"O homem que impressiona o mundo"
"O presidente do Brasil se converteu no líder indiscutível
da América Latina e uma referência para todos os políticos"
Por José Luis Rodríguez Zapatero, chefe de governo da Espanha
Este é um homem cabal e tenaz, pelo qual sinto uma profunda admiração.
Conheci-o em setembro de 2004, depois da incorporação da Espanha
à Aliança contra a Fome, que ele liderava, em uma cúpula
organizada pelas Nações Unidas em Nova York. Não podia
ter havido uma ocasião melhor.
Luiz Inácio Lula da Silva é o sétimo dos oito filhos de
um casal de trabalhadores analfabetos, que viveram a fome a e a miséria
na área mais pobre do Estado brasileiro nordestino de Pernambuco.
Teve de compartilhar seus estudos com o desempenho dos mais variados tipos de
trabalho e se viu obrigado a deixar a escola, com apenas 14 anos, para trabalhar
no chão de fábrica de uma empresa metalúrgica dedicada
à produção de martelos. Em 1968, em plena ditadura militar,
deu um passo que marcou sua vida: filiou-se ao Sindicato dos Metalúrgicos
de São Bernardo do Campo e Diadema.
[Com Lula], o Brasil, em apenas 16 anos, deixou de ser o país de um futuro
que nunca chegava para converter-se em um formidável realidade, com um
brilhante porvir e uma projeção global e regional cada vez mais
relevante. Por fim, o mundo se deu conta de que o Brasil é muito mais
do que carnaval, futebol e praias. É um país emergente que conta
com uma democracia consolidada e está destinado a desempenhar nas próximas
décadas uma crescente liderança política e econômica
no mundo, tal como já vem fazendo na América Latina com notável
acerto.
Lula tem o imenso mérito de ter unido a sociedade brasileira em torno
de uma reforma tão ambiciosa quanto tranquila. Está sabendo, sobretudo,
afrontar, com determinação e eficácia, os desafios da desigualdade,
a pobreza e a violência, que tanto determinaram a história recente
do país. Como consequência disso, sua liderança goza hoje
no Brasil de apoio e apreço majoritários, mas muito mais importante
ainda é a irreversível aceitação social de que todos
os brasileiros tem direito à dignidade e à autoestima, por meio
do trabalho, da educação e da saúde.
Superando as adversidades de toda ordem, Lula percorreu com êxito esse
longo e difícil caminho que vai desde o interesse particular, em defesa
dos direitos sindicais dos trabalhadores, ao interesse geral do país
mais populoso e extenso do continente sul-americano. Sem deixar de ser Lula,
nessa longa marcha conseguiu, além do mais, despertar as esperanças
de muitos milhões de seus conterrâneos,em especial daqueles mais
humilhados e ofendidos pelo açoite secular da miséria, proprocionando-lhes
os meios materias para começar a escapar das sequelas desse círculo
vicioso.
Ao mesmo tempo, nos sete anos de sua presidência, o Brasil ganhou a confiança
dos mercados financeiros internacionais, que valorizam a inexistência
de dívidas de sua gestão, a capacidade crescente de atrair investimentos
diretos e o rigor com que geriu as contas públicas. O resultado é
uma economia que cresce a um ritmo de 5% ao ano, que resistiu ao ataque da recessão
mundial e está saindo mais fortalecida da crise.
Após converter-se no presidente que chegava ao cargo com o maior apoio
eleitoral, em sua quarta tentativa, Lula manifestou que é inaceitável
uma ordem econômica na qual poucos podem comer cinco vezes ao dia e muitos
permanecem sem saber se conseguirão ao menos comer uma vez. E defendeu:
"Se ao final de meu mandato os brasileiros puderem tomar café da
manhã, almoçar e jantar todos os dias, então terei realizado
a missão da minha vida".
Empenhado nisso segue esse homem honesto, íntegro, voluntarioso e admirável,
convertido em uma referência inescapável para a esquerda do continente
americano ao sul do Rio Grande. Tem uma visão do socialismo democrático
que põe o acento na inclusão social e na justiça meio-ambiental,
para fazer possível uma sociedade mais justa, decente, fraterna e solidária.
O Brasil logo ocupará um lugar no Conselho de Segurança das Nações
Unidas, está a ponto de converter-se em uma grande potência energética
e em 2014 sediará a disputa da Copa do Mundo de Futebol. Quando nos vimos
em outubro, em Copenhague, Lula chorava de felicidade, como uma criança
grande, porque o Rio de Janeiro acabava de ser eleita a cidade organizadora
dos Jogos Olímpicos de 2016. A euforia que o invadira não o impediu
ter a têmpera necessária para vir me consolar porque Madri não
havia sido escolhida e me dar um forte abraço.
A mim, não me estranha nada que este homem assombre o mundo.
José Luis Rodríguez Zapatero é presidente do Governo espanhol.