros Amigos. Ver aqui. A segunda, de Argemiro Ferreira, em seu blog pessoal. Ver aqui.
Volta ao quintal? – Com o passar dos dias, a situação em Honduras aparece com feições, nem mais nem menos, de uma nova tentativa de golpe de Estado no velho estilo da CIA. Com base militar em Soto Cano há 40 anos, os Estados Unidos têm estreitas ligações de comando e financeiras com os militares do país. Na véspera do golpe, o embaixador estadunidense em Tegucigalpa reuniu-se com os generais e civis golpistas. Hugo Llorens, o embaixador, tem longa ficha de participação em operações golpistas na América Latina, junto com Otto Reich, igualmente cubano-estadunidense e figura lendária nesse ramo intervencionista do governo de Washington. O presidente Obama mantém um discurso de aparência liberal, “exige” a devolução do governo ao presidente deposto, mas não usa a expressão golpe de Estado e instrui sua secretária Hillary Clinton a condenar o golpe – sempre sem usar o nome –, mas ao mesmo tempo recomendar “reflexão” sobre os acontecimentos e chamar as partes à conciliação. O repúdio mundial aos golpistas, desta vez, faz a diferença com a velha prática dos anos 70 e torna mais difícil a estabilização do governo de fato. Mas não é impossível que, afinal, vejamos de novo a consolidação do mando dos Estados Unidos num território que estes consideram há mais de século seu “quintal”. O jornal Granma apresentou um quadro sucinto e claro dos acontecimentos. Ver o original aqui e o texto transcrito aqui.
Prepotência ocidental – Michael Liebig, analista alemão de estratégia e política internacional, publica interessante análise da atual política dos Estados Unidos e seus aliados da OTAN no eixo Afeganistão-Paquistão. Mostra a prepotência e ao mesmo tempo a incompetência dessa política, que provoca grande destruição e mortandade, mas não pode ser vitoriosa, por lastrear-se numa visão estratégica obtusa e carregada de preconceitos idiotas. Liebig é editor do site www.solon-line.de (com versão em inglês). Ver matéria em tradução para o português no site MSIa aqui e texto transcrito aqui.