Mirante

29/abril/2009

Rumo errado – Paul Krugman está alarmado com o rumo adotado pelo governo Obama para sanear a economia dos Estados Unidos. Em artigo publicado em 23.3 no New York Times, ele argumenta que, ao despender enormes somas de dinheiro público na compra de títulos desacreditados - batizados nos jornais de “lixo tóxico”-, o governo de seu país apenas forra os bolsos dos mesmos banqueiros imprudentes que provocaram a crise, e não concorre para solucioná-la. Com o prestígio reforçado pelo Prêmio Nobel que recebeu, Krugman é dono de opinião muito ouvida e acatada. Ele apoiou publicamente a candidatura de Barack Obama e, por isso, sua preocupação agora com o rápido desgaste e possível fracasso do novo presidente estadunidense chama a atenção da mídia e dos meios acadêmicos progressistas em todo o mundo. Veja o original do artigo aqui, a transcrição do texto aqui e a tradução para o espanhol, publicada em El País, aqui.

Inversão – Marcio Pochmann publica neste 24.3 na Folha de S.Paulo artigo com visão original sobre a atual crise econômica. Observa que a crise provoca um processo de inversão da tendência à globalização que predominou nas últimas décadas. Esse momento, que ele chama de “desglobalização”, cria oportunidade para ascensão de novas lideranças entre os países, de cuja ação pode resultar uma reorganização das instituições que comandam a economia no mundo. Pochmann, não é demais lembrar, é professor de economia na Unicamp, atual presidente do IPEA e autor de vários livros. Na Revan, está no prelo outro título dele, Força de trabalho e tecnologia no Brasil, a sair no início de abril. Ver o artigo aqui.

Xadrez na Ásia – A fala belicosa de Barack Obama direcionada ao Afeganistão já virou passado. Diante do buraco sem fundo em que se transformou a campanha afegã e da falta de recursos para levar adiante a estratégia de guerras sem fim de Bush, diplomatas e militares dos EUA já falam em saídas políticas para as relações com toda aquela vasta região euro-asiática, inclusive em aliança com grupos talibãs, até ontem tidos por terroristas condenados a arder no fogo do inferno. Poloneses e tchecos que mostraram servilismo ao franquear seu território para bases de foguetes estadunidenses voltados contra a Rússia são desmoralizados perante o mundo e seus próprios povos, quando Washington acena para Moscou com a desistência de tais projetos. Enquanto ainda troam os canhões da guerra, uma intrincada teia de negociações se desenvolve, como se fora um imenso e sutil jogo de xadrez, envolvendo os Estados Unidos, os países da OTAN, a Rússia, o Irã, a Turquia, o Paquistão e outros países que têm interesses a defender naquela vasta e rica área. O Asia Times publicou, em 11 de março, interessante artigo sobre o tema, do ex-diplomata e pesquisador indiano M. K. Bhadrakumar. Ver o artigo original aqui, o texto transcrito aqui e a tradução em português aqui.

Unasul avante – Quando se trata de fatos positivos para o governo Lula, a imprensa internacional costuma divulgar com mais destaque do que a brasileira. Esse também parece ser o caso da reunião de instalação do Conselho de Defesa Sul-Americano que terá lugar neste 9 de março em Santiago do Chile. El País, da Espanha, dia 8.3, dedicou ao tema comentário especial, onde relata o processo demorado e trabalhoso de articulações diplomáticas que levou a esse resultado, mostra a importância estratégica que a instituição tende a assumir no cenário mundial e atribui à inteligência política de Lula, “um grande estrategista”, diz, o mérito maior pelo sucesso. Com certeza aí há a tentativa do jornal de menosprezar Hugo Chávez, que foi sempre defensor mais entusiasta que Lula da idéia, mas por quem os círculos dominantes espanhóis têm rancor. Não há dúvida, porém, de que o trabalho do Itamaraty e, em particular, do presidente Lula foi decisivo para que o projeto de união e solidariedade sul-americana no plano de defesa militar chegasse a esse patamar inédito. Veja o original da matéria de El País aqui e o texto transcrito aqui.

Modelo fracassou – Famoso por ter anunciado desde 2002 a crise iminente do sistema capitalista, o professor da Universidade de Nova York e analista econômico Nouriel Roubini, colunista do Financial Times, volta ao tema para analisar a evolução da crise, afinal explodida. Segundo ele, a evolução será longa, profunda e generalizada. “É o modelo anglo-saxão de economia que faliu”, diz. Embora no Brasil haja sinais de recuperação de demanda e de investimentos em vários setores importantes – automóveis, eletrodomésticos, construção -, será útil conhecer a visão de Roubini e guardar as devidas cautelas. Ver a matéria publicada com a tradução do artigo na Carta Capital aqui e o texto transcrito aqui.

O túmulo afegão – Jornalista e escritor brasileiro, com destacada atuação na Folha de S.Paulo nos anos 80, Pepe Escobar é há anos colunista do Asia Times, do Paquistão, com muitos leitores no mundo inteiro. O Afeganistão é o foco principal de sua atenção. Ficou famoso por um artigo que publicou uma semana antes do atentado das Torres Gêmeas (texto disponível em http://www.atimes.com/ind-pak/CH30Df01.html), no qual advertia os estadunidenses para os erros que cometiam no combate a Osama Bin Laden e para a forte base popular deste líder entre os muçulmanos.

Dia 27 de fevereiro, Escobar publicou outro artigo interessante sobre o tema, no qual prognostica que o governo Barack Obama se meterá num atoleiro sem vitória possível com a política que adota para o Afeganistão. Compara a situação atual dos estadunidenses na região com aquela que lá enfrentaram os soviéticos nos anos 1980. E mostra que, além de desastrosa para os Estados Unidos, é uma política criminosa. A matéria original está disponível aqui, o texto transcrito aqui e sua tradução para o português aqui.

Juristas clamam por justiça nos EUA – El País publica, em 17.2, entrevista com o notável jurista e autor argentino Raúl Zaffaroni, na qual este dá conta de documento firmado há dias em Genebra por um grupo de personalidades do mundo jurídico. A finalidade do documento é alertar a opinião pública para os graves riscos que a política de negação dos direitos civis, seguida em anos recentes pelo governo dos Estados Unidos, criou para a ordem jurídica e apelar para o novo governo estadunidense no sentido de que mude o curso dessa política. (Vários títulos fundamentais de Zaffaroni foram publicados pela Revan.) Veja a entrevista aqui e o texto transcrito aqui.