Coluna do editor

24/out/2007

Cristina tem luz própria. Quem ainda acha que Cristina Kirchner é "laranja" do marido fará bem em ler a matéria do enviado especial da Folha de S.Paulo a Buenos Aires, Rodrigo Rötzsch, publicada hoje, 29.10, e reproduzida aqui na curiosa referência pela qual é conhecido o casal no país vizinho: "animal bicéfalo". Mostra que ela e Néstor Kirchner são desde jovens, além de parceiros na vida afetiva, parceiros em militância política, e ela não lhe fica a dever.

A eleição de Cristina Kirchner para presidente da Argentina é fato auspicioso para o Continente. Dá continuidade ao governo que tirou o país vizinho de uma crise catastrófica e que demonstrou muita coragem e firmeza diante dos poderosos do mundo para conseguir isso. Pôs a Argentina numa trilha de desenvolvimento rápido e soberano, em horizonte de cooperação com Brasil, Bolívia, Venezuela, Equador e quem mais venha por aí a juntar-se ao bloco que, aos poucos, vai desenhando e firmando na América do Sul um novo perfil de continente com destino próprio, não subserviente aos Estados Unidos.

Círculo viciado. O Jornal do Brasil publicou (22.10) interessante matéria de Ney Hayashi na qual se mostra que o investidor externo é de longe o mais beneficiado com o dólar barato no Brasil. É bom lembrar que a política de juros altos e favores fiscais ao investidor externo, seguida há anos pelo governo brasileiro, provoca a chuva de dólares que deprime o valor em reais desta moeda no país. Com isso, lucram os que remetem lucros e dividendos para o exterior, os bancos e rentistas do mercado financeiro – em grande maioria estrangeiros, como se comprova na matéria citada –, e os que operam com produtos importados. Perdem os ramos produtivos que competem com importados, ou seja, a base da economia nacional. Esta última se vê em situação degradante, que é ofuscada pela atual conjuntura de alta nos preços de commodities e de excesso de liquidez no mercado financeiro mundial, mas que a prazo maior tende a prevalecer.

O quadro se agrava com a recente decisão do Banco Central de interromper o processo de queda gradativa nos juros, não obstante, conforme informou há dias a seus clientes o Banco Alfa, a taxa de juros reais no Brasil permanecer com o título infeliz de mais alta no mundo. Enquanto aqui essa taxa é de 7,64%, em países onde os governos favorecem o desenvolvimento da economia interna, como China, Rússia e Argentina, ela é negativa ou próxima de zero. Na Argentina, é conhecido o esforço tenaz do governo no sentido de manter o peso diante do dólar a uma taxa não inferior a três por um (atualmente, 3,2 por 1), mesmo patamar em que no início do governo Kirschner estava o real, hoje sobrevalorizado em mais de 50%, a menos de dois por um.

Ao longo dos anos, essa política "sábia" de combinar juros altos com dólar barato conduziu a um efeito colateral que seria ridículo, não fosse trágico. Ao adquirir dólares no mercado com títulos do Tesouro, o Brasil trocou dívida de juro alto por créditos de juro baixo. Hoje, acumula uma reserva próxima de US$140 bilhões, que lhe rende juros de 5% ao ano, e remunera o mesmo valor aplicado em Títulos do Tesouro pelo dobro em juros. Ou seja, um prejuízo anual de US$7 bilhões, só em diferença de juros.

Getúlio Vargas teria hoje dados e argumentos ainda mais dramáticos do que aqueles em que baseou sua Carta-Testamento para denunciar ao povo brasileiro espoliação imperialista. Espanhóis, portugueses, franceses, italianos e cidadãos venturosos de outros países centrais do capitalismo fazem troça do Brasil porque hoje não precisam mais de Grande Armada, nem de navios piratas e bucaneiros, para saquear nossas riquezas. Substituíram-nos por bancos e multinacionais que, sem alarde e sem violência aparente, com toda a proteção da lei e do governo locais, levam daqui o ouro deles de cada dia, que ao fim de cada ano soma dezenas de bilhões de dólares e euros. Aqui deixam hospitais sem gaze, escolas sem professores, estradas sem manutenção e um povo com poder aquisitivo comprimido. Mandam para cá turistas sexuais para prostituir moças e meninas pobres, coíbem a migração dos jovens que a escassez de investimentos no parque produtivo nacional deixa excluídos do mercado de trabalho e que lá vão à busca de um futuro melhor. Como se isso não bastasse, compram com sobras do dinheiro que daqui levaram, às centenas, nossos melhores jogadores de futebol, desde os craques até os bonzinhos, que os clubes brasileiros empobrecidos não podem manter, para tornar o futebol brasileiro, que já foi o melhor do mundo e a festa do nosso povo, um espetáculo minguado e descolorido.

