27/jan/2008
Crise Capitalista – Eleonora de Lucena, diretora-executiva
da Folha de S.Paulo e jornalista de bom texto, publicou em seu jornal,
nesta terça-feira, 22, excelente crônica sobre a atual crise financeira
espalhada mundo afora a partir dos Estados Unidos. O que ela diz, em resumo,
muita gente já disse e está repetindo agora: os capitalistas de
modo geral proclamam ter ódio à intervenção do Estado
na economia, mas adoram-na quando é acionada para seu benefício
direto, tal como faz agora o governo Bush. Mas ela o diz de modo especialmente
inteligente e de tal jeito que, ao final, fica arruinada a imagem do capitalismo.
Pode-se estranhar que a autora não acene com alternativa para esse regime
falido, mas vale apena ler. Aqui.
“Bolsa-família” de Bush – A rede CNN explicou
na noite de sexta-feira, 18, em que consistirá o “programa de ajuda”
de US$140 bilhões à economia estadunidense anunciado pelo presidente
Bush. Trocando em miúdos, será a entrega de cheques do Tesouro
às famílias a fim de que elas paguem dívidas e comprem
mercadorias. Muito parecido com o programa Bolsa-família adotado pelo
presidente Lula. Assim, os EUA se curvam ao Brasil. Desde a década de
1980, por pressão de Washington, os governos brasileiros adotaram uma
política – felizmente, em retração no segundo mandato
do governo Lula – de “Estado mínimo”, a pretexto de
que o sacrossanto e mitificado mercado por si mesmo resolve todos os problemas.
Agora, depois que nossa saúde pública e nossa escola pública
foram postos em estado de miséria, nossas rodovias ficaram esburacadas,
nossas Forças Armadas ficaram desequipadas e sem dinheiro até
para pagar a merenda dos soldados – e ocorreu igual em todos os países
dependentes dos Estados Unidos -, os sábios de Washington, hipocritamente,
sem sequer pedir desculpas pela desgraça que nos causaram, recorrem à
mais franca intervenção do Estado na economia – o que aliás
sempre fizeram, mas sem alarde. E nem pagam royalty ao governo brasileiro pela
cópia da fórmula.
Tributar os ricos? – Corre pela Internet, com pedido de adesão,
um manifesto em favor de uma reforma tributária que inverta a situação
perversa em que vive o país, na qual os assalariados pagam impostos e
os empresários, principalmente os banqueiros, recorrem a mil e uma artimanhas
legais que os tornam quase isentos de tributação. Clamar por essa
reviravolta, nas condições atuais do país, tem pouca possibilidade
de êxito. Lula exerce um governo com inegáveis aspectos positivos,
principalmente em política externa. Acaba de visitar Fidel Castro, a
quem tratou como amigo, o que não deixa de ser gesto corajoso, num país
onde boa parte dos jornais tem por norma acoplar sistematicamente o apodo de
ditador ao nome do líder cubano. Mas na política econômica
ele faz o oposto: mantém intocado e na aparência intocável
o esquema do governo anterior de carrear dinheiro farto para os bancos e para
os rentistas, via pagamento de juros - sempre muito altos - da dívida
do Tesouro. Nisso, ele tem o aplauso do Congresso, do Judiciário e da
business-mídia, que fora disso de modo geral o hostilizam. Não
obstante, vale a intenção, e aqui
vai transcrito o manifesto, que já tem numerosas assinaturas de entidades
e personalidades importantes na vida brasileira.
Chávez reagrupa suas forças – O êxito
da operação de resgate das prisioneiras das FARCs, com imensa
projeção na mídia internacional, resultou numa alta espetacular
da imagem interna e externa de Hugo Chávez, conquanto favorecendo também
a imagem do movimento guerrilheiro e do próprio governo colombiano, que
abriu caminho para a ação na selva de seu país. Esse ganho
chega em bom momento para o presidente venezuelano. Depois da derrota no referendo
de dezembro, ele percebeu a necessidade de reagrupar suas forças e repensar
sua tática, que se mostrara ambiciosa demais para o momento. Trocou ministros
identificados com a campanha pelo “sim” no referendo por personalidades
mais aptas a ensejar alianças com a parcela da burguesia interessada
no desenvolvimento nacional e com setores moderados da oposição
de classe média. Em contrapartida, empenhou mais esforço na organização
de partidos e movimentos de trabalhadores que o apóiam. Uma interessante
especulação sobre o tema é apresentada por Stephanie Blankenburg
no New Statesman londrino. Veja
aqui.
Benazir Butto - “Comment peut-on être Persan?” A
pergunta de Montesquieu – cuja tradução atual seria “Como
se pode ser iraniano?” - que expressa há séculos a estranheza
universal diante do desconhecido e do diferente, aplica-se bem, hoje, à
reação de um brasileiro médio diante de uma referência
ao Paquistão, país longínquo, estranho a nossos olhos,
distante de nossas preocupações correntes, mas que a toda hora
desponta na mídia, como que a desafiar nossos conhecimentos. Deve essa
notoriedade ao papel que exerce de peça-chave da estratégia de
dominação mundial dos Estados Unidos, o que, mesclado a seus conflitos
internos, provoca nele uma quase permanente crise institucional, com freqüentes
golpes de Estado e explosões de violência. A última delas
foi o assassinato da líder política Benazir Butto.
Tariq Ali, renomado acadêmico e publicista paquistanês com ativa
presença nos Estados Unidos e na Europa - esteve algumas vezes no Brasil
-, publicou há dias no London Review of Books interessante matéria
sobre a situação em que se envolveu madame Butto. Já o
título, “Filha do Ocidente”, indica a percepção
do autor. Um relato de manobras estadunidenses, tramas de corrupção,
intrigas familiares e tribais compõem um cenário rico de informações
e indicações. Quem se preocupar com as tintas anarco-trotskistas
de Tarik Ali pode, no caso, descansar: elas pouco influem nesse texto do inventivo
e talentoso escritor. Ver
aqui.
Polônia balança – O governo Bush nem teve tempo
para comemorar a eleição domingo de seu afilhado Saakashvili para
presidente da ex-república soviética da Geórgia. Já
na segunda-feira, 7 de janeiro, o ministro do Exterior da Polônia Radek
Sikorski, em estrondosa entrevista, questionou os fundamentos do projeto de
construir bases de foguetes na Polônia, que está no centro da atual
estratégia militar estadunidense em escala global. Segundo o New
York Times, o chanceler disse que “este é um projeto americano,
não um projeto polonês”. Pôs em questão os custos
materiais e políticos para seu país e, mais contundente, disse
que “não sentimos ameaça alguma vinda do Iran”, com
o quê derrubou o pretexto com que Washington justifica esse projeto que,
na verdade, se volta contra a Rússia. Pode ser um movimento para aumentar
o preço da adesão, mas o fato é que novo governo polonês
se preocupa com suas relações com os vizinhos russos e é
diferente do anterior, um aliado incondicional dos Estados Unidos. Ver aqui
a íntegra da matéria do NYT.
Feliz 2008 – Entramos em 2008 com
muitas mudanças no mundo. Boas e ruins, mas sempre mudanças, que,
no dizer de Camões, são o único permanente no Universo.
Para sinalizar essas mudanças, que chamam à reflexão, nada
melhor do que um texto de Eduardo Galeano, publicado no jornal Pagina 12.
O site do MST brindou o público brasileiro com a versão em
português. Quem preferir o original, pode encontrá-lo aqui.
Renato Guimarães