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Coluna do editor

25/nov/2007

O verdadeiro crime organizado. Os que me honram com sua visita, especialmente aqueles que são sensibilizados pela maciça campanha midiática a favor de que "tropas de elite" matem pobres nas favelas, a pretexto de combater o crime organizado, farão bem em ler essa matéria publicada em Le Monde Diplomatique. O autor é Michel Chossudovsky, um eminente economista canadense, professor da Universidade de Otawa. A matéria é um alentado estudo sobre o verdadeiro crime organizado que afronta o mundo: o complexo de bancos, máfias e grandes empresas que operam o comércio internacional de drogas, armas e outros produtos ilícitos, num negócio que movimenta trilhões de dólares e absorve e corrompe Estados mundo afora. Esse complexo é que comanda todo o espetáculo, em cuja ponta mais ínfima estão os pés-no-chão que a polícia gosta de mostrar, presos e cabisbaixos, para os jornais e a TV. É leitura indispensável. Pode ser lida aqui na versão original em francês , ou na versão em espanhol, divulgada no site Globalizacion.

E Lula "comeu" a oposição. Com esse título (literalmente: "Y Lula se 'comió' a la oposición"), o principal jornal da Espanha, e um dos mais importantes no mundo, El País, publicou na sexta-feira, 16.11, extensa análise sobre a situação política brasileira. Assinada por Juan Arias, a matéria mostra Lula a ocupar todos os espaços políticos do país, deixando os partidos de oposição sem bandeiras e sem eleitores. "Animal político", lastreado no apoio popular, na habilidade pessoal e no poder de comprar votos no Congresso que lhe dá o manejo da verbas pelo Executivo, Lula não tem o que temer no horizonte, segundo o jornal. Para este, só resta à oposição levantar um programa corajoso de reformas, culminando - vejam só! - com a adoção do parlamentarismo, uma opção que já foi rejeitada em plebiscito pelo povo brasileiro duas vezes. Ver a íntegra da matéria.

Lucros feéricos. Enquanto anuncia que a maré boa para a produção industrial foi interrompida por uma queda 0,5% em outubro, com relação a setembro, o site Uol mostra que os bancos vivem momento de grande felicidade, com lucros nunca vistos. O que apenas ilustra o que foi escrito aqui nesta coluna em 19.10, com o título de "Círculo viciado". Veja o texto da Uol.

Desenvolvimento sustentado? Marcio Pochman, que embora jovem já assumiu a presidência do IPEA com prestígio formado de pesquisador, publicista e homem público brilhante, publicou na Folha de S.Paulo, com o título Falsos mitos, artigo interessante e bem fundamentado sobre características mais sustentáveis do atual processo de desenvolvimento brasileiro. Não invalida as observações feitas nesta coluna, edição de 19.10, com o título de "Círculo viciado", a respeito dos gargalos que a combinação de juros altos com dólar barato cria para esse processo, mas joga luz nova sobre o assunto.

Um índio contra o império. Com este título, a revista Piauí publicou em seu número de novembro matéria interessante sobre Evo Morales. Assinada por de Consuelo Dieguez, a reportagem mostra o atual presidente da Bolívia em dia de intensa movimentação política junto a núcleos populares. Em meio às andanças, no helicóptero, no refeitório para um lanche etc., ela conduz longa e variada entrevista que, apoiada em pesquisa histórica, resulta num rico retrato ao mesmo tempo biográfico e político do líder boliviano. Ver na internet em: www.revistapiaui.com.br/artigo.aspx?id=378

Natureza e atualidade do nazismo. Publicado em 2006, agraciado com o Prêmio Goncourt na França, traduzido em mais de 20 países (no Brasil, pela Objetiva, sob título As benevolentes e com resenha interessante e algo irreverente de Marcelo Backes, no "Idéias"/JB de 3.11.07), com mais de um milhão de exemplares vendidos em um ano, um livro que trata do nazismo centraliza há meses a atenção dos meios intelectuais do Ocidente. Trata-se de um romance, Les bienvellantes (Las benévolas, na versão espanhola) de Jonathan Littell, um escritor estadunidense de nascimento, francês de criação e agora espanhol de adoção. É um calhamaço de 900 páginas, no qual se narra a história de um carrasco alemão nazista e, através dela, se tenta mostrar a base cultural do nazismo na Alemanha. El País publicou há dias longa entrevista com o autor, que aqui reproduzimos, onde ele narra sua vida aventurosa e expõe suas idéias sobre política e cultura.

É curiosa a história das diferentes explicações para o nazismo que circularam no Ocidente desde o final da II Guerra Mundial. De início, tratou-se de atribuir o mal à "demência" de Hitler e de um pequeno grupo de degenerados que o cercavam. Aos círculos dirigentes da França, da Inglaterra e dos Estados Unidos não interessava aprofundar o assunto, pois eles foram simpáticos à ascensão nazista desde 1932 até 1941. Assistiram passivamente à ocupação da Áustria e da Tchecoslováquia pelo exército alemão, negaram-se a ajudar a República da Espanha enquanto ela era esmagada pelo exército fascista de Franco com ajuda ostensiva e maciça da Alemanha, entregaram à Wermacht, praticamente sem resistência, metade e depois todo o território da França. Mesmo depois de 1941, Churchill não escondia sua esperança de que a União Soviética se exaurisse na guerra contra o invasor nazista. Só depois das gigantescas batalhas de Stalingrado e Kursk, nas quais o exército soviético quebrou a espinha dorsal da máquina de guerra hitlerista e abriu caminho para seu avanço acelerado rumo à Alemanha, Churchill concordou com a invasão da França pelos exércitos aliados ocidentais aquartelados há anos na Inglaterra, o que afinal ocorreu em junho de 1944. Mesmo assim, apesar de muito mais próximos de Berlim e com muito menos forças inimigas a enfrentar no percurso, eles não conseguiram chegar antes dos soviéticos à capital do Reich.

Durante muitos anos, a mídia do Ocidente contentou-se com essa explicação primária, tola, segundo a qual meia dúzia de celerados encarrapitou-se por acaso no governo da Alemanha, enganou o povo alemão, e isso foi o nazismo. Com o tempo, a óbvia insuficiência ardeu nos olhos e começaram a fazer remendos. O cinema e a TV foram especialmente usados. Lançaram com enorme propaganda um filme, A lista de Schindler, onde se via o trabalho escravo que movimentava as fábricas na Alemanha nazista, mas isso ali parecia apenas episódico e mesmo assim era contrabalançado por um nazista "humano" e até benfeitor, o dono da fábrica. Outro filme de grande sucesso, A vida é bela, ao fazer lirismo e humor em meio aos campos de extermínio, também ajudou a familiarizar o público com o horror nazista ao mesmo tempo em que, de algum modo, o humanizava. A escolha de Sofia, em que a tragédia do nazismo é transportada para o plano íntimo de uma escolha pessoal, também foi ponto alto nessa ofensiva midiática para familiarizar o público com o nazismo. No mesmo El País, há um artigo instigante de Guillermo Altares, também reproduzido aqui, sobre essas tentativas da mídia de dar "naturalidade" ao nazismo.