Tudo é assim mesmo tão escandaloso, e ao mesmo tempo tão claro e simples. Mas, se assim é, por que a mídia trata desses temas com discrição de conversa em UTI e lança para fenômenos reflexos, tais como bandidagens miúdas de senadores corruptos e de traficantes pés-no-chão, a artilharia grossa de suas manchetes? Boa pergunta.

Renato Guimarães

Chamados de "animal bicéfalo", Cristina e o marido fizeram carreiras paralelas

Folha de S.Paulo, 29.10.07

Rodrigo Rötzsch

"Presidenta, com a. Vão se acostumando." Essas foram as primeiras palavras de Cristina Fernández de Kirchner no lançamento de sua candidatura à Presidência argentina -em resposta ao público, que cantava "Cristina presidente".

Cristina parece querer recordar a todos constantemente de que é mulher. Embora tenha, na definição de um ex-namorado, "toda a sua libido voltada para a política", não se descuida da estética. Desde jovem, em suas próprias palavras, "sempre se pintou como uma porta".

O gosto pela estética a levou a ser apelidada por sua principal competidora, Elisa Carrió, de "rainha do botox". Cristina nega ter feito cirurgias, mas disse que não hesitaria fazê-lo "se sua cara começar a cair".

Outra paixão de Cristina, a política, a acompanha desde jovem. No curso de direito entrou na Juventude Peronista, onde conheceu Néstor Kirchner, com quem se casou, só no civil, em 1975. A política levou à prisão dos dois por um mês em 1976, mas o episódio não mudou os planos do hoje presidente: fazer fortuna na advocacia para entrar na política.

Kirchner virou prefeito de Río Gallegos em 1987 e governador de Santa Cruz em 1991. No Legislativo, Cristina acompanhou os passos do marido.

Muitos se questionam que mudanças um governo de Cristina trará em relação ao do marido, mas o casal vêm atuando há vinte anos como uma perfeita sociedade política. O ex-chanceler Rafael Bielsa os definiu como um "maravilhoso animal bicéfalo".

Cristina foi fundamental para que Kirchner chegasse à Casa Rosada. Enquanto ele governava uma obscura Província, ela era a senadora-estrela por contestar os governos Menem e De la Rúa. Com Kirchner no poder, o "bicefalismo" seguiu: Cristina defendeu no Congresso os projetos mais polêmicos.

Desde 2005, Kirchner começou a armar o terreno para que a mulher o sucedesse -ela concorreu ao Senado por Buenos Aires (37% do eleitorado nacional) em vez de Santa Cruz (0,5%). A partir daí, alimentou a dúvida que só teria fim em julho: o candidato seria "pingüim" ou "pingüim-fêmea"?

Se não será a primeira mulher a ser presidente -foi antecedida por Isabelita Perón (1974-1976)-, Cristina será a primeira mãe a fazê-lo. Os filhos não têm interesse por política. Maximo, 30, cuida dos negócios da família; Florencia, 17, vive com os pais em Olivos.

