Sumário
As duas principais bolsas de valores da Rússia retomaram as suas atividades em 19 de setembro, após a operação ter sido suspensa por dois dias, quando as ações desabaram. A reação do governo russo à crise revelou simplesmente quanto poder o primeiro ministro russo Vladimir Putin tem – tanto dentro do governo quanto sobre os oligarcas russos.
Análise
As duas principais bolsas de valores da Rússia – a Russian Trading
System (RTS) e a Moscow Interbank Currency Exchange (MICEX) – retomaram
as suas atividades em 19 de setembro após a negociação
ter sido cessada por dois dias, depois de uma queda drástica que deixou
a economia e o governo russos em clima de pânico. Mas, na medida em que
os mercados voltaram a operar em alta, uma coisa foi revelada no processo: simplesmente
quanto poder o primeiro ministro russo Vladimir Putin tem sobre as decisões
do governo e sobre os empresários que detém um montante tão
grande do dinheiro do país (e do mundo).
Os mercados russos tiveram uma forte queda em 16 de setembro antes de as autoridades
cessarem a negociação nas bolsas uma hora mais cedo, com a MICEX
caindo 17% e a RTS denominada em dólares caindo 12%. Esse tombo levou
a queda da RTS a quase 60% em relação às suas altas de
meados de maio e veio acompanhado da notícia de que o rublo havia se
tornado a moeda de pior desempenho entre as moedas principais do mundo.
Existem muitas razões para a espiral do mercado de ações
russo; a mais óbvia é a perda da confiança dos investidores
ocidentais após a guerra Rússia-Geórgia. O Kremlin já
tinha deixado os investidores nervosos com suas flagrantes investidas sobre
ativos estrangeiros, mas a demonstração pública de força
russa usada contra os seus vizinhos agravou este nervosismo. O toque final de
tudo isso é o fato de que os preços do petróleo bruto –
que havia inundado a Rússia com dinheiro recentemente – caíram
para US$ 90 por barril, e os mercados de ações desabaram com a
incerteza geral em torno da Rússia.
A consolidação do poder de Putin
O governo reagiu simplesmente fechando os mercados uma hora mais cedo em 16
de setembro e então novamente uma hora após eles terem aberto
em 17 de setembro porque eles tinham desabado de novo. Enquanto os mercados
permaneceram fechados em 18 de setembro, houve uma intensa movimentação
e reuniões entre os oligarcas russos (cujas companhias eram as mais importantes
que entraram em mergulho) e o Kremlin. Putin ordenou que todos oligarcas viessem
a Moscou para uma série de reuniões sobre como reparar a situação.
O governo russo terminou injetando US$ 44 bilhões diretamente nos maiores
bancos estatais russos – Sberbank, VTB e GazpromBank. Além disso,
o presidente russo Dmitri Medvedev anunciou que o governo aplicaria US$ 19,6
bilhões diretamente nos mercados de ações. Esse tipo de
injeção pré-anunciada geralmente cria grandes ineficiências
e consegue muito pouco, pois ela proporciona aos especuladores o tempo necessário
para fazer suas apostas contra a ação do governo.
Mas já tarde do dia 18 de setembro, Putin contradisse publicamente o
seu sucessor, Medvedev, dizendo que o governo não interviria diretamente.
Isso revelou uma dinâmica interessante no Kremlin: Medvedev está
exibindo uma postura enérgica para mostrar que o governo está
cuidando dos mercados e tentando passar às pessoas uma sensação
de tranqüilidade e segurança. Entretanto, Putin está olhando
para a situação financeira real e sabe que o Kremlin não
deve simplesmente queimar quase US$ 20 bilhões sem razão alguma.
Putin e Medvedev têm muito pouca compreensão financeira do que
está acontecendo. Medvedev está apenas olhando para o aspecto
social das coisas, mas Putin está seguindo a expertise do Ministro da
Economia russo Alexei Kudrin, que sabe como administrar o saldo de um talão
de cheques e tem sido muito cauteloso em desperdiçar as reservas financeiras
guardadas com rigor da Rússia, a não ser que isso seja realmente
necessário.
Quando os mercados de ações finalmente abriram em 19 de setembro, era incerto como eles reagiriam. Mas a RTS imediatamente deu um salto de 14%, fazendo com que o governo – preocupado que as coisas pudessem “sair do controle” – mais uma vez suspendesse temporariamente o sistema. O mercado reabriu uma hora mais tarde e deu um salto de mais de 20%, ponto em que o governo fechou o mercado novamente. No fim do dia, a RTS fechou com uma alta de 21% e a MICEX quase 29%.
Mas com os mercados dando saltos mesmo sem uma intervenção direta, a questão era de onde vinha todo esse dinheiro – além dos especuladores esperados que queriam tirar vantagem de um mercado barato. Putin havia impedido a promessa de Medvedev de amparar os mercados, mas eles ainda estava reagindo como se US$ 20 ou US$ 30 bilhões estivessem simplesmente sendo despejados neles por fora da forte subida esperada.
Não é uma coincidência que um montante tão grande de dinheiro tenha sido injetado nos mercados após Putin ter se reunido com os oligarcas. De acordo com fontes do Stratfor, Putin ordenou que os oligarcas entrassem em cena e despejassem o dinheiro que fosse necessário nos mercados para que o governo não precisasse fazê-lo. O fato importante a ser observado é que os oligarcas o ouviram e obedeceram. Os oligarcas russos de hoje em dia não são como aqueles de 10 anos atrás que rejeitavam a autoridade do Kremlin; eles sabem que Putin poderia dispensá-los com a maior facilidade, de maneira que eles têm de aquiescer. A iniciativa de amparar os mercados de ações revelou que Putin tem o controle absoluto sobre os oligarcas.
Mais do isso, o ocorrido mostra que Putin está reafirmando a primazia do Estado em todas as facetas do país. Putin não está querendo aniquilar os oligarcas, como queria no passado; em vez disso, ele quer deixar muito claro para todos que ele os tem numa posição onde pode mandá-los (e os seus bilhões de dólares no país e no exterior) fazer qualquer que seja a sua vontade – algo que muitos países estrangeiros que viram esses oligarcas em ação vão definitivamente notar.