Livros e artigos em jornais e revistas acadêmicas evidenciaram que o povo alemão apoiou em massa o nazismo, conviveu com milhões de escravos nas fábricas e fazendas e mostrou tolerância com o terror nazista. Coube então aos acadêmicos encontrar uma justificativa ideológica para essa "aberração". Foi quando se generalizou nos meios universitários ocidentais a aceitação do conceito de totalitarismo, que faz o favor de manter a análise no plano da superestrutura político-ideológica e dá de gorjeta a excomunhão do comunismo, ao equiparar Hitler a Stalin. Além do mais, o conceito vinha legitimado por Hannah Arendt, uma ideóloga com origem na esquerda e, ainda por cima, judia, com aura de vítima do nazismo.

Jonathan Littel, com Les bienvellantes, quer pôr um tijolo nessa construção ideológica que ao mesmo tempo explica e justifica o nazismo. Não li o livro, mas na entrevista a El País ele se esparrama em todas as direções para exibir o conteúdo da obra. A contribuição que acrescenta é apontar uma base para o nazismo na cultura germânica. Vê-se logo, portanto, que não sai da superestrutura. Não questiona o capitalismo e, ao contrário, chega a dizer que "Hoje, praticamente ninguém questiona o valor ético do capitalismo ou a democracia", entendendo por democracia, é claro, o regime liberal que é padrão na Europa e nos Estados Unidos, onde eleições e governos são pautados pelos donos do dinheiro. No mais, igual a Churchill, Littel teria preferido que a União Soviética saísse da guerra derrotada. Ele reconhece que na Frente Oriental – que é o cenário de sua narrativa –, onde o exército alemão enfrentava a resistência dos soviéticos, decidiu-se o fundamental da guerra, todo o demais não passando de escaramuças diante do encontro colossal que ali se dava. É raro que um escritor não comunista reconheça isso. Mas ele não esconde que a vitória soviética o decepcionou e estende a tudo o que é russo seu ódio ao comunismo, chegando nisso a qualificar de fascista o governo de Putin, o que é despautério de quem não sabe o que é fascismo.

Na verdade, Litttel, igual a todo ideólogo liberal, foge da evidência de que o regime nazista foi produto e instrumento do capitalismo na Alemanha. Foi uma estrutura política, ideológica e militar que se desenvolveu num país de capitalismo tolhido, cuja classe dominante dela precisava para instrumento de sua expansão imperialista, à qual era necessário o racismo a fim de justificar a escravização das grandes massas de população eslavas. Por ignorar isso é que ele comete o disparate de atribuir a um "equívoco" de Hitler a derrota alemã. A crer nele, se os alemães tivessem tratado com benevolência as populações eslavas, estas os teriam apoiado contra os comunistas. Ele simplesmente não percebeu que a brutalidade era inerente ao objetivo estratégico do capitalismo na Alemanha, cuja expansão para Leste tinha por propósito, precisamente, escravizar aos milhões as populações eslavas, além de apossar-se de seus recursos naturais.

Quanto a saber por que a população alemã apoiou esse regime imperialista, racista e terrorista, caímos no campo da psicologia de massas, e não sei se alguém já encontrou uma explicação satisfatória. Não é preciso ir muito longe no tempo e no espaço, contudo, para dar com exemplo semelhante de disparate: por que a invasão do Iraque teve 90% de apoio da população dos Estados Unidos, quando os motivos alegados para justificá-la eram sabidamente falsos? Indo mais longe e mais fundo: por que as sociedades capitalistas em geral, há apenas dois séculos, e antes delas muitas sociedades de classes, consideravam natural a escravidão? A explicação é no mínimo complexa, mas seja ela qual for não nos pode levar ao relativismo nem à indiferença. O regime nazista liderado por Hitler foi uma expressão bárbara do capitalismo na Alemanha, mas foi produto e instrumento de poder dele.

O grave é que não se trata aí apenas de uma discussão conceitual, literária. É o destino atual da humanidade que está em jogo. O fascismo e o nazismo são sempre alternativas políticas que o capitalismo tem à mão e, sob nossos narizes, elas estão de novo em gestação. De novo se recorre ao racismo e a outros pretextos mentirosos para acobertar agressões a países e povos, como faz hoje o governo dos EUA em relação aos povos árabes com o fim de apoderar-se de seu petróleo. A opinião pública no Ocidente está de tal forma insensibilizada que o vice-presidente da única superpotência, Dick Cheney, pôde anunciar em entrevista a iminência de uma agressão bélica dos Estados Unidos ao Irã sem que houvesse maiores demonstrações de estranheza na mídia e nos governos. A tortura é de novo admitida nos Estados Unidos como procedimento normal de interrogatório, com aval da Suprema Corte daquele país e até da APA - American Psychological Association, que há pouco se negou a aprovar moção que proibia seus membros de dar apoio a interrogatórios de prisioneiros em Guantânamo e outras "prisões especiais" mantidas ilegalmente e em segredo pelo governo estadunidense mundo afora. Condições para uma enorme tragédia se armam, à nossa vista, e é como se não quiséssemos percebê-las.

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Sobre o assunto, ver entrevista de Jonathan Littel e matéria de Guilllermo Altares em El País sobre a posição da APA.

Renato Guimarães

Falsos mitos

Folha de S.Paulo, 25.10.07

Marcio Pochmann

Nas reformas liberalizantes da década de 1990, vários mitos foram construídos. A realidade, porém, tem desconstruído a maioria

O BRASIL não está condenado à mediocridade, embora tenham sido dedicados esforços não desprezíveis nesse sentido.

Exemplo disso foi a vertente do pensamento liberal-conservador e suas ações concretas que contribuíram enormemente para apequenar o país. No auge das reformas liberalizantes da década de 1990, vários mitos foram construídos. Por si só, a realidade vem exercendo papel pedagógico dos mais importantes na desconstrução da maioria desses mitos.

Destacamos um conjunto de três relacionados à temática do trabalho. Primeiro, teve relevância na reorientação das políticas públicas dos anos 90 o falso mito da geração dos inempregáveis, tendo em vista a dicotomia entre a perspectiva do determinismo tecnológico na supressão dos postos de trabalho e o avanço na oferta de mão-de-obra. Por causa disso, pregava-se que o setor industrial não mais geraria emprego e o assalariamento estaria com os dias contados, restando, em contrapartida, o salve-se quem puder pelo auto-emprego (empreendedorismo) ou pelos cursos de qualificação profissional.