Cristina se diz "parte de um processo histórico", mas quer ser única: refuta comparações com Evita ou Hillary Clinton e diz que "a melhor coisa é ser parecida a si mesma". (RR)

* * *

Título público rende o dobro a estrangeiro

Jornal do Brasil, 22.10.07

Com queda do dólar e isenção de IR, aplicação de investidor externo dá ganho de 89% desde fevereiro de 2006, ante 42% de brasileiros

Em 2006, investimentos estrangeiros em títulos públicos somaram US$ 11 bi; neste ano, até agosto, fluxo era de US$ 14 bi

NEY HAYASHI DA CRUZ
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Com a queda do dólar e a isenção de Imposto de Renda dada pelo governo, as aplicações em títulos públicos feitas por investidores estrangeiros já chegam a acumular rentabilidade líquida próxima de 90% de fevereiro de 2006 para cá, ultrapassando o já alto retorno oferecido aos aplicadores brasileiros. Para efeito de comparação, desse mês até setembro passado, a inflação medida pelo IPCA ficou em 5,6%.
Os maiores ganhos foram alcançados por papéis de longo prazo corrigidos pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), os mais procurados pelos estrangeiros. Os títulos atrelados ao índice oficial de inflação com vencimento em 2045 já renderam, em dólar, 89% desde fevereiro do ano passado -mês em que começou a valer a isenção de IR para investidores internacionais-, considerando o fechamento da última quinta-feira. O investidor nacional que fez a mesma aplicação ganhou 42% em reais, já descontado o IR, cuja alíquota nesses casos varia de 15% a 22,5%, dependendo do prazo do investimento.
A alta lucratividade das operações dos estrangeiros se explica, em boa parte, pela queda do dólar. Em fevereiro de 2006, quando a moeda dos EUA era cotada a R$ 2,22 (hoje, vale R$ 1,80), um título público corrigido pelo IPCA com vencimento em 2045 era negociado a R$ 1.106,08 -o equivalente, à época, a US$ 487,49. A esse preço, o investidor que pusesse dinheiro no papel receberia, até seu vencimento, juros de 8,93% ao ano mais a variação da inflação.
De lá para cá, o grande interesse do mercado nessa aplicação -que garantia uma rentabilidade elevada num momento em que o Banco Central reduzia os juros- provocou uma valorização nos papéis.
Na última quinta-feira, o mesmo título era negociado a R$ 1.661,38. Com a valorização do real, porém, a cotação em dólar do papel já havia subido para US$ 919,36 -equivalente a juros de 6,23% ao ano. Ou seja, o capital investido pelo estrangeiro dobrou em menos de dois anos.
Nos títulos prefixados, os ganhos dos estrangeiros nesse mesmo período também foram altos. Os papéis com vencimento em 2008 se valorizaram em 64% em dólar, contra um rendimento líquido, em reais, de 26% conseguido pelos investidores nacionais.
No ano passado, os investimentos estrangeiros em títulos públicos negociados no Brasil somaram US$ 11 bilhões. Neste ano, até agosto, o fluxo já estava em US$ 14 bilhões (alta de 27,3% sobre todo o ano passado). Em fevereiro de 2006, estava em US$ 2,2 bilhões.
Carlos Cintra, gerente de renda fixa do banco Prosper, diz que é difícil afirmar se esses investimentos continuarão chegando ao Brasil daqui para a frente, mas ressalta que as aplicações em títulos emitidos pelo governo continuam "atrativas". "Quando comparadas aos juros norte-americanos, por exemplo, as taxas aqui ainda são muito altas", diz. A taxa Selic está hoje em 11,25% ao ano, e a taxa básica dos EUA, em 4,75%.

Novo cenário
Os elevados ganhos ocorridos nos últimos anos, porém, não vão necessariamente se prolongar por muito tempo. Isso porque a alta rentabilidade alcançada desde 2006 reflete, em boa parte, a expectativa do mercado, na época, de que o BC fosse continuar reduzindo os juros por um bom tempo. Isso fez muitos aplicadores buscarem títulos públicos que oferecessem alto retorno, o que explica a valorização dos papéis.
Agora, o cenário é um pouco diferente. Cintra ressalta que a alta da inflação observada nos últimos meses e o aumento nas projeções para o IPCA de 2008 colocam em risco o processo de queda dos juros. Ao analisar essa situação, na última quarta-feira o Copom (Comitê de Política Monetária do BC) interrompeu uma série de mais de dois anos de redução da taxa Selic, e a dúvida agora é quanto tempo vai se passar até que esse processo seja retomado.

Tabela de juros reais no mundo, em outubro de 2007: