Coluna do editor

15/fev/2008

Estado laico sob ataque – Não despertaram o clamor que merecem as declarações da ministra Marina Silva em defesa do ensino do chamado criacionismo religioso nas escolas. Na campanha para introduzir essa contrafação no currículo escolar se empenham nos Estados Unidos as forças mais retrógradas daquele país, com apoio do governo Bush. Felizmente, a empreitada encontra lá forte resistência na opinião pública, inclusive na mídia, mas já alcançou êxitos localizados e se espalha pelo mundo. A separação entre o Estado e a religião, uma conquista da civilização que custou séculos de luta, está posta em perigo. Não pode portanto passar sem protesto a adesão a essa campanha, no Brasil, de uma ministra de Estado cujo perfil de integridade e espírito missionário é geralmente louvado. Abre-se com isso espaço, aliás, para os que não vêem apenas coincidência entre o fervor missionário da ministra em defesa da fossilização econômica da Amazônia e os interesses não disfarçados das grandes potências em reservar os recursos vegetais, minerais e hídricos da região para seu uso futuro.
Quanto ao criacionismo em si, o biólogo Sandro de Souza publicou na pág. 3 do caderno Mais da Folha de S.Paulo, em 27.01.08, um instrutivo artigo intitulado “Mas... é ciência?”, no qual mostra a falácia do chamado criacionismo. Também o filósofo Hélio Schwartsman, em sua coluna da na Folha Online de 31 de janeiro, disseca a sandice criacionista e critica a ministra Marina Silva por sua declaração intempestiva e inconstitucional de ofensa ao Estado laico. As matérias citadas não podem ficar disponíveis aqui para o leitor porque a Folha de S.Paulo não adotou ainda a prática já generalizada da mídia mundial de liberar a reprodução na Internet dos textos que publica.

Lula e Fidel – Fidel Castro publicou em três partes na imprensa cubana um depoimento interessante sobre seu recente encontro com Lula em Havana (as duas primeiras em Granma e a última, domingo, 27 de janeiro, em Juventud Rebede). Fala de seu interlocutor - com circunspeção, mas declarada simpatia -, do Brasil, do panorama internacional. Discorre sobre riscos de que os alimentos fiquem mais caros e raros com o programa em curso no mundo de produção de biocombustíveis. Expressa gratidão e admiração pela ex-União Soviética (mas ao mesmo tempo mostra que ficou gravada nele a versão de Kruschiov e da propaganda nazista a respeito do expurgo no Exército Soviético nos anos 1930). Relata episódios da vida de “Che” Guevara e das relações de seu governo com os Estados Unidos. Mostra que Lula não exagerava quando, ao chegar ao Brasil, fez largos elogios à lucidez revelada por Fidel. Ver a seguir o texto original, ou a tradução em português posta na Internet por Augusto Buonicori.

Renato Guimarães