À medida que o Brasil vai se distanciando da visão neoliberal, o emprego assalariado volta a crescer, permitindo que o desemprego comece a diminuir. O país está longe do ideal, mas não há por que deixar de acreditar que o desemprego possa voltar às taxas inferiores a 3% da população economicamente ativa vigentes até a década de 1980, desde que nossa economia insista no ritmo de expansão acima dos 5% ao ano, acompanhado de um novo padrão de políticas públicas.

Em segundo lugar, deve-se destacar o falso mito de que o salário mínimo em alta implicaria elevação do desemprego (fechamento de empresas) e da informalidade das relações de trabalho (ocupações sem carteira assinada) ou queda do salário real (aumento da inflação). Diferentemente disso, percebe-se nos dias de hoje que a marcha de contínua recuperação do valor real do salário mínimo nacional vem acompanhada da manutenção da estabilidade monetária, queda do desemprego e da informalidade.

Constata-se também, ao contrário da cantilena neoliberal, o inegável papel do salário mínimo na contenção da desigualdade intersalarial no Brasil. Conforme os dados da Pnad 2006 (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), do IBGE, o rendimento dos trabalhadores de salário de base (intervalo do segundo ao quinto decis da estrutura da distribuição da renda do trabalho) foi o que mais cresceu em 2006 -12,6%, contra 7,8% no rendimento do extrato superior.

Por fim, em terceiro lugar, ganhou dimensão o falso mito a respeito do anacronismo da legislação social e trabalhista no Brasil. Além de antiga, pois constituída na década de 1940, se apresentava como um verdadeiro entrave ao avanço das relações de trabalho, pois suprimiria empregos e fomentaria a informalidade. Em síntese, a CLT era apontada pelos neoliberais de plantão como portadora do desemprego ou da ocupação precária.

Acontece que a cegueira situacional em que se meteram os automatistas e exclusivistas das forças de mercado os impediu de constatar não só que as medidas regulatórias do trabalho no chamado mundo desenvolvido eram ainda mais antigas que as do Brasil mas também que as mudanças executadas mais recentemente haviam gerado a volta ao passado, com intensa precarização e desigualdade entre os trabalhadores, conforme atestam estudos internacionais produzidos pela OIT (Organização Internacional do Trabalho) e pela OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico).

Como não poderia deixar de ser, as mais de duas dezenas de alterações introduzidas na CLT voltadas para a desregulação e a flexibilização do mercado de trabalho produziram o óbvio: perdas irreparáveis para a maioria daqueles que dependem do seu próprio trabalho para sobreviver.

Desde o afastamento do assédio liberal-conservador, que torna menos intensa a pressão pelo desmanche da legislação social e trabalhista, o mercado de trabalho reage menos desfavoravelmente aos trabalhadores. Não somente o emprego formal é o que mais cresce no país desde 2003 (4% em média ao ano) como também permitirá ultrapassar o estágio da estruturação do mercado de trabalho atingida na década de 1980, caso a economia continue a perseguir o ritmo de expansão acima dos 5% ao ano.

Assim como a quantidade do emprego depende da expansão da produção, com função determinante da política macroeconômica, a qualidade das ocupações está relacionada diretamente ao desafio da construção de um modelo econômico associado à nova regulação pública do trabalho.

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MARCIO POCHMANN, 45, economista, é presidente do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e professor licenciado do Instituto de Economia e do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Unicamp. Foi secretário do Desenvolvimento, Trabalho e Solidariedade da Prefeitura de São Paulo (gestão Marta Suplicy).

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"La cultura no nos protege de nada. Los nazis son la prueba"

El País, Viernes, 2/11/2007, 23:09 h

Entrevista Jonathan Littell

JESÚS RUIZ MANTILLA, 27/10/2007

Una novela de casi mil páginas sobre un asesino nazi se ha convertido en el libro del año en Europa. Jonathan Littell asegura que con Las benévolas quiso responder a una cuestión: la naturaleza del crimen de Estado.

Hay que ser muy chulo para marcarse un libro de casi mil páginas sobre algo tan recurrente como el nazismo o el Holocausto, ganar el Premio Goncourt y ni molestarse en ir a recogerlo. Hace falta andar muy sobrado para conseguir las bendiciones de los popes de la literatura mundial como un salvador de la novela y después venir a decir que no sabe si volverá a escribir otra. Pero así es Jonathan Littell, un autor raro y controvertido, un tipo que manifiesta cierto aire de superioridad si se le insiste en algo que le molesta; que es políglota y nómada, entre nihilista y revolucionario -trabajó en ONG en Rusia y Chechenia-; que parece claramente desubicado en este periodo de la historia, amante de la cultura griega y de la música antigua; que nació en Estados Unidos (Nueva York, 1967), pero escribe en francés, su otra lengua madre: la de un país al que fue a caer con tres años y del que ha acabado escapando también para refugiarse desde hace un año en Barcelona. Por su nueva ciudad pretende que le dejen tranquilo, que nadie salga en su busca, esconderse de todo el ruido mundial que ha terminado armando Las benévolas (RBA en castellano. Quaderns Crema en catalán), una vasta y magistral novela que se adentra en el corazón de todas las tinieblas de la mano de Maximilian Aue, un verdugo nazi encargado de exterminar sin miramientos todo lo que se le ponga por delante. En Francia fue el libro del año la pasada temporada. A medida que aparecen las traducciones en los más de 20 países que han comprado sus derechos, sigue creando auténtico asombro por su ambición, por su contundencia, por cómo consigue desmontar tópicos y despojarnos de incertidumbres que nos dejan todavía más desnudos y sin respuestas ante el horror. La semana próxima se publica en España.

"Me fascina el tema del verdugo en general, más en el mundo nazi. No quería centrarlo en una época actual"

"Nuestra sociedad se desliza por la memoria que le queda de haber formado parte de los buenos. Vive de los restos"

"También debía haber caído el comunismo, pero como ganaron la guerra pudieron sobrevivir casi 50 años más"

PREGUNTA. Se le podría describir a usted como todo un renegado.

RESPUESTA. ¿Cómo dice?

