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31/dez/2007
Mais força para o Sul. Meados de dezembro foi momento de forte impulso no rumo de um desenvolvimento autônomo da América do Sul. Reuniu-se em Montevidéu a cúpula de presidentes dos países do Mercosul, com resultados notáveis nas áreas econômica e política, sendo de se ressaltar, nesta última, a demonstração de solidariedade com a Bolívia, ameaçada de secessão por grupos internos de direita. Em seguida, houve a reunião em La Paz dos presidentes da Bolívia, do Brasil e do Chile, que traçou o caminho da reordenação do comércio no continente para um eixo Pacífico-Atlântico passando pela capital boliviana, além de firmar importantes acordos de investimento brasileiro na produção boliviana de gás. Imediatamente após, os presidentes Lula e Chávez, em Caracas, firmaram diversos acordos importantes de cooperação econômica e política. O período culminou com a reunião de cúpula dos países que participam da Petrocaribe, com a Venezuela ao centro, também com resultados notáveis no fomento da cooperação regional. Como de hábito, a mídia no Brasil desdenhou essas manifestações de autonomia em relação aos EUA. Mas circula na Internet uma rica informação sobre o assunto, e um bom resumo da situação pode ser acessado aqui, no blog do jornalista Luiz Carlos Azenha.
Oscar Niemeyer. Muitos textos, inumeráveis, foram impressos ou lidos na mídia sobre os 100 anos de Oscar Niemeyer. Um dos mais belos com certeza é o que Mauro Santayana escreveu dia 16.12 para sua coluna “Coisas da política”, no Jornal do Brasil. Leia aqui.
Rússia abastece Iran. “Os Estados Unidos perderam uma longa batalha quando a Rússia (...) forneceu combustível nuclear para uma usina de energia iraniana”, disse o New York Times, em 18.12, e com razão. Este foi mais um fato significativo da mudança fundamental que vem ocorrendo nas últimas semanas no sentido do debilitamento estratégico dos EE.UU., tanto no aspecto militar, quanto no econômico e no político. Poucos anos atrás, o governo Bush se achava com o direito e o poder de impor sua vontade no mundo, até nos recantos mais longínquos. Continua a se achar com o direito, mas sabe que já não tem o poder, se é que algum dia o teve. Veja a íntegra da matéria.
Fogo baixo no Iran. A revista Newsweek publica em 10.12 bem elaborada matéria para indicar que se reduziu muito a possibilidade de bombardeio do Iran pelos EE.UU., com a presença de Robert Gates na chefia do Pentágono. Para Gates, que teria posto o belicoso Dick Cheney “sob controle”, a hipótese seria “uma calamidade estratégica” para seu país. Sua preferência, que teria apoio de Condelezza Rice e dos principais chefes militares, seria consolidar a presença estadunidense no Iraque e manter o Iran sob pressão, mas sem fogo alto. Essa atitude teria inclusive apoio do Partido Democrata. O futuro continua incerto, mas, até aqui, ponto para Ahmadinejad, o calmo e risonho presidente do Iran, que não entrou em pânico com os urros de Bush e mantém serenidade e firmeza frente ao sufocante cerco mundial orquestrado por Washington contra seu país. Leia aqui a íntegra da matéria.
Banco do Sul. No dia 9.12 formalizou-se a fundação do Banco do Sul. A cerimônia, em Buenos Aires, foi o último ato oficial de que participou Nestor Kirchner na qualidade de presidente da Argentina. Participaram também os presidentes do Brasil, da Bolívia, do Equador, do Paraguai e da Venezuela, além da presidenta eleita Cristina Kirchner. O Uruguai também participa do Banco, mas o presidente Tabaré Vasquez não esteve presente.
Não é por acaso que o Banco do Sul é tratado com desdém pela business-media no Brasil: afinal, não é iniciativa bem-vista por Washington. Sua finalidade é precisamente gerar uma alternativa sul-americana para o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, duas entidades que ao longo das décadas têm servido de instrumento do governo dos Estados Unidos para o comando das economias do continente.
Com capital correspondente a sete bilhões de dólares e sede em Caracas, o Banco do Sul tende a ser poderoso instrumento para uma gestão de desenvolvimento econômico independente e centrada nos interesses dos países da região. Sua meta de chegar a uma moeda regional comum, descolada do dólar, é mais um peso que se soma ao processo mundial de enfraquecimento da moeda estadunidense e de perda por esta da função que ainda exerce de moeda mundial.
O tom dos discursos presidenciais proferidos na cerimônia de Buenos Aires foi de forte crença na importância e no futuro do Banco.
O primeiro a falar, pela ordem alfabética dos países, foi o presidente da Bolívia, Evo Morales. Apesar de muito pressionado pela crise política em seu país, onde as regiões mais ricas, controladas por forças conservadoras, se declaram em franca rebelião, Evo Morales não se intimidou e vaticinou para o Banco do Sul um papel fundamental no desenvolvimento de nossos países, “não só econômico, mas também social”. Rafael Correa, do Equador, enfatizou a importância do Banco para livrar o continente das imposições do neoliberalismo.
Muito aplaudido foi o discurso do presidente Lula, que se sabe ter sofrido muita pressão no Brasil para que nosso país não participasse do Banco. "Só fortemente unida e integrada, a América Latina poderá ocupar o lugar que lhe corresponde no concerto das nações”, disse ele, para acrescentar que a criação do Banco “é um passo importante para fortalecer a autonomia financeira regional" e destacar que será "o primeiro banco internacional realmente controlado" pelos países que o integram. Afirmou que Evo Morales "é a coisa mais extraordinária que ocorreu na América do Sul" e declarou que as relações do Brasil com a Venezuela são “fortes e sólidas”. Referiu-se com especial calor às boas relações do Brasil com a Argentina e à sua colaboração com o presidente Kirchner.
Um relato sóbrio da cerimônia foi feito pelo jornal La Nación e pode ser lido aqui.
Ruço no Iraque - Há incerteza além do normal para enxergar os fatos no Iraque. A violência diminuiu, a luta intertribal parece ter amainado, o número de baixas nas tropas estadunidenses diminuiu. O comando militar dos EUA atribui esse seu êxito aparente ao reforço de suas tropas de ocupação e a novas habilidades adquiridas por elas para fazer alianças com a população local. Mas há muitas dúvidas no ar. Entre elas, o papel de “aliado” dos EUA que desempenha a Al Qaeda, que inexistia no Iraque ao tempo de Sadam Hussein mas que tirou proveito da confusão da guerra para lá entrar e provocar, entre facções tribais inimigas, a unificação para o combate a ela. Há também um jogo dúbio de alianças entre líderes xiitas e o governo do Iran, além de atitudes ardilosas de iraquianos em relação aos ocupantes estrangeiros. Jon Lee Anderson, um dos mais renomados jornalistas que tratam do Oriente Médio nos Estados Unidos, joga luz sobre essas dúvidas e charadas em matéria que enviou do Iraque. Ver o original em The New Yorker. Quem preferir o texto em espanhol, pode ler a versão publicada por El País.
Renato Guimarães