P. Para entendernos, renegado puede ser algo aplicable a quien se niega a escribir en su lengua materna, por ejemplo.

R. Bueno, el francés es como si lo fuera también. Me eduqué allí.

P. Es bilingüe desde niño entonces.

R. Sí, sí.

P. Pero lo ha elegido como idioma de expresión literaria y eso ya es algo. ¿Por qué?

R. Quién sabe. Yo no lo puedo explicar más allá de porque me gusta.

P. ¿Le gusta o es un compromiso estético?

R. Bueno, tengo una relación especial con la tradición literaria francesa, pero con la estadounidense también. Uno de mis escritores de referencia es Herman Melville. No es algo exclusivo. Mi ruso también es bueno, pero no escribiré en ruso.

P. ¿Por qué ha escrito una novela sobre el nazismo si es algo sobre lo que se ha insistido tanto?

R. Bueno, sí, se ha escrito mucho. Pero eso no significa que se hayan respondido todas las preguntas. Aquí, en Las benévolas, el tema es el verdugo, el asesino, sobre el que también se ha escrito, pero yo he querido acercarme a ello desde un punto de vista diferente, con otra perspectiva. Y la cuestión sigue sin contar con respuestas adecuadas. Me fascina el tema del verdugo en general, más en el mundo nazi. Ahí se puede estudiar a fondo, hay mucho material, documentos, unos a disposición de los alemanes, otros que lo han estado a mano de los soviéticos... Por eso lo situé en ese periodo. No quería centrarlo en una época actual, más contemporánea. Se podría, pero...

P. Además, se adentra usted, efectivamente, en la campaña rusa, que es lo más parecido al Apocalipsis que ha conocido la historia de la humanidad.

R. Cierto. Lo que fue el gran meollo de la guerra ocurrió en el Este. Yo, que me crié en Francia, sé que se le ha dado mucha importancia a la ocupación, la Resistencia y todo eso, pero no deja de ser poco más que un escaparate frente a lo que fue el enfrentamiento entre los soviéticos y los alemanes. Eso fue la esencia de la guerra.

P. Sin embargo, para la novela, Rusia cumple el cometido de escenario también porque se sitúa ahí, pero le sirve para abordar lo que fue por entero un fenómeno como el nazismo.

R. Ése era el objetivo, no sé si lo he logrado o no, pero lo he intentado.

P. Una de las cosas que más impactan del libro es que la filosofía, la ideología nazi, su manera de concebir el mundo estaba cimentada en bases culturales muy fuertes. Lo demuestra Max, el protagonista.

R. Algunos historiadores no estarían de acuerdo con eso.

P. Sí, pero más con usted, que en su libro lo desmenuza perfectamente.

R. Ya, es que he sido criticado precisamente por ello.

P. Está claro que las conclusiones a las que llegaron fueron salvajes, pero las bases eran muy fuertes.

R. Si usted lo dice, ¿qué puedo añadir? No debería comentar el resultado. Hay muchas opiniones, yo tengo la mía, pero, en fin. No voy a ser yo quien juzgue. He intentado, desde luego, adentrarme en las bases de su ideología, he leído muchísimo sobre esto, pero tampoco todo, ni en alemán. Por ejemplo, fui incapaz de terminar Mi lucha. Creo que comprendo el sentido de muchos aspectos de su ideología, pero hay muchos otros que no conozco. Los más emocionales son los que me resultan más ajenos, por ejemplo.

P. Ya, lo que le digo es que esa aproximación sorprende, me parece muy novedosa y atrevida en una novela.

R. Desde muy joven, recuerdo que parecía algo más o menos refrendado que el comunismo ha sido una ideología más seria que el fascismo. Que tenía su propia racionalidad, su sentido interno y nadie se tomaba demasiado en serio a los nazis. Cuando me puse a investigarlo, me di cuenta de que su ideario también se basaba en raíces sólidas. Sus diferencias con el fascismo, su pensamiento económico, todo eso es complejo. Me pareció que era una visión del mundo muy construida, que no sólo se reducía a lo que un loco vociferaba por la radio, aunque eso también funcionara.

P. ¿Se ha pecado de un desprecio y una minusvaloración ligera del enemigo en ese aspecto?

R. Tampoco. Hay que prestar atención a lo que los intelectuales de la época pensaban, sin ir más lejos. Los franceses, por ejemplo. En los años treinta, el estalinismo ya había eliminado a millones de personas, mientras que los nazis iban por unos miles de víctimas. Así que hacia el año 1937, Hitler parecía hasta una opción válida para muchos, eso sin entrar en factores de clase social. Si pertenecías a una familia acomodada, lo más probable es que te aliaras a la derecha y si no, a la izquierda, siempre con excepciones. Supongo que en España, lo mismo. En ese momento, con esa situación, el nazismo era una opción que después perdió todo crédito por los resultados. También debía haber caído el comunismo entonces, pero como ganaron la guerra, pudieron sobrevivir casi cincuenta años más.

P. Una de las conclusiones que se pueden sacar en este aspecto es que no podemos sentirnos seguros ni siquiera acorazados por la cultura.

R. Desde luego. Sólo los ingenuos pueden creer que la cultura te ayudará a ser majo.

P. ¿Ni eso nos vale?

R. La cultura no nos protege de nada. Los nazis son la prueba. Puedes sentir una admiración profunda por Beethoven o Mozart y leer el Fausto, de Goethe, y ser una mierda de ser humano. No hay conexión directa entre la cultura con C mayúscula y tus opciones políticas.

P. O éticas...

R. Eso mismo. Lo que trato de mostrar, de todas formas, con un personaje como Max es que también, en un periodo de la historia, aliarse con los nazis, para muchos, fue una opción ética. No es que eligieran ponerse de parte de los malos. Igual que los comunistas, optabas por una cosa u otra. Ser un demócrata, también. Incluso ahora, que ser un demócrata supone formar parte de un lado que a veces ampara cosas horribles, que tiene sus errores. Los que eligieron a los nazis, lo hicieron siendo conscientes de que tomaban un camino para ellos ético, cuyos errores o imperfecciones debían ser mejorados.

P. Pero todo aquel fracaso, aquel derrumbe ideológico nos ha hecho mucho más vulnerables, inseguros, nos ha dejado desnudos.

R. Así es la vida.

P. ¿Quería probar en su libro que no queda nada a lo que aferrarse después de aquello?

R. No soy un relativista.

P. Ah, no.

R. De ninguna manera. Mi trabajo lo que pretende es ayudar a comprender mejor las decisiones que cada uno tomamos y por qué las tomamos. Yo tengo las mías, mi propia ética, y no creo que ya sólo dispongamos de dos. Si tienes suerte, eliges las más decentes, incluso en tiempos difíciles podemos optar por cosas adecuadas, que eso es lo difícil. Hoy prácticamente nadie cuestiona el valor ético del capitalismo o la democracia y mira que hay cosas que se pueden cuestionar. Lo que me gustaría que aportara este libro es que hoy existen caminos éticos que se pueden seguir gracias a lecciones como aquélla. Aunque también ocurre que muchos chicos y chicas de cualquier Estado americano eligen marcharse a Irak a torturar gente. Éticamente están muy confundidos, está claro. Pero se puede entender esta confusión cuando existen juristas que en ese país legitiman la tortura, ¿qué puedes esperar? Cuando se les da una formación militar con arreglo a eso, ¿qué esperas? Si se pasan de la raya, ¿qué importa? O cuando contratas mercenarios para hacer el trabajo sucio, pues no deberían sorprendernos según qué atrocidades. No hay reglas. El problema es que las barreras que nos ponen no son sociales. No puedes esperar que alguien no te torture porque sea un buen tipo y se apiade, debes exigir que nadie torture a nadie, sencillamente porque existen leyes que lo prohíben y que eso se castigue.

P. El caso es que contra el relativismo tampoco vamos a resucitar un absolutismo de blancos y negros. ¿Cuál es la salida?

R. Cuando Dios desaparece, se nos presenta un dilema. Los valores deben referirse a algo, deben venir de algún lugar. En un mundo sin Dios, era difícil implantar un sistema ético y moral. Las ideologías vinieron a hacerlo, a reemplazarlo, pero también fracasaron, así que ahora no tenemos nada. Y los iPod no van a construirlo. Ni la venta y la compra o la publicidad. Estos valores en los que estamos del consumismo, el ganar dinero, no son nada. Nuestra sociedad se desliza por la memoria que le queda de haber formado parte de los buenos. Vive de los restos.

P. Y cuando dice que nos deslizamos, ¿ni siquiera usted confiesa contar con una sólida moral?

R. No digo que yo no la tenga, creo que la sociedad carece de eso.

P. En Estados Unidos, ahora hay más predicadores que nunca en la tele. ¿De dónde salen?

R. Mientras Estados Unidos retrocede hacia la religión, Europa regresa al nacionalismo, a las políticas de identidad. Cataluña es un buen ejemplo, los vascos, los belgas. Incluso los franceses, con ese Ministerio de Inmigración e Identidad nacional que ha creado el nuevo Gobierno. Hay crispación con los valores de identidad, lo que me parece muy negativo. Por otra parte, los intentos de construir ideologías positivas se basan en el ecologismo, la antiglobalización, son muy infantiles, inmaduras.

P. ¿Lo que se ha dado en llamar buenismo?

R. No es que se basen en eso, hay críticos, como Chomsky, muy brillantes. Tampoco digo que haya que crear una nueva ideología; simplemente, que si existe la posibilidad de que emerjan nuevos valores, basados en el respeto por los seres humanos y por este mundo, bienvenidos sean.

P. Pero la batalla ideológica sigue en pie. Más dulcificada, pero sigue en pie. Y en eso, los neocon, que serían la extrema derecha de nuestros días, parecen contar con ventajas.

R. Los neocon están acabados. En Estados Unidos, sin duda, les queda un asalto.

P. ¿Bush ha arrasado con todo, incluso con lo suyo?

R. Sí, si lo miramos bien, ¿qué son los neocon? Son gente que intentaron asaltar el poder ya con Nixon, Reagan y Bush padre y fracasaron porque nadie los tomaba en serio. Con Bush hijo lograron implantarse y su gestión ha sido un fracaso estrepitoso. Ya está, se acabó, fuera. Han fracasado.

P. Bueno, lo intentaron hace años, no lo lograron, pero con el tiempo sí. ¿Quién le dice que ahora no existen otros más radicales que alcanzarán el poder en unos años?

R. Entonces no les admitían por radicales. Reagan y Bush eran muy de derechas, pero no tanto como los Richard Pearl, Cheney o Rumsfeld y Wolfowitz. Por eso tampoco Bush ha contado con la gente de su padre. Bush Jr y Rove lograron una alianza en el Partido Republicano entre los neocon, los fundamentalistas religiosos y los liberales. Incluso los fundamentalistas y los neocon son diferentes. A los primeros lo que les interesa son comportamientos culturales, abortos, moral, y les da igual invadir países o la política exterior. Eso son planteamientos neocon y son los que han fracasado totalmente. La han jodido, se han ido al carajo y han dejado al país mucho peor de lo que lo encontraron. La cuestión para ellos es cómo salirse de Irak o Afganistán lo antes posible.

P. Ya, ya, pero, ¿quién le dice que no volverán?

R. Sí, aunque lo que la gente teme ahora es a los fundamentalistas religiosos. Los neocon eran un puñado de universitarios que no representaban a nadie, los otros han tejido toda una red de poder, con mucho dinero, son peligrosos de verdad. Gente que promueve ejércitos privados, uso de armas, esos sí que tienen peligro.

P. ¿Son lo más parecido a un nazi entre lo que se puede encontrar en estos tiempos?

R. No me gusta comparar, es algo diferente. No digo que un buen día no den un golpe de Estado. Lo que alientan son gente armada hasta los dientes que para un demócrata pueden llegar a resultar molestos. Dan miedo los ejércitos privados, ya he tenido experiencias con ellos en sitios como Chechenia.

P. Usted ha pasado parte de su vida en Rusia.

R. Sí, cinco años. Dos años en Chechenia y el resto en Moscú.

P. ¿Cree que el foco sobre Rusia se ha descuidado y que han ocurrido cosas graves por allí mientras el mundo miraba a otra parte?

R. Rusia, definitivamente, se ha convertido en un Estado fascista. Es evidente. La ideología oficial es racista hasta los huesos.

P. ¿Qué se podía esperar de un dirigente del KGB como Putin?

R. Ya, aunque no creo que esta situación pueda perpetuarse, es muy débil. Una salida para Rusia es posible, éste es como el último aliento del sistema anterior y pueden perder el control hasta el punto de que surja algo interesante. Los rusos demócratas no están del todo desesperados, ven que merece la pena porque algo se puede hacer.

P. Ya pero, mientras tanto, todo el panorama da mucho miedo.

R. Claro, Rusia es un país terrorífico. Tengo un amigo íntimo árabe que vive allí al que le han dado unas puñaladas mientras iba a su apartamento en Moscú. Es horrible.

P. ¿Usted llegó a tener problemas con las autoridades?

R. En Chechenia, constantemente. Y eso que terminé allí mi labor en 2001, cuando todavía no había tanto conflicto.

P. ¿Qué hacía?

R. Trabajar para una ONG. Acción contra el Hambre.

P. Cuando terminó, ¿dónde fue?

R. Trabajé sobre el terreno unos cuantos años y después decidí dejarlo para, por ejemplo, escribir este libro.

P. ¿Cuánto tiempo le llevó? Aunque es uno de esos libros que se escriben en la cabeza a lo largo de una vida.

R. En fin, me lo han preguntado 20 veces, así que lo sabrá.

P. Ya, pero cuéntelo.

R. Pues pasé muchos años meditándolo, y me llevó unos cinco años trabajar a fondo en él, incluyendo la investigación, la escritura, la corrección... La escritura en sí duró poco.

P. ¿Y no le parece que el resultado es demasiado?

R. ¿Qué?

P. Pues que se necesita a lo mejor menos de lo que ha escrito para dejar claro todo.

R. No lo entiendo.

P. Que el trabajo suyo a lo mejor apabulla.

R. No. ¿Por qué?

P. A veces parece excesivo.

R. Mire, es lo que tiene que ser... No sé.

P. Es cierto que cada libro tiene su propia medida, su cuerpo.

R. Bueno, yo me empeñé en conseguir lo que me propuse, que lo haya logrado es otra cuestión.

P. ¿Y qué quería conseguir? ¿Algo parecido a lo que se ha dicho, un Guerra y paz de nuestro tiempo?

R. No, no, no, qué va. Sólo responder a una pregunta sencilla que me planteaba. Y me llevó a algo demasiado largo para lograr una respuesta.

P. ¿Cuál era la pregunta, la gran pregunta que se planteó?

R. La naturaleza del crimen de Estado.

P. ¿La naturaleza del mal también?

R. Para mí, lo que es el mal no tiene tanta importancia, eso hay que dejarlo en manos de perspectivas religiosas. El mal es un resultado, no es algo trascendente, ni el bien tampoco. Son acciones que no remiten a estados ajenos al ser humano, dependen de la voluntad de las personas.

P. Seguramente, ha leído lo que Vargas Llosa dijo de su libro.

R. Eh, pues no recuerdo.

P. Dijo que era un libro impresionante pero que no dejaba resquicio de esperanza.

R. Ya, es que yo no creo en la esperanza. No tengo esperanza en nada. Si nos fijamos en el mundo, es todo un espanto. Ser una persona decente se pone difícil. En Occidente creíamos que habíamos encontrado un equilibrio, pero para el resto de la humanidad, la vida es una pesadilla.

P. ¿Y no hay solución, no ve solución?

R. Todos vamos a morir, ¿qué quiere que esperemos?

P. ¿No hay un hueco para la belleza?

R. Bueno, sí. La belleza está por todas partes.

P. Menos en su libro.

R. Hay muchísima belleza en mi libro.

P. Quizás arrasada por todo lo que le rodea.

R. Hay mucha, una puesta de sol bonita lo es, ocurra lo que ocurra. Da lo mismo que la contemplemos desde el Tibidabo que desde, no sé, cualquier sitio. No cambia.

P. A lo mejor son los ojos de quien observa los que pueden ensuciarlo todo, hasta lo bello. Nos resistimos a ver el mundo a través de esos ojos.

R. Puede ser. La belleza existe a pesar de los seres humanos. Si todos desapareciéramos de este mundo, no acabaríamos con ello. La belleza no depende de quién la observe. Por supuesto que contamos con ella creada por los seres humanos, el arte, sin ir más lejos, pero la belleza existe, naturalmente.

P. También la belleza se puede retorcer por personajes como éstos.

R. ¿Por quiénes?

P. Por los nazis.

R. No, eso es demasiado simplón. Eso es propio de los psicópatas. Buscar la belleza o la excitación en el crimen. Pero en el caso del nazismo, hasta los crímenes, que eran una estrategia de Estado, debían ser ejecutados por gente de lo más normal.

P. ¿Qué piensa de aquellos intelectuales, críticos, víctimas que no creen legítimo escribir del Holocausto si no se ha tenido nada que ver con la experiencia? ¿No les teme?

R. Me importan poco las reacciones, tampoco creo que se deba limitar a nadie. Todos tenemos derecho a un punto de vista.

P. ¿Y ha encontrado las respuestas que se planteó?

R. Diría que algunos elementos se aclararon. Pero no creo que exista una respuesta. En fin, ya saben cómo funciona ese sistema, cómo se organiza el terror de Estado, puede que se me hayan aclarado cosas aunque persisten, para mí, misterios.

P. ¿Se puede imaginar cómo fue?

R. Sigue siendo un misterio para mí. El hecho de organizar asesinatos masivos, el hecho de que sólo una persona pueda matar a otra me resulta extraño, raro, que mientras estamos aquí alguien pueda estar torturando en un sótano a un ser humano. Y eso que me he cruzado en la vida con gente que lo hace, con gente que ha asesinado, torturado con sus propias manos. A muchos. Pero aun así, me resulta extraño que en su cabeza quepa querer a sus hijos, a su familia y al tiempo torturar a sus semejantes o a hijos de otros. Intenté analizarlo y verlo a través de los ojos de Max, incluso él mismo trata de entender a quienes le rodean.

P. ¿Por qué dio a la estructura del libro una forma musical?

R. Está bien contar con el contrapunto.

P. Así que Bach tiene mucho que ver con este libro.

R. Sí, sí, por supuesto. Me gusta mucho.

P. Pero si ha dicho que no le queda esperanza y Bach proporciona bastante.

R. Me proporciona belleza, no esperanza. Es bueno saber que ha existido gente que concibe el mundo como Bach. Él creía en Dios, creaba para Dios, su música depende de inspiraciones teológicas, en lo que creía. Yo no lo comparto, pero me quedo con toda la belleza. Bach es precioso, pero nunca evitaría que una persona hiciera daño a otra, aunque me puedo equivocar.

P. Es que Bach trasciende lo teológico. Atraviesa lo divino y toca el alma de agnósticos y ateos también.

R. La fuga es una expresión musical del misterio de la Santísima Trinidad. Tres partes en una.

P. La Trinidad, ¿no es puro relativismo?

R. Claro, claro, pero para los cristianos es fe.

P. Ya, un dogma. Pero un dogma que viene a ser relativo: tres partes para un fin, tres prismas para un objetivo. Es el colmo de la relatividad. ¿Y usted toca algún instrumento?

R. No, no. Me gusta la música antigua y barroca, Purcell, Monteverdi. El siglo XIX, ya no tanto.

P. ¿Y Wagner?

R. ¿Wagner? No, por Dios. ¡Qué horror! Mi límite está en Beethoven. Después de eso, me pierdo, puedo aguantar a Chopin.

P. ¿Por qué no le gusta Wagner?

R. Porque es insufrible. Es como una papilla, pesada, pastosa. Menos mal que después, con Debussy y Schönberg, regresa la forma, aunque sea una forma discutible, pero es una forma.

P. Aparte de la búsqueda de respuestas, este libro denota una ambición profunda. ¿Cuál era, artísticamente?

R. Hacer una obra bien armada.

P. Además ganó el Premio Goncourt...

R. Hice todo por evitarlo pero, por desgracia, sí, me lo dieron.

P. Pero no lo recogió.

R. No lo quería.

P. ¿Por qué? ¿Por qué rechaza un premio que tanta gente ambiciona?

R. No creo que los premios tengan que ver con la literatura. Tienen más que ver con la publicidad y el marketing, pero no con la literatura. No me gusta eso.

P. Sí, pero bueno, es un buen premio, bien dotado, puede vivir ahora en Barcelona tranquilamente gracias a su impacto...

R. Me vine aquí antes. Sí, el dinero está bien, es otra cosa. Es que no me gusta la competencia y toda esa basura, a no ser que te interese más el estatus social que el arte. Tampoco escribí este libro para ganar dinero, eso lo puedo asegurar.

P. ¿Qué es para usted la literatura? ¿Cómo se contagió de ella?

R. Leyendo.

P. ¿Y qué es lo que leyó que le hiciera desear ser escritor? Porque hay libros que lo contagian y otros que no.

R. Desde luego, hay autores que me marcaron, Bataille, Kafka, Beckett, Melville... Y otros tantos.

P. ¿Es de los que creen que la novela ha muerto?

R. Sé que existe ese debate, pero no le veo mucho sentido. Mis gustos literarios son prosísticos, incluso sigo descubriendo cosas que me impactan. No veo que haya que arreglar el género.

P. Ese desprecio que dicen que ha mostrado usted por la cultura estadounidense, ¿es cierto?

R. No, no.

P. ¿Se le ha malinterpretado?

R. La gente ha escrito tanta porquería sobre mí que no le doy importancia. Hay elementos de esa cultura que no me gustan nada, pero no me puedo quejar. Desprecio ciertas maneras conservadoras, retrógradas y fascistas de ella, ese consumismo obsesivo, pero hay cosas muy interesantes al tiempo.

P. ¿Se siente un miembro de ese club de Bartlebys que fundó Enrique Vila-Matas?

R. Bartleby el escribiente es un libro que me fascina. Ese personaje que no dejaba de decir que preferiría no hacerlo, en cierto modo, fue mi actitud con el Goncourt, que pasaran de mí.

P. ¿En qué anda metido ahora?

R. Pues en nada. Apenas tengo tiempo para concentrarme en cosas serias con todo esto.

P. Pero, ¿escribe?

R. No.

P. ¿No quiere escribir otra novela?

R. Ya veremos. Me paso la vida en cosas que me vienen de este maldito libro, estoy harto.

P. ¿Maldito libro? ¿Ya lo odia?

R. No, haberlo escrito, no. Pero todo esto. Repetir esta entrevista 30 o 40 veces...

P. No da muchas.

R. Demasiadas para las que yo concedería. No le veo sentido a no ser que surjan cosas nuevas. Hay que hacerlo, es parte de su trabajo también, deben vender periódicos, es puro comercialismo, no tiene nada que ver con otra cosa. He hecho algunas entrevistas interesantes en las que han surgido algunos elementos nuevos y entonces valen.

P. ¿En ésta ha dicho algo nuevo?

R. No.

P. Pues añádalo.

R. No tengo más que añadir. -

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La banalidad del mal en la ficción

El País, 2.11.2007

Guillermo Altares, 27/10/2007

El tratamiento del exterminio en obras de creación ha despertado enormes polémicas desde la serie Holocausto hasta La vida es bella y Las benévolas.

Elie Wiesel, superviviente de Auschwitz, premio Nobel de la Paz y autor de impresionantes testimonios -como La noche- que arrastran al lector a los confines del mal y de la muerte, escribió sobre la Shoah: "Todavía no hemos conseguido abordar ese tema. Se queda fuera de todo entendimiento, de toda percepción. Podemos comunicar algunos retazos, algunos fragmentos; pero no la experiencia. Lo que hemos vivido nadie lo conocerá, nadie lo comprenderá". Wiesel, como muchos otros supervivientes, ha dicho muchas veces que la ficción no podía ni siquiera acercarse a la esencia de la catástrofe de los judíos de Europa, como la definió Raul Hilberg.

'Shoah', de Lanzmann, es el trabajo más impresionante sobre la destrucción de los judíos

La polémica se desató con la serie televisiva Holocausto, que a finales de los años setenta conquistó unas cuotas de audiencia espectaculares tanto en Estados Unidos como en la entonces Alemania Occidental. "Falsa, ofensiva y barata. Es un insulto para los que sobrevivieron. Lo que aparece en la pantalla no tiene nada que ver con lo que ocurrió", escribió Wiesel. La tragedia de la familia Weiss quizás era una serie barata y con seguridad ha envejecido muy mal. Sin embargo, provocó una auténtica conmoción en la sociedad alemana. La revista Variety recogió una encuesta que aseguraba que el 70% de los jóvenes de 14 a 19 años dijeron que habían aprendido más sobre la II Guerra Mundial en la serie que en el colegio. Holocausto quizás trivializaba, pero su labor didáctica, su capacidad para abrir los ojos a una sociedad que no quería ver, es enorme. ¿Merece la pena? No es la única pregunta que flota sobre esta cuestión.

En realidad, lo más complejo resulta saber qué consideramos ficción. Maus, en el que Art Spiegelman relataba la historia de su padre, un superviviente polaco, es un cómic, ganador del Pulitzer, pero no deja de ser un tebeo, en el que los nazis son gatos y los judíos ratones. Su capacidad de evocación del dolor, su reflexión sobre lo que significa ser un superviviente, es gigantesca. Lo mismo ocurre con La decisión de Sophie, la novela de William Styron sobre lo que llama "la negra noche del alma humana cuando millones de inocentes sufrían y morían bajo la dominación total de los nazis". Pero en este caso es una pura ficción, como lo es Las benévolas, aunque la minuciosa reconstrucción de la realidad es impresionante. Nada de lo que se dice en la novela de Littell es falso; sin embargo, todo es imaginado.

La lista de Schindler, la película de Steven Spielberg sobre un alemán que salvó a cientos de judíos de las cámaras de gas, está basada en hechos reales, ¿es una ficción? La misma pregunta se puede plantear sobre Adiós muchachos, el filme de Louis Malle sobre dos niños judíos escondidos en un internado (y denunciados), que muchos consideran uno de los retratos más duros y veraces (es autobiográfico) de Francia bajo la ocupación.

En el caso de La vida es bella, no hay ninguna duda de que es una ficción, una locura del cómico italiano Roberto Benigni. Aquí la cuestión que se abre es muy diferente, porque el humor no parece el vehículo más adecuado para retratar el horror. Pero esta película alcanzó a públicos inmensos (se llevó el Oscar al mejor filme extranjero), a los que no llegaría nunca un documental como Shoah, de Claude Lanzmann, quizás el trabajo más impresionante que se ha hecho nunca sobre la destrucción de los judíos europeos. El relato de un peluquero que narra cómo le tocaba cortar el pelo a las víctimas que iban a ser enviadas a la cámara de gas, y que tuvo bajo sus tijeras a su familia mientras se preguntaba si debía contarles de verdad, es uno de los muchos horrores que contiene el filme de Lanzmann (que dura casi diez horas) que demuestra que la vida es cualquier cosa menos bella. ¿La banalidad de la ficción como la banalidad del mal de Hannah Arendt? El debate continuará. Lo que está claro es que ya es imposible tratar de pensar el Holocausto sin Lanzmann; pero tampoco es posible imaginarlo sin Littell ni visualizarlo sin Spielberg.

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Columna Semanal de Amy Goodman, presentadora de Democracy Now!

Psicólogos en fase de negación de la tortura

Publicado el 21 de agosto de 2007

Por Amy Goodman

La semana pasada, la Asociación de Psicólogos de Estados Unidos (APA - American Psychological Association) rechazó una propuesta de moratoria que hubiera prohibido que los psicólogos miembros participen en interrogatorios en centros de detención de EE.UU. tales como la Base de Guantánamo y las prisiones secretas de la CIA, conocidas como "black sites" y repartidas por todo el mundo. En lugar de eso, la organización, que cuenta con 148.000 miembros, aprobó en su reunión anual en San Francisco una resolución que prohíbe a los psicólogos participar en interrogatorios en los que se usen ciertas técnicas agresivas. Muchos psicólogos de la propia APA opinan que la resolución no es suficiente.

El tema de la tortura y los interrogatorios se ha convertido en una cuestión delicada para la APA, la mayor organización de psicólogos de todo el mundo. Tanto la Asociación Médica de Estados Unidos (American Medical Association) y la Asociación de Psiquiatras de Estados Unidos (American Psychiatric Association) prohíben terminantemente a sus miembros que participen en interrogatorios llevados a cabo en lugares como Guantánamo, en los que no están garantizados los derechos humanos básicos. A estas organizaciones se les han unido otras, como la Asociación de Traductores de Estados Unidos (American Translators Association) y la Sociedad para la Etnomusicología (Society for Ethnomusicology). La traducción es una herramienta esencial en los interrogatorios y se sabe que se ha usado música estridente y continua como forma de tortura.

Una pregunta central en este debate es: "¿Hay psicólogos participando en torturas?". Mientras que la administración Bush niega una y otra vez que emplee métodos de tortura, un informe filtrado del Comité Internacional de la Cruz Roja afirma que ciertos métodos usados por EE.UU. "son equiparables a la tortura".

 

En una encendida asamblea de la APA celebrada tras la votación, el Dr. Steven Reisner, uno de los principales impulsores de la propuesta de moratoria, preguntó: "Quiero saber si la resolución que fue aprobada prohíbe que los psicólogos participen en sesiones en las que se usen las técnicas avanzadas de interrogación que el presidente de Estados Unidos autorizó a usar en las prisiones secretas de la CIA".

Los defensores de la postura de la APA son claros: los psicólogos deben estar presentes en estos interrogatorios para proteger a los presos, para asegurarse de que los interrogadores no se excedan. Los críticos argumentan que los psicólogos están allí para ayudar a los interrogadores y asesorarlos sobre la mejor forma de quebrar a los presos.

 

El Dr. Jeffrey Kaye, un psicólogo miembro de Survivors International, un grupo internacional de sobrevivientes de la tortura, afirma que hay un vacío legal: los psicólogos no pueden participar en interrogatorios en los que se usen técnicas agresivas, pero sí pueden ser partícipes de las condiciones severas de detención que se aplican a los presos. Kaye declaró: "Fíjense, ellos no usan la técnica de privación del sueño mientras te interrogan, la usan antes del interrogatorio, como parte de las condiciones de detención, con el propósito de ablandar a los detenidos para el momento del interrogatorio. Así que el ganador hoy, y estoy seguro de que sus abogados están muy contentos, es la CIA".

 

Mientras se daba comienzo a la convención, Anthony Romero, de la Unión Estadounidense por las Libertades Civiles (ACLU, por sus siglas en inglés), remitió una carta a la APA, instándola a adoptar una moratoria para frenar la participación de psicólogos en los interrogatorios, y alertando que los psicólogos podrían afrontar responsabilidades legales e incluso llegar a ser procesados. "Hemos encontrado evidencias preocupantes de la connivencia de psicólogos clínicos en el desarrollo e implementación de procedimientos pensados para infligir daño psicológico a presos de Guantánamo y otros centros de detención".

 

En un momento surrealista de la apertura de la sesión de la APA sobre ética e interrogatorios, una interrogadora del Pentágono, la "Dra. Katherine Sherwood" (parece haberse presentado bajo un seudónimo), quiso hacer saber a la concurrencia que los interrogatorios eran llevados de forma profesional. Afirmó que se le negó acceso a la historia médica de los presos: "Me gusta hacer pasteles en casa para los detenidos y llevo mis pasteles caseros a nuestras sesiones. Necesito saber si un detenido tiene alergia al maní, ya que algo así podría ser muy peligroso. Anteriormente había un procedimiento mediante el que... el enlace podía plantear una pregunta al personal médico, y éstos podían decidir si dar una respuesta o no".

Su costumbre de hacer pasteles le da un nuevo significado al término "psicólogos BSCT", siglas en inglés de Behavioral Science Consultation Team (Equipo de Asesoramiento en Ciencias del Comportamiento), que pronunciadas "biscuit" significan "galleta". Se trata de los psicólogos que ayudaron a desarrollar las técnicas agresivas de interrogación, y los que según el Comité Internacional de la Cruz Roja proporcionaron información sobre las "debilidades y salud mental" de los detenidos para ayudar a quebrarlos psicológicamente.

La carta de la ACLU redactada por Romero concluye con: "La historia de la tortura se halla inexorablemente vinculada con el mal uso de los conocimientos científicos y médicos. En pleno siglo XXI, ya no es suficiente denunciar o criticar la tortura; más bien debemos cortar de una vez todas las conexiones entre los sanadores y los torturadores. Como protectores de la mente, los psicólogos están obligados a promover el tratamiento humano de todas